Saem os bons, ficam os outros
“As gerações mais novas não querem ouvir falar de política, e se os bons não militam, outros militam”
O assunto já foi tema de comentário neste mesmo espaço. Não é novo, mas é mais do que atual. Volto à discussão do afastamento dos bons da vida política brasileira, motivado por alguns fatos novos. Primeiro foi o ex-governador Aécio Neves que, ao participar de sua última inauguração no cargo, chamou atenção para a degradação da vida política no Brasil. Depois os jornais destacaram a decisão de importantes lideranças, de vários estados e partidos, ao desistirem da vida parlamentar. Frustraram-se com a atividade, com o “passar horas discutindo coisas sem importância”, no dizer de um dos desistentes, o hoje deputado Ciro Gomes. Na coluna, que assino diariamente no jornal Hoje em Dia, destaquei a notícia de que mais de 2 mil agentes políticos – prefeitos, parlamentares, gestores – estão condenados hoje por improbidade e outros crimes contra a administração pública. Isto sem falar nos milhares de punidos pelo TCU e denunciados pelo Ministério Público. É a degradação política que leva à degradação administrativa. Aécio Neves, em sua advertência, feita sem qualquer provocação, levantou uma questão que está a exigir reflexões de todos. Segundo ele, que se iniciou na política como deputado federal quando tinha pouco mais de 20 anos, “as gerações mais novas não querem ouvir falar em política, e se os bons não militam, outros militam.” Os outros não disse nem precisava dizer, são os maus políticos, aqueles que buscam mandato para se locupletarem ou para se esconderem, buscando imunidades e foro privilegiado. Há quem, entre os que anunciam afastamento, alegue razões mais profundas que também precisam ser consideradas. Fernando Coruja, de Santa Catarina, por exemplo, diz que se afasta não por estar cansado da política. Para ele, a atividade parlamentar é inútil ou está inútil. Prefere ir exercer a medicina, onde pode ser mais útil ao povo de seu estado. Do que Coruja reclama, vários outros reclamam. É da inutilidade do debate político, do pouco espaço para legislar. O que é realmente importante, que toca diretamente a vida do cidadão, é de competência do Executivo, a quem cabe apresentar projetos. Nem mesmo o direito do aperfeiçoamento das propostas resta aos deputados e senadores, que acabam submetidos ao rolo compressor dos governos, que usam da liberação de verbas para formar bancadas dóceis, sempre dispostas a votar dentro do que ele planeja. Menos sofisticadas são as razões do secretário geral do PT, José Eduardo Cardozo, que não irá disputar a reeleição de deputado federal. Para ele, votos hoje não são angariados pelo convencimento das ideias, pela força do partido ou pela atuação do parlamentar. Só consegue tê-los quem dispuser de uma boa estrutura financeira. Em bom português, mandato é coisa para quem tem dinheiro para gastar ou bons financiadores com quem se comprometer. O resultado disso é que a política já não atrai os melhores. Este, diga-se, não é um problema novo no Brasil. É bem antigo, mas foi agravado com a repressão dos governos militares, que, pela coação, pelo medo, afastaram da vida partidária, dos movimentos estudantis, os vocacionados. Como em política não existe espaço vazio, saíram os bons, entraram os pouco vocacionados para a vida pública e excessivamente preocupados com a evolução material de suas vidas: os corruptos. E isso vai ficar assim até quando? Vem aí uma nova eleição. Muitos dos poucos que são bons vão sair. Seja voluntariamente, desgastados com a vida pública, tragados por aqueles que gastam milhões em campanha, ou que têm a sorte de serem cantores, jogadores ou outra coisa qualquer do ramo. Infelizmente, não tenham dúvidas, vamos piorar ainda mais. Até que nós, eleitores, decidamos pela mudança, pelo “resgate da boa política”, como propôs Aécio.