Durante minha última conversa de bar, desentendi-me com um amigo. O cara disse que eu estava fazendo média com as mulheres, que escrevia sobre elas para chamar a atenção e que as mesmas são sempre as culpadas pelos fracassos dos relacionamentos. Eu discordei. Ele me questionou: “Então por que a maioria dos seus textos fala de mulheres? E por que elas andam tão exigentes e frustradas?” O celular tocou, a conta chegou e não respondi. Então aí vai.
Amigo, minha razão é simples e serve para as duas perguntas. As mulheres são muito mais interessantes. Mesmo com toda previsibilidade (jogos, manipulações, frescuras), elas ainda conseguem nos surpreender com surtos emocionais, novas manias ou modismos de comportamento. O homem não. Ele é chato, sem graça, sem novidades. Você, por exemplo. Continua um bobo, uma criança louca para ter o carrinho mais legal, os brinquedinhos mais modernos e conquistar as meninas mais perfeitinhas e desejadas. Seu sonho é ser o dono do playground e matar todos os coleguinhas de inveja.
Para não dizer que você não mudou em nada, tenho que reconhecer seu novo apego à vaidade estética – nada mais do que reflexo da sua crescente insegurança. Você agora quer ser peitudo, coxudo, bundudo e faz topless em público sem a menor necessidade. Além de tudo, é incompetente. Até hoje não se libertou deste seu machismo anacrônico e ofensivo. Tem medo de assumir que está apaixonado. É romântico por conveniência: na fase da conquista, quando precisa desculpar algum vacilo ou convencer a mulher a fazer um ménage a trois. Na frente dos amigos, evita ser carinhoso e amável para não ouvir gozações. Prefere piadas grosseiras a gestos apaixonados. Precisa ser duro, mostrar que tem controle da situação. Tem vergonha do amor porque este expõe sua fragilidade.
Você insiste em associar relacionamento à falta de liberdade. Foge do compromisso como quem foge da prisão. Não consegue achar o equilíbrio. E jura que a grama do vizinho é sempre mais verde. Ou que o outro vizinho, mesmo sem grama nenhuma, ainda assim é mais feliz.
Permanece infantil e pirracento. Só aceita se casar se for com a própria mãe. Precisa de uma pessoa disponível, dona de inesgotável capacidade de cuidar, perdoar e repleta de valores imaculados. E mais: tem que ser linda, gostosa, top. Alguém com o passado limpo, que não sofra tentações, não vingue traições, abaixe a cabeça para grosserias, não tenha amigas chiliquentas e nem gaste dinheiro com bobagens. Nada que um e-mail enviado ao Papai-Noel não resolva: “Fui um bom menino, ganhei todos os bônus de fim de ano na empresa. De presente, eu quero a madre Teresa com o rosto da Gisele Bündchen e a bunda da Juliana Paes. E sem TPM.”
Esse seu machismo é tão antiquado que chega a ser inocente. Por respeito à mulher, você se esforça para encobrir suas traições. Mas, se ela descobrir e o largar, não pode ficar com ninguém na sua frente. É falta de respeito. E tome showzinho. É macho suficiente para aprontar, terminar ou desdenhar, mas não para largar o osso.
Meu compadre, pois então, em vez de experimentar de tudo até achar o osso top, procure ser um cachorro melhor (ou deixe de ser cachorro de uma vez!). Valorize o que você tem, pois está difícil de encontrar. Ainda mais agora, que o rebaixei a vira-latas. Mas não se preocupe, você não será o único a ter este texto esfregado no focinho. O canil está cheio, o que mais falta por aí é pedigree.
E não adianta latir pra mim achando que eu só quis queimar o seu filme. Você pediu uma explicação, eu dei. Muito menos quis fazer média com a mulherada. Não é o momento. Estou feliz e tranquilo. Mesmo sem ter enviado e-mail ao Papai-Noel. Mesmo sem estar namorando a minha mãe.