Quarta, 23 de Maio de 2012
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Educação

Excluídos na escola

Intimidação de crianças pelos colegas, prática conhecida como bullying, fere a autoestima, prejudica aprendizado, e leva até a troca de colégio

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela, Daniel de Cerqueira, SXC, Arte: Paulo Werner/ SXC


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Por que mudou de escola?
Lá me chamavam de gorda, leitoa à pururuca, quatro olhos, dente de ferro. Me empurravam. Não podia nem chegar perto de ninguém. Uma vez encostei a perna num menino e ele me chutou, fiquei roxa.

Mas tinha amigas?
Todo mundo me largou. Ficaram só duas, uma delas também gorda. Elas falavam para eu não ligar, mas não conseguia. É ruim ser excluída.

Você reclamou na diretoria?
Eu contava, mas não acontecia nada. Eu me sentia culpada, ficava arrasada.

Agora na nova escola?
Me sinto mais segura. Fui a um sítio com meus colegas e fiquei assustada, porque teria de colocar maiô e eles podiam rir. Mas aí vi uma menina mais obesa que estava com roupa de dança do ventre. Ninguém falou nada. Lá é bom, cheio de gordinhos com as bochechas vermelhas.


Rogéria Freire: “A gente é pouco tolerante com o que não é igual”
Rogéria Freire: “A gente é pouco tolerante com o que não é igual”

Tão iguais num mundo desigual. A menina da entrevista, aí acima, de nome escondido para não pesar ainda mais o preconceito, foi expulsa aos poucos ao ficar cada dia mais só no meio dos colegas, até ser empurrada silenciosamente do banco para outro lugar, uniforme ao seu físico. Não está sozinha. Há outros iguais a ela, anônimos, atormentados pelo massacre chamado bullying, palavra inglesa para este tipo de abuso intencional e repetitivo sem correspondente na língua portuguesa, que faz vítimas por aqui, lentamente, dentro dos muros das escolas. Uns aparecem fora, outros não, sem medição do número de casos, mas tão falado hoje neste espaço segregado, separado, individualizado, embutido em realidades díspares. 

A garota, de 10 anos, sofreu por estar acima do peso num meio de crianças magras. Outra por ser negra entre tantos brancos, uma por ter dificuldade de aprendizado. Há o que tinha o olho caído e carregava o apelido de olho de peixe aos 7 anos, a perseguição até em festa, onde a professora fez os colegas pedirem desculpas na frente de todos. “Depois deste dia melhorou um pouco. Eu tam­bém cresci e passei a não me importar.” Foi mais de um ano e meio neste tormento, que acometeu o garoto vindo de outra escola e não aceito pelos novos colegas. Levava foto da família para ver durante o recreio só, num canto, a lembrar que havia quem o aceitava. “Me chamavam de filhinho de papai, porque eu chorava. Era um peixe fora d´água.” Fora do que os grupos convencionam como certo, excluem os que destoam, não usam roupas de grife, não têm celular moderno, não gostam de tal música, estudam muito ou são vistos como feios ou acima do peso, fogem do molde do momento.

Isolada nos espaços da escola: perda de confiança, tristeza
Isolada nos espaços da escola: perda de confiança, tristeza

“A gente é pouco tolerante com o que não é igual”, diz a psicóloga Rogéria Freire. Uniformiza no que vê como correto, como o que deveria ser, e o resto é resto. “Parece que tudo que se diferencia torna-se com mais facilidade discriminado, logo alvo do bullying,” diz a psicanalista Cristiana Pittella de Mattos. Não é aceito pelo grupo, que sempre tem seu líder, popular na escola. Mas por que o abuso físico e psicológico que fere, mina a autoestima, isola, expulsa e isto, logo, nos primeiros anos de vida? “Podemos dizer que é algum tipo de mal-estar que afeta crianças e adolescentes e perturba o modo de organizar seu mundo”, explica Cristiana. O intimidador, que comanda os outros, joga na vítima o que é incapaz de suportar nele mesmo, no seu grupo. “O agressor é alguém que tem pouco contato com os sentimentos”, acrescenta Rogéria com a experiência de quem acompanha alunos de 180 escolas públicas na Grande Belo Horizonte e presta assessoria a colégio particular.

É, o ser humano nasce bruto. Na convivência com os outros, nas diferenças, dizem os especialistas, se humaniza. Se isto não ocorre com frequência, torna-se cruel. “A palavra as­sociada ao bullying é a crueldade, algo exclusivamente do ho­mem, a mal­dade pela maldade”, diz a psicanalista Cristiana. Age só para agredir, se sentir fortalecido no meio dos outros.

Cristiana Pittella: “Tudo que se diferencia torna-se alvo de bullying”
Cristiana Pittella: “Tudo que se diferencia torna-se alvo de bullying”

A menina, de 9 anos, discriminada por ter dificuldade de aprendizagem, consequência de déficit de atenção, é chamada de analfabeta, doida, brega por usar calça mais larga. Fica sozinha durante o recreio e é isolada até na van que a leva à escola. “Ninguém senta perto. Hoje é mais desconfiada, acho que está regredindo”, relata a mãe. Sofre com isto, pede para mudar de escola. Se igualar aos colegas, mas em outro lugar, porque lá acredita que o estigma da diferença não se dissipará. A garota, do início da matéria, também. A mãe avalia que foi melhor. “Não queria o troca-troca de malquerença. As crianças são muito cruéis, não deixam escapar nada”, diz. A filha era insultada e revidava. “Tornou-se agressiva. Hoje, na nova escola, está mais tranquila.”

Há os que tomam atitude, não se fazem de vítima e nem devem. A adolescente discriminada pela cor da pele recorreu à diretoria, os meninos foram advertidos e pararam com a perseguição. No ano passado, ela conta que uma propaganda contra abuso de meninas fez voltar a intimidação, tudo por causa da música. “Eles cantavam quando eu passava. Ficava chateada, chorava. É muito triste.” Queixou-se novamente à diretoria e os agressores advertidos. “Está no regulamento da escola”, reforça. Enfrenta, sabe dos seus direitos, mas há os mais frágeis, tímidos, que sofrem calados, têm medo de denunciar e aí perpetua o bullying, uma relação desigual, onde o agressor se sente fortalecido para intimidar o mais fraco.

“O bullying causa não só a desumanização da vítima, mas também daquele que o pratica”
Cristiana Pittella de Mattos, psicanalista

“A escola precisa passar confiança ao aluno: se ele recorrer não vai levar bronca”, afirma a pedagoga paulista Adriana Iassuda. Nem sempre os professores sabem da ocorrência, vai aos poucos, sintonizada numa crítica hoje, outra amanhã e quando se apercebe a situação é danosa. “Fala que o cabelo está horrível. Depois pergunta se engordou e assim vai, com a multiplicação de pessoas dizendo a mesma coisa. Chega num momento que a menina nem quer sair de casa.” Junto vem a perda de confiança em si, a revolta, a tristeza, a agressividade.

Há que se atentar, pais e colégios, para esse problema comum na maioria das escolas, que prezam o conteúdo e relevam a socialização. O que fazer? “É necessário criar espaços para diálogos, reflexões, e também onde os educandos possam conviver e viver com realidades diferentes”, responde Rogéria Freire. Mostrar a interseção de mundos fora da comodidade intramuros do colégio, do condomínio onde mora, do seu grupo social tão igual. “O aluno que reflete mais, dialoga, escuta o outro.” Aí, se humaniza, lapida a brutalidade que vem junto com a gente, bane o bullying, essa palavra que não tem nada de português. “Ele causa não só a desumanização da vítima, mas também daquele que o pratica”, lembra Cristiana Pittella Mattos. Perdem-se todos na busca de igualdade, que isola.


 
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