Quarta, 23 de Maio de 2012
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Entrevista

“Eu não tiro voto do Serra nem da Dilma”

A senadora e candidata a presidente do Brasil pelo PV, Marina Silva, acredita que o país está preparado para ter uma mulher no comando, diz que a preservação do meio ambiente deve perpassar as ações do governo em todos os setores e afirma que o amadurecimento do eleitorado não vai permitir que estas eleições se resumam a um plebiscito entre os que aprovam o governo Lula e os que preferiram o governo FHC

Texto: Márcia Machado | Fotos: Adriano Machado


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Quem assiste à senadora Marina Silva (PV-AC) transitar pelo tapete azul do Senado – magra, cabelos presos em um coque, roupas sempre combinadas com lenços perpassados pelos ombros – pode ter a impressão de fragilidade. Ideia que se desfaz em poucos minutos de conversa. De­licada nos gestos, mas firme na narrativa, a pré-candidata do PV à Presidência da República  é enfática ao fazer a defesa de um novo modelo de desenvolvimento socioeconômico para o Brasil combinado com a pre­servação dos recursos naturais. Nascida em um povoado de seringueiros do Acre, Marina aprendeu a conhecer as horas no relógio e a fazer as quatro operações básicas da matemática aos 14 anos. Mesmo alfabetizada mais tarde, concluiu o curso de História pela Universidade Federal do Acre. Entrou para a política em 1984 quando, junto com o líder seringueiro Chico Mendes, fundou a CUT no Acre. Pelo PT, foi vereadora de Rio Branco por duas vezes, deputada estadual, senadora (está no segundo mandato) e ministra do Meio Ambiente. Em seu gabinete de senadora, em Brasília, Marina Silva fala para a revista Viver Brasil como deve conduzir a sua campanha à Presidência da República. Diz que aposta no amadurecimento do eleitor e pretende levar a sua mensagem no estilo bem próprio, sem atacar os adversários, e bem feminino.


O PT quer transformar as eleições em um plebiscito entre os que aprovam o governo Lula e os que preferem o governo Fernando Henrique Cardoso. A senhora acredita que isso vai ocorrer de fato?
A sociedade sabe o momento de ir além dos limites que muitas vezes a nossa falta de visão política quer lhes impor. Eu acho que esse é o momento em que a sociedade vai romper com essa ideia de ficar medindo os dois passados. Não é que não se tenha que olhar para o passa­do. Tudo que se constrói no presente pensando num futuro melhor deve se considerar os erros e acertos do passado. O que a gente não pode é ficar preso a ele, porque senão acaba virando um trauma. E é isso que está se propondo para o Brasil em pleno século 21? Que se fique comparando os dois modelos dos últimos 16 anos ainda focados na economia do final do século 19 e do 20.

Em recente entrevista a senhora disse que PT e PSDB deveriam ter se juntado no passado. Hoje os candidatos dos dois partidos são parecidos?
O que eu falei é que os dois partidos deveriam ter estabelecido um ponto de contato. Isso não significa assimilação, não significa abrir mão do papel8 de quem é governo, de quem é oposição. Significa uma reelaboração da relação entre governo e oposição. Eu penso que com a experiência vivenciada entre esses dois governos não é possível que não se tenha aprendido que governar sozinho não é possível. De que é preciso estabelecer um ponto de contato naquilo que é a criação de uma governabilidade mínima para o país, em cima daquilo que é mais importante, mais estratégico. Que esses partidos tenham a capacidade, a grandeza de pensar o Brasil um pouco acima dos nossos interesses partidários. O PSDB quis governar sozinho ficou refém do DEM. O PT quis governar sozinho ficou refém do PMDB. É por isso que eu não tenho nenhuma dificuldade de dizer que nós do PV não estamos nem à direita nem à esquerda, nós queremos estar à frente dessas disputas.
 
A senhora tem uma característica de não atacar os adversários. Essa postura será mantida na campanha? Que outro diferencial a candidata Marina Silva tem em relação aos demais?
O principal é o diferencial das propostas. Eu não desassocio os fins dos meios. Você não pode falar de propostas grandiosas com atitudes mesquinhas. E nós não estamos numa campanha onde enfrentamos bandidos. A Dilma é uma pessoa pela qual eu tenho respeito, o governador Serra e o  Ciro Gomes também. Então nós estamos debatendo ideias. Vou fazer esforço muito grande com a minha equipe para que o adversário paute o meu comportamento. Eu acho que é sempre possível oferecer a outra face. Fazer as coisas com mais respeito pelo outro. De amor mesmo pelo próximo. Eu primo muito por esses valores. Eu não vejo a ministra Dilma e o governador Serra como inimigos, mas como pessoas.
  
A senhora vem recebendo apoio de pessoas com perfil tucano (Eduardo Giannetti da Fonseca) e pe­tista (Sandra Starling). Como vê essas adesões?
Acho que as pessoas estão para além desses recortes partidários. A luta socioambiental é transpartidária e ela tem esse caráter de integrar as pessoas, os olhares. Porque tanto PSDB, PT, DEM, PMDB, quanto o cidadão que não é de partido algum, precisa de terra fértil, de água potável, ar puro, de um planeta equilibrado para não comprometer a vida. Isso é uma bandeira que integra.

“Vou fazer esforço  grande com a minha equipe para que o adversário paute meu comportamento. É sempre possível oferecer a outra face”

A senhora tem imagem fundamentada em uma causa. Como a campanha pretende mostrar a Marina Silva executiva?
Tem um provérbio que diz que não é boa prática você ficar falando bem de si mesmo. Isso é algo que se revela no processo. Obviamente que, a bandeira a qual eu defendo, quando fui para o ministério ela assumiu um caráter executivo inscrito naquilo que era a ação de ser o ministro do Meio Ambiente. Quando você pensa o desafio de país que tem de responder da macroeconomia aos problemas de educação, da agricultura à demarcação de terras indígenas, você vai manejar todas essas ferramentas. Com uma diferença, até agora manejaram dissociados da necessidade de preservar os recursos naturais. Vamos trabalhar com todas essas ferramentas integrando a preocupação com a preservação do meio ambiente. Enganam-se aqueles que acham que meio ambiente é um capítulo dentro de um programa de governo. Meio Ambiente deve perpassar todas as ações de um programa de governo.
 
A senhora e o presidente Lula guardam algumas semelhanças como o fato de terem origem humilde e ascendido por meio da política, além de militarem no mesmo partido durante anos. Essa comparação pode ajudá-la nas urnas?
Primeiro eu me sinto honrada com a semelhança colocada com o presidente Lula. Na posição que ele está, nas coisas que conquistou, na contribuição que já deu, independentemente dos erros que cometeu porque todos cometemos erros. Agora, eu acho que as pessoas querem associar a capacidade, o compromisso, mas não é uma coisa só. Não basta ter uma história que veio de baixo. É preciso que você faça a junção das duas coisas: de ser capaz de debater as questões e, sobretudo, ter um testemunho. Eu sempre digo que é fundamental liderar pelo exemplo. A sociedade está exigindo novo tipo de liderança. Essas transições acontecem no mundo todo. Não é mais o salvador da pátria, que tem resposta para tudo. Hoje os processos são multicêntricos, as lideranças são multicêntricas e a sociedade vai exigir que se lidere cada vez mais pelo exemplo.
 
Mas até esse reconhecimento é preciso que haja amadurecimento político da sociedade. A senhora acha que isso já está mudando?
As pessoas cada vez mais vão exigir atitude da liderança política da seguinte forma: o poder é uma ferramenta, então quais são as suas ideias, projetos para o uso dessa ferramenta chamada poder e qual é o meu papel na construção des­se processo. As pessoas estão querendo anular o cidadão, o indivíduo. Eu acho muito interessante quando me perguntam se eu tiro voto do Serra ou da Dilma. É como se tivessem duas cestas, uma do Serra e uma da Dilma. E eu e o Ciro tentando tirar votos dos dois. Eu digo: eu não tiro voto nem do Serra nem da Dilma, se tiver algum voto para tirar vai ser do eleitor, porque ele é dono do seu voto. Essa é visão patrimonialista de querer se apropriar daquilo que é mais sagrado, que é o nosso voto. Eu espero que a sociedade brasileira assuma a prerrogativa de dizer:  Dá licença, que agora nós queremos a palavra. E é nisso que eu estou apostando. Nesse amadurecimento, numa aliança com os núcleos vivos da sociedade: com os jovens, mulheres, empresários, cientistas, enfim todos os segmentos. Sem preterir os partidos. Os partidos têm que aprender que devem agir em rede, que são a parte e não o todo.

Está na hora de uma mulher assumir ou não basta ser mulher?
O Brasil está preparado para ter uma mulher presidente da República, como já acontece na América Latina e em várias partes do mundo. Agora, obviamente a escolha não será pelo fato de ser mulher. Precisa ter a proposta, o compromisso. E eu acho que a mulher na política necessita ter a sensibilidade de operar com as ferramentas do feminino. Muitas vezes as pessoas querem uma mulher desde que ela se masculinize, que use as mesmas práticas: a arrogância, o murro na mesa, o faço e aconteço. E uma das maiores contribuições do feminino no processo de liderança, de gestão, seja no público ou no privado, é a capacidade de negociar, de diálogo. As mulheres têm mais capacidade de estabelecer processos horizontais. São mais acolhedoras da diferença, apostam mais no consenso do que na disputa, têm mais facilidade de dividir a autoria, a realização e o reconhecimento das coisas.

“Acho que a mulher na política necessita ter a sensibilidade de operar com as ferramentas do feminino”

A campanha, como pretende tratar temas polêmicos como aborto, união entre pessoas do mesmo sexo e a discriminalização do uso da maconha?
Esses são temas que serão decididos pelo Congresso onde nós temos a diversidade social, política e cultural. No entanto, eu advogo que no caso da discriminalização da maconha e do aborto se deveria fazer um plebiscito porque esses temas não são apenas questão de discussão técnica. É uma discussão que envolve valores morais, questões filosóficas, espirituais e não será um grupo de iluminados que vai dizer a sociedade como resolver. Então o debate é o melhor caminho.

E o vice? Já tem nomes? Que perfil a senhora gostaria que ele tivesse?
Uma das contribuições do Brasil para a América Latina é que nós somos uma democracia que respeita as diversidades. Não dá para se imaginar que é possível governar apenas para uma parte ou como uma parte. Te­mos que governar com e para o todo. Nesse cálculo entram os trabalhado­res, as empresas, todos os segmentos. O perfil de um vice tem que ser aquele que é capaz de agregar no processo. O Guilherme (o empresário Guilherme Leal, presidente da Na­tura) foi uma pessoa que eu lutei muito para trazê-lo para o PV em tempo hábil. É alguém que está na agenda da responsabilidade soci­o­am­biental há muito tempo.

A senhora está sendo chamada de candidata Avatar. O que acha da comparação?
Gostei muito da beleza plástica, estética, das soluções tecnológicas totalmente sofisticadas e ao mesmo tempo com uma narrativa muito iden­tificada com o que eu conheço das populações tradicionais do mun­do inteiro. Eu me senti honrada com a comparação e até um pouco consolada,  porque como o povo é muito magrinho...


 
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