Quarta, 23 de Maio de 2012
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Cidades da Copa 2014

Bola Dividida

Brasília vive clima de incertezas devido à crise política mas, quando o assunto é a Copa 2014, autoridades se apressam a falar das qualidades e projetos da capital federal

Texto: Angélica de Castro | Fotos: Nélio Rodrigues


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Os projetos vão desde melhoria nas vias de acesso ao Plano Piloto, à ampliação da rede hoteleira, área de recreação, reforma do estádio Mané Garrincha, treinamento de profissionais e capacitação de voluntários. Com a vantagem de o torcedor ter tudo dentro do raio de 2,5 km do estádio. Brasília se gaba ainda por ser a única cidade planejada, com menor índice de violência, maior renda per capita, menores problemas de trânsito e com alguns projetos já em andamento, como a Linha Verde, desenvolvida para dar vazão à EPTG, uma das principais vias de acesso ao Plano Piloto. A linha faz parte do progra­ma Brasília Integrada que inclui a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), novo sistema de transporte público que será instalado na cidade, ligando o aeroporto ao centro. A proposta é reduzir o número de ônibus dentro do Plano. Outro projeto é a construção de 600 km de ciclovias além da licitação, em andamento, para a expansão do metrô ligando um número maior de cidades satélites ao centro. Bem, discurso a capital federal possui de sobra. Res­ta saber se o recente escândalo do mensalão do DEM, do qual parti­cipava o ex-governador José Arruda, não trará nenhum prejuízo ao cronograma de obras.

A reforma do estádio Mané Garrincha que tem orçamento de 700 milhões de reais custeados pela venda de um terreno da Terracap, imobiliária do Distrito Federal, para ampliar o setor Hoteleiro Norte, pode ser um dos atingidos pela crise política que assola a capital federal. A ação, aprovada pelo ex-governador José Arruda não aconteceu e pode ser barrada pelo próximo governador (não definido até o fechamento desta edição). O secretário de esportes, Hebert Felix, no entanto, acredita que isso não acontecerá. “Qual político quer ficar na história como o que impediu Brasília de sediar jogos da Copa?”, argumenta o secretário sobre as chances das obras não começarem até 3 de maio, data final da Fifa.


Perspectiva do estádio Nacional de Brasília
Perspectiva do estádio Nacional de Brasília

As exigências da Fifa foram atendidas no novo projeto do Mané Garrincha. O autódromo, atrás do estádio, será transformado em estacionamento durante o evento, ampliando de 12 mil para 35 mil vagas, 300 delas dentro do estádio. O Centro de Convenções Ulysses Guimarães, com 50 mil m2 funcionará como o centro de mídia com capacidade para 12 mil jornalistas, ligado ao estádio por um túnel subterrâneo com esteiras horizontais e espaço para galeria. Sérgio Graça, gerente da comissão da Copa 2014 em Brasília, afirma que o espaço será usado em caso de demanda e não se tornará um elefante branco, já que há precisão de estacionamento no local.

As dependências do novo estádio contam também com dois restaurantes com 400 lugares cada, 60 camarotes, 1,1 mil cadeiras vips, 115 assentos vips, assentos business, arquibancadas superiores e inferiores totalizando 71 mil lugares. “Há ainda a área de 85 mil m2 que servirá de central hospitalar, local em que os patrocinadores utilizam para trabalhar o relacionamento com o cliente e a área para TV de 20 mil m2 nos arredores do estádio”, conta Hebert Felix,  que indaga qual outro estádio no país tem tanto espaço nos arredores.
Já o estádio Valmir Antônio Campelo Bezerra, o Gama, primeiro do Distrito Federal a ser reformado dentro das normas da Fifa, servirá como centro de treinamento para as delegações. “O estádio foi inaugurado em 2008 no jogo Brasil x Portugal, mas até 2014 o Gama deve passar por reformas”, diz Meire de Souza, assistente de administração do estádio.

Obras em vários pontos: melhoria no trânsito
Obras em vários pontos: melhoria no trânsito

A venda de um terreno ao lado do estádio Mané Garrincha para a rede hoteleira ainda está indefinido. Clayton Faria Machado, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (Sindhobar), confirma que a instabilidade política do momento gera receios no meio. Desde janeiro, Brasília enfrenta uma crise no setor recreativo. “Em tempos de incerteza as pessoas cortam o supérfluo.  A iniciativa privada também é assim. Ela só começará qualquer investimento quando houver a certeza de que Brasília realmente sediará a Copa.”

A rede hoteleira do Distrito Fe­de­ral tem ocupação, segundo a Bra­siliatur, de 80% entre terça e quinta-feira. No restante da semana não che­ga a 20%. Machado afirma que ampliar a rede hoteleira pode gerar elefantes brancos pós-Copa. “A ocupação no fim de semana reduzirá para menos de 10%. Os hotéis não se sustentarão assim. Não acredito em construção de hotéis apenas para a Copa. Se confirmar mesmo Brasília como se­de, o setor privado faz a estruturação rapidamente. Já a qualificação, precisa de tempo maior”, argumenta.

Hebert Felix e Sérgio Graça: membros da Comissão da Copa 2014
Hebert Felix e Sérgio Graça: membros da Comissão da Copa 2014

Em parceria com o Ministério do Trabalho, o Sindhobar irá capacitar e reciclar profissionais do setor que possui 10 mil empresas com cerca de 100 mil trabalhadores. “Brasília tem um problema cultural em que as pessoas veem o setor como bico. Não se estabilizam e, por tabela, são desqualificados. Queremos mudar essa mentalidade. Em qualquer lugar do planeta existe um bar e uma pensão. Também é o ramo que mais proporciona ascensão social. Com 1 milhão de reais investidos em um restaurante você gera 40 empregos. Na indústria, gera 3 ou 4 vagas”, diz Machado.

Ainda no tema qualificação, em 2009, pouco antes de deixar o governo, o secretário de educação aprovou o projeto Um Gol de Educação na Copa de 2014 em que os Centros Interescolares de Línguas (Cils) iniciassem treinamento com pouco mais de 2 mil alunos com idade entre 13 e 15 anos para que fossem voluntários no mundial.  Ana Cristina da Silveira Chaves, idealizadora do programa, já tem aprovação para continuar com o projeto pela nova secretária, mas não a promessa de que os alunos da rede pública estarão mesmo entre os 3 mil voluntários exigidos pela Fifa para participarem do mundial. A verba para o projeto também não existe. “Quando conversei com a secretária, ela disse que, se houvesse  necessidade de verba, eu teria que reiniciar o processo para consegui-la. Optei por começar o projeto e conse­guir o apoio da iniciativa privada para uniforme, trans­porte e alimentação dos meninos durante a Co­pa.”

Davi Rodrigues: “Sem fiscalização não seremos beneficiados”
Davi Rodrigues: “Sem fiscalização não seremos beneficiados”

Em Brasília, alunos da rede pública de ensino podem estudar inglês, francês e espanhol gratuitamente nos 8 Cils que existem e atendem 30 mil estudantes. Além do aprendizado da língua estrangeira, o adolescente que for aprovado para participar do programa para formação de voluntários terá aulas de cultura geral, história de Brasília e sete outros módulos complementares para que esses jovens tenham a desenvoltura necessária para atender em qualquer área que sejam direcionados. “Mas tenho medo de começar o programa no próximo semestre, treinar esses meninos e daqui a quatro anos eles não serem escolhidos como voluntários.”

Os taxistas de Brasília optaram por não esperar a parceria com o governo. Duas turmas de inglês e espanhol já foram criadas pelo sindicato, que aguarda a Brasiliatur para abrir novas turmas. Além de aulas, haverá empre­en­dedorismo e pontos turísticos. Trezentos e cinquenta ta­xistas estão matriculados e aguardando. Davi Rodrigues Sevilha, taxista desde 1988, concorda que fazer o curso pode facilitar o atendimento, mas em nada ajudará na Copa se o trânsito mantiver-se engarrafado como em dias de jogos e shows. “Também há muito freelancer trabalhando como taxista e vans que fazem transporte ilegal. Se não houver fiscalização, não seremos beneficiados.”

Estádio do Gama: opção para treino das delegações
Estádio do Gama: opção para treino das delegações

Outro problema no trânsito em Brasília é conseguir trafegar. Não há placas que identifiquem as vias. Quando existem, ficam após as entradas ou estão danificadas pelo tempo ou vandalismo. Até com GPS se perde. O sistema não está adaptado ao formato de endereço que deve constar região, quadra e número. Além disso, as vias, mesmo as que têm nome, são conhecidas apenas por siglas. Se não fosse a solicitude dos candangos (nascidos ou de coração) ficar perdido em Brasília seria algo normal.

A proposta para o trânsito, segundo o gerente da comissão da Copa 2014 em Brasília, Sérgio Graça, é ter um evento verde. “Aproveitamos que Brasília é plana para incentivarmos as pessoas a deixarem o carro na garagem. O turista que vier à Brasília poderá fazer tudo o que precisa no raio de 2,5 km. O que inclui o setor hoteleiro sul, dois hospitais e uma área de recreação com bares e restaurantes. Nenhuma outra cidade tem a possibilidade de ter uma Copa tão verde”, comenta.

Brasília em Números

  • Área: 5.802 km2
  • Densidade demográfica: 7.903 hab./km2
  • IDH: 0,854 (maior média nacional)
  • PIB: R$ 37,600 per capita
  • População: 2.606 milhões de habitantes

Os dois lados da moeda

De goleada

Estádios

  • Além do estádio Nacional de Brasília, a cidade conta com o estádio do Gama, já dentro das regras da Fifa, além de outros, totalizando 30 campos oficiais

Rede Hoteleira

  • A maioria das unidades hoteleiras, principalmente, aquelas de padrão superior encontra-se localizada nos setores hoteleiros Norte Sul, ambos a  3 km do estádio e bem próximos à Estação Central do Metrô, VLT e a menos de 15 km do aeroporto. O Setor de Hotéis e Turismo Norte, às margens do lago Paranoá, está a 8 km do estádio. E as 28 localidades que compõem o Distrito Federal, todas atendidas pelo Sistema de Transporte Urbano Integrado (ônibus, metrô e VLT), incluindo 11 hotéis-fazendas

Localização privilegiada

  • Brasília está equidistante das capitais do país

Economia

  • PIB per capita é quase o dobro da média nacional

Trânsito

  • A quilometragem de engarrafamento anual é pequena comparada a São
    Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Segurança Pública

  • A cidade tem o melhor índice de agentes de segurança pública por habitante do Brasil, acima do que a ONU recomenda. Sem contabilizar os efetivos da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança Pública e efetivos militares. Além disso, serão instaladas 900 novas câmeras de segurança na cidade

Na retranca
  

Aeroporto

  • O Aeroporto Internacional JK, o terceiro maior do país, precisa de reforma. Sua capacidade aumentará de 15 milhões para 25 milhões por ano e o estacionamento de 1,2 mil vagas, para 5 mil vagas. No entanto, a data prevista para iniciar as obras de ampliação ainda não foi definida

Trânsito

  • A falta de sinalização deixa a cidade confusa para os turistas

Taxi

  • Está em 17º lugar com a maior tabela do mundo, segundo o Sindtaxi. Já esteve em primeiro lugar

Capacitação

  • Falta qualificação no atendimento em hotéis, restaurantes, pontos turísticos, além de poucos pontos de apoio ao turista.

Situação política

  • O escândalo envolvendo o ex-governador José Arruda, 18 deputados e o afastamento de vários secretários levou a uma sensação de incerteza
    Várias obras e projetos estão parados.
Vista panorâmica do complexo esportivo e área usada para ampliação do setor hoteleiro norte
Vista panorâmica do complexo esportivo e área usada para ampliação do setor hoteleiro norte
  • Autódromo funcionará como estacionamento ampliando capacidade para 35 mil vagas
  • Apenas o ginásio, reformado em 2009 será mantido como está
  • Terreno que será vendido para custear reforma do estádio e parte do VLT

 

Galeria de Fotos

  • Veja como ficará o estádio Nacional de Brasília após a reforma.

Confira os bastidores da matéria aqui.


 
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