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CapaMensagens dos VivosNo mês em que se comemora o centenário do maior médium do Brasil, Chico Xavier, a Viver Brasil foi até sua cidade natal, Pedro Leopoldo, desvendar mais algumas histórias de sua vida de doação ao próximo por meio de pessoas que conviveram e aprenderam a admirá-lo
Texto: Eliana Fonseca e Luciana Avelino | Fotos: Victor Schwaner, divulgação, Arte: Paulo Werner sobre fotos divulgação
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Amigos de infância, outros que trabalharam na mesma repartição, aqueles que conviveram com o médium, todos têm a mesma opinião sobre Chico – ele se aproximou muito da visão que temos de um santo. Mas, como o psicólogo e escritor Jhon Harley Madureira, autor do livro O Voo da Garça – Chico Xavier em Pedro Leopoldo – 1910-1959, faz questão de enfatizar, talvez o que mais o sintonizasse com as pessoas fosse sua faceta demasiada humana. “Chico Xavier era um ser humano como qualquer um de nós, mas que vivendo intensamente sua humanidade, dava-nos a impressão de um ser diferente e especial”, diz.
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É uma aproximação que comove não só os conterrâneos. No ano em que completaria cem anos, se estivesse vivo, são inúmeras os lançamentos que movimentam o já grandioso mercado de tudo que leva o nome Chico Xavier. Neste mês, além da estreia de Chico Xavier – o Filme, também serão lançadas uma novela, Escrito nas Estrelas, e uma minissérie, A Cura, amparadas na doutrina pregada pelo médium. No restante do ano, também estão previstos os lançamentos dos longas Nosso Lar, dirigido por Wagner Assis; As Mães de Chico, de Glauber Filho; E a Vida Continua..., de Paulo Figueiredo; o documentário As Cartas, de Cristiana Grumbach, e algumas peças de teatro. |
Quem buscou Chico
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Dono de um número espantoso de vendagem de livros – somente os títulos publicados pela editora da Federação Espírita Brasileira (FEB) somam quase 18 milhões de exemplares, Chico psicografou nada menos que 451 livros. Alguns falam de uma marca aproximada, mas não confirmada, de mais de 50 milhões de livros comercializados. O que se sabe é que algumas obras, caso de Nosso Lar alcançou 1,79 milhão de exemplares vendidos. A expectativa da editora FEB, segundo sua gerente comercial Isabel Cristina, é que a vendagem de livros de Chico Xavier para este ano chegue a 1,2 milhão por causa do centenário. Só para comparação, no ano passado, essa comercialização chegou aos 400 mil exemplares. É também neste mês o relançamento de alguns dos seus mais famosos títulos como Parnaso de Além-Túmulo; Chico Xavier, o Obreiro do Senhor; Castro Alves, o Apóstolo da Liberdade; Os Dois Francisco (Chico Xavier e Francisco de Assis); e Depoimentos sobre Chico Xavier. Sem falar nos inúmeros congressos, seminários e eventos envolvendo o seu nome. Talvez o maior deles seja o 3º Congresso Espírita Brasileiro, que reunirá, de 16 a 18 deste mês, mais de 5 mil pessoas em Brasília, incluindo representantes espíritas de 46 países. Frases de Chico “O telefone só toca de lá para cá” “Todo médium é falível” “O espiritismo nos pede paciência para esperar processos da evolução e ações dos homens que presidem os governos” “Trabalhe. Há quem sofra muito mais que nós mesmos. Repare nos abandonados e nos infelizes” “Como eu ficaria diante de tanto sofredor que me procura e vai a caminho do bisturi como boi para o matadouro? Eu vou querer facilidades? Tenho que me operar como os outros, sofrendo como eles” “Deixa a água do silêncio trabalhar nos incêndios. Nunca revidemos” “Devo me dedicar à família espírita, à família universal. Não posso ficar preso a uma mulher” “O que eu preciso é de um bom travesseiro na consciência para dormir com tranquilidade e, esse tesouro, graças a Jesus, não tem me faltado” |
Sagaz e espirituosoContando o tempo para trás, são mais de 90 anos de uma vida para relembrar e em partes dessa memória, um Chico Xavier que ninguém conhece. O Chico criança, tímido, calado, mas extremamente sagaz, inteligente, espirituoso Não era novidade na casa de Marieta e Sílvio Bahia, pais de Auxiliadora, os maus-tratos que Chico sofria por parte da madrinha. “Meus pais faziam questão que ele almoçasse em nossa casa, que ele ficasse ali, para protegê-lo. E isso não mudou com a morte de Gentil”, diz. Espécie de anjo da guarda de Chico, a família Bahia também se preocupou quando o menino parou de estudar logo após o primário. “Minha irmã Zenith dava aulas particulares para ele porque o considerava um aluno acima da média.” Católicos convictos, o afastamento não aconteceu mesmo com o início da mediunidade de Chico. O que não quer dizer que a cidade aceitasse de bom grado o filho espírita. Ele enfrentou preconceito e quem o seguia também. Auxiliadora começou a frequentar o Centro Espírita Luiz Gonzaga nos anos 50 e conviveu com as críticas das carolas. “Num sermão, o padre explicitou que era impossível acender uma vela para Deus e outra para o diabo”, relembra. Ficou do lado de Chico, de quem foi amiga até a morte dele. “Antigamente, parte da população era sectária e havia uma divisão entre católicos e espíritas. Chico Xavier mudou a nossa história. Hoje somos unidos.” |
Ser humano perfeitoEles trabalharam juntos por mais de 30 anos na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo, e não foram poucos os casos que Alcindo de Oliveira, 90, ouviu e presenciou sobre a mediunidade do amigo Chico Xavier. Depois de alguns meses de trabalho, Chico perguntou se o irmão de Alcindo, que ainda estava vivo, dormia no cemitério. “Era algo que ninguém sabia. Acho que nos primeiros dias em que nos encontramos, ele já queria perguntar sobre isso, mas para não me assustar, esperou um tempo”, conta bem-humorado. Oliveira faz questão de contrapor o ditado de que ninguém nesse mundo é perfeito. “Chico era. Além de tudo era um monumento de discrição.” Mesmo com a convivência, Oliveira faz questão de frisar que nunca o espiritismo, e também religião nenhuma, o fez mudar de lado. É ateu. “Em todos os anos de convivência, o Chico sempre me respeitou muito. Ele nunca me convidou para uma sessão mediúnica em um centro”, conta. Não quer dizer que Alcindo não tenha presenciado fatos inexplicáveis. Em um deles, a família de um rico industrial, sabendo de sua amizade com Chico, pediu-lhe para que levasse o médium até a empresa deste homem. Tudo porque o empresário estava em crise e queria matar a secretária. “Quando chegamos, eu e o Chico neste local, ele descobriu que o pai da secretária havia matado o pai do empresário numa cidade do interior. O espírito do pai do empresário estava querendo vingança”, relembra. Chico passeava com naturalidade pelo sobrenatural, mas sempre lembrava aos amigos o quanto era humano. Foi o caso quando ganhou um piano de admiradores do sul do país, que esperavam que, assim como psicografava livros, seria capaz também de terminar alguma obra grandiosa de um compositor clássico. “Quando ele ganhou aquele piano, a primeira pergunta foi: o que vou fazer com isso? Sentou-se e logo arrumou uma professora para ensiná-lo.” Assim, também foi com o inglês e o esperanto. Sim, Chico também quis aprender esperanto. Tudo porque o médium queria incentivar uma língua internacional que facilitasse a comunicação entre os vivos, ou encarnados, |
Gosto pela música e cinemaMais do que a fama de maior médium do Brasil, o que fazia o aposentado Geraldo Leão, 74, ter a certeza que Chico Xavier estava por perto eram as risadas, altas, que podiam ser ouvidas em sua casa, que ficava ao lado do irmão do médium, André Luiz Xavier. Leão tinha pouco mais de 20 anos. Os saraus aconteciam durante a noite e as composições clássicas de Choppin, Liszt, Wagner, Beethoven eram as preferidas. “Geralmente, ele saía do Centro Espírita Luiz Gonzaga por volta das 22h, 23h e ficava até 1 hora da madrugada nesses encontros promovidos na casa da família”, diz. O aposentado, hoje responsável por um dos maiores acervos públicos de Chico em Pedro Leopoldo, ainda guarda o impacto da primeira vez que viu o morador ilustre da cidade. “Ele era diferente das demais pessoas, descontraído, fazia o sapato de chinelo, usava um paletó mais largo. Quando o conheci, ele era um homem forte, bonitão mesmo”, diz. Foi essa simplicidade que fez Leão considerar Chico um homem comum. “Demorou alguns anos para perceber a grandiosidade daquele ser.” Quando percebeu, começou a colecionar um arquivo completo, com fotos, objetos de uso pessoal, livros, áudios, disco. Ficava atento à rotina do médium. Apesar do dia a dia puxado por causa dos constantes atendimentos do médium, somados ao trabalho no Ministério da Agricultura, ele encontrava tempo para a música que amava e também para o cinema. “Lembro-me que uma vez assisti, do seu lado, ao filme ‘Carrossel’ (de 1956, dirigido por Henry King) e, ao final, emocionado, Chico disse que aquilo era uma poesia em forma de filme. Ele gostava muito de ver filmes”, relembra. Leão não é espírita, mas tal qual outras pessoas que conviveram com o médium, também presenciou, mais de uma vez, os fatos inexplicáveis que aconteciam na presença de Chico Xavier. Um amigo, coincidentemente de nome Geraldo, passava por uma fase ruim na vida. “Estávamos os dois juntos quando encontramos o Chico e ele disse: pode ficar despreocupado Geraldo, |
Empatia com sofrimento alheioTal qual aconteceu há 42 anos, quando tinha 17 anos, a professora aposentada Célia Diniz se posta diante da mesma biblioteca utilizada por Chico Xavier para as consultas das reuniões do Centro Espírita Luiz Gonzaga. E relembra o dia em que Chico revelou, naquela sala, enquanto Célia procurava um livro para ele, que antes mesmo de ela nascer já a conhecia. “Ele me falou: Célia, você está exatamente igual ao primeiro dia que a vi, ao lado dos seus pais, um ano antes do seu nascimento”, conta. Surpresa? Não para Célia que aos 18 dias de vida mudou-se para a Fazenda Modelo e lá conheceu o médium. Os pais, espíritas, eram amigos de Chico, e a lembrança da infância era a de um homem que, ao contrário das relações em voga na época, em que os adultos mal conversavam com as crianças, agia diferente. “Para ele, as crianças não eram invisíveis. Ele chegava, nos cumprimentava, dava carinho. Era diferente no trato”, diz. Célia diz que a convivência com Chico fazia as pessoas melhores. Dono de uma generosidade sem limites para com o próximo, ela fala de um amor incondicional. “Conviver com Chico, ser amiga dele, era meio ter um colo de mãe. Mais do que empatia com o sofrimento alheio, Chico entendia cada pessoa em sua particularidade”, afirma. A bondade exacerbada faz Célia colocar Chico num patamar de homens que tiveram uma missão especial em sua vida pela terra, como Gandhi, Martin Luther King, Irmã Dulce. “Para as pessoas terem uma ideia da preocupação de Chico com o próximo, quando criou o Centro Espírita Luiz Gonzaga, deixou registrado em ata que o dia em que o centro não fosse mais de socorro espiritual e fraternal para as pessoas, ele deveria deixar de existir. Era esse o seu pensamento, o de servir ao próximo. Nosso desafio é dar continuidade a este trabalho”. Perguntada sobre a missão de Chico Xavier, Célia observa que ele chegou em um momento de expansão do espiritismo, em que seus seguidores enfrentaram preconceito, vencido a duras penas. “Emmanuel costumava dizer a Chico, quando havia algum tipo de calúnia ou preconceito: ‘serve e segue em frente. Não pare para receber pedradas’. E ele seguiu à risca o conselho.” |
DiscípuloAtual curador da nomeada Casa Chico Xavier, residência fixa do médium no centro de Pedro Leopoldo entre os anos de 1948 e 1959, Élcio Marques conviveu 30 anos ao lado do espírita. Revitalizada pelo empresário belo-horizontino Geraldo Lemos, a casa abriga hoje objetos pessoais do médium, pôsteres com reproduções de fotos, espaço aberto para atendimentos de preces e cultos, exatamente onde Chico psicografou vários livros. Bem antes de se tornar adepto da doutrina espírita, por causa da influência do médium, em 1968, Élcio já conhecia Chico pela ajuda semanal que prestava à sua mãe, viúva com 13 filhos. “Durante anos, aos sábados, ele levava um pão de 1kg. Dentro dele, ainda enrolava num saco plástico, dinheiro para complementar.” E foi na própria Casa de Chico, que o espírita colocou a mão no peito de Élcio e a partir daí, nunca mais ele teve crises de asma. “Lembro que fiquei embriagado com o perfume que inundou todo o ambiente.” Além de cuidador e responsável pelo patrimônio, Élcio coordena um grupo que, religiosamente, faz visitas e distribuição de alimentos à população carente da cidade às terças-feiras, inspirado no hábito do médium. Para Élcio, o convite do atual trabalho é uma bênção em sua vida. “É uma oportunidade de servir às pessoas, aprender com elas, ser útil. Sinto que aqui compartilhamos uma energia boa e que as pessoas vêm em busca de algo que as possa aproximar dele, seja a partir de ensinamentos, fé, auxílio.” E, segundo Élcio, o guia espiritual Emmanuel sempre estimulava Chico a ir à periferia quando estava triste, solitário, desanimado. “Na volta de seus passeios, Chico dizia que ficava com vergonha de seus problemas, tão pequenos comparados às angústias e dissabores alheios.” |
Conduta irrepreensívelNascido em família tradicional católica, o amigo e ex-colega de repartição da Fazenda Modelo, Carlos Alberto de Miranda, hoje aos 82 anos, lembra-se de um dos episódios surpreendentes que faziam parte da rotina de quem convivia com Chico Xavier. “Um dia, antes de sair de casa para o trabalho, minha mãe, que tinha sido professora dele, contou-me que tinha sonhado com o Chico à noite. Quando cheguei ao escritório, a primeira coisa que o Chico me disse foi justamente que havia tido um sonho com ela. E ainda o descreveu em detalhes.” Fisicamente, Carlos descreve o amigo como um homem bem apessoado, sem vaidades. “Como pessoa, dono de uma conduta irrepreensível, além de muito espontâneo. Um modelo de virtude, despreendimento, uma pessoa incomum.” No quesito amizade, era um ombro a quem podia recorrer com frequência, dos tempos da adolescência à época em que também morou em Uberaba para estudar odontologia. “Parecia adivinhar os problemas, as angústias da gente. Sempre tinha palavras de estímulo, otimismo. Quando perdi meu filho aos dois anos de idade, ele me confortou muito.” Também sabia brincar, era bem-humorado.” Apesar de divulgar a doutrina, nunca tentou convencer Carlos a trocar o catolicismo pelo espiritismo. “Era discreto, não misturava as coisas. No trabalho, era empenhado, concentrado. A minha afinidade com ele era maior em relação ao |
Dedicação à caridadeNascidos e criados na mesma rua, em Pedro Leopoldo, o dentista e escritor José Issa Filho era 13 anos mais novo do que Chico. “Apesar da diferença de crenças, ele espírita e a gente católico, nossas famílias eram amigas e tinham um convívio estreito. Tinha muita história com minha mãe e vice-versa. Sempre passava para vê-la na loja que tinha aqui na cidade. Uma vez, ganhou uma pedra de topázio e deu de presente para ela. Aprendi com ele que não é a religião que faz a gente e, sim, o que temos de essência.” A inteligência fora do comum e a memória impressionante eram outras características que José destaca no médium. Chico também era bem alegre. “Tinha uma risada alta que a gente escutava de longe. Gostava de conversar sobre cinema, música, contar casos. Eu costumava reunir amigos no passeio da minha casa, à noite, em torno de uma vitrola. Quando podia, ele passava lá assim que saía do centro espírita.” José Issa se sente grato a Chico pelos seus exemplos. “Com ele aprendi a tentar ser mais humilde, aceitar os outros como são, não ter inveja, ser paciente.” Em todos os anos de convívio com Chico Xavier, frequentou uma única reunião espírita. “Fui mais por curiosidade. Não duvidava da crença dele, porque não tinha como. Simplesmente não a adotava porque tive uma formação católica muito rígida. Hoje, não não vou mais à igreja nem frequento centros espíritas, mas leio publicações da doutrina espírita. Acho que qualquer religião é boa, tanto é que há cerimônias ecumênicas”, conta o amigo que dedicou várias passagens a Chico em uma de suas obras publicadas. Hoje, aos 86 anos, José Issa avalia que Chico viveu de forma admirável. “Teve uma vida sofrida pela pobreza, ajudou a criar os irmãos e meio-irmãos (ao todo 12), suportou sem reclamações seus sofrimentos e, ainda, tão novo, decidiu se dedicar à caridade.” Em uma de suas vindas ao seu consultório odontológico (Chico tratava os dentes com José Issa), o médium o deixou admirado. Enquanto esperava ser atendido, Chico ficou na antessala folheando a revista da época O Cruzeiro. “Quando entrou na sala, cumprimentou-me e, em seguida, recitou de cor uma poesia que tinha lido na revista, a mesma que há pouco eu havia lido e gostado muito, só que bem antes de ele ter chegado lá.” |
Voo da garçaA mulher, sofrida, foi procurar Chico Xavier em Uberaba para amenizar a dor, em um curto período de tempo, da morte da mãe, do marido e do filho. Quando chegou e contou ao médium sua história, a reação dele foi a de se levantar e chorar junto com ela pelas perdas. Mostrar a humanidade desse homem que era procurado para aplacar tantas dores é o foco do escritor Jhon Harley Madureira, 48, que lança neste mês o livro O Voo da Garça – Amigo de Chico por mais de 20 anos, o escritor o conheceu na casa da irmã do médium, Cidália Xavier de Carvalho, em 1981. “Confesso que fiquei sob certa hipnose, olhando fixamente para o tão falado Chico Xavier. Encontro, reencontro, não sei... Mas, a partir daí mantivemos um relacionamento de respeito e amizade, só interrompido com sua desencarnação”, relata. Madureira afirma que deseja, com seu livro, que considera uma obra biográfica, esclarecer alguns pontos e dados históricos sobre a vida do médium. Para isso, pesquisou mais de 200 obras, além de documentos, atas, jornais, revistas, fez uma pesquisa oral com depoimentos de especialistas, familiares e amigos; além de uma pesquisa iconográfica. Entre as muitas histórias que o autor promete contar em seu livro está a da mulher que fez o parto da mãe de Chico e o trouxe ao mundo, a parteira Sá Tomásia. “Ela costumava contar que no dia do nascimento do Chico aconteceu um voo extraordinário de garças pelo céu de Pedro Leopoldo. Uma delas aterrissou em nossa cidade.” |
Uma lição de vidaAo tomar contato com a trajetória de Chico, tanto a partir das entrevistas, quanto de pesquisas, livros e documentários, até então conhecida por mim de forma bastante fragmentada, parece-nos que o espírita pagou um preço muito alto pela divulgação doutrinária a que se propôs. A resistência à aceitação de sua sensibilidade espiritual começou cedo, aos cinco anos de idade, com a morte da mãe, Maria João de Deus. As três surras diárias e garfadas na barriga executadas pela madrinha Rita de Cássia deram início à via-crucis de maus-tratos em resposta aos relatos de visões e afins. Até lamber as feridas do filho de sua substituta materna em função de uma simpatia, o garoto Chico foi obrigado. A falta de compreensão da própria família, principalmente do pai João Cândido, que tinha problemas com bebida, soma-se a atitudes de intolerância como os socos e pontapés dos colegas de escola frente aos textos Em meio a esse turbilhão, Chico ainda driblou a condição da economia precária familiar, doenças como angina, pressão baixa, catarata e hérnia, intensa rotina diária de trabalho burocrático, intermináveis solicitações de pessoas de todos os cantos, sem, muitas vezes, poupá-lo, nem mesmo nos momentos de enfermidade. Talvez a própria entrega em prol do outro resultou numa quase renúncia às necessidades físicas, pessoais. Numa avaliação aos olhos humanos (sujeitos a vaidades, ambições e individualismos), parecia que a Chico Xavier não era permitido chorar, sentir-se só, ficar cansado, doente. Até seu principal guia espiritual, Emmanuel, demonstrava rigidez e exigência às suas posturas e ações. Em contrapartida, Chico teve poderosos anjos da guarda. Entre eles, a madrasta, mulher do segundo casamento do pai, Cidália Batista, que apesar de católica e não entendê-lo dava créditos e encorajava o enteado em sua crença, e o padre local Sebastião Scarzello, que impediu Chico de ser enviado ao sanatório pelo pai com a sugestão de que poderia incrementar a renda familiar trabalhando. Aos dez anos de idade, o pequeno Chico iniciou sua vida, numa labuta das 15h à 1h, numa fábrica de tecidos. Outra figura amiga foi o ex-patrão Rômulo Joviano, chefe do médium na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura. Apesar de espírita, só permitia Chico se dedicar à psicografia nos intervalos de descanso ou no fim da jornada de trabalho. O primeiro livro publicado Parnaso do Além Túmulo (1932), que reuniu poemas inéditos de consagrados poetas brasileiros, chegou às livrarias cinco anos após a primeira mensagem recebida por Chico pelo mentor Emmanuel, em Pedro Leopoldo. E foi na tímida e desconhecida cidade mineira, o início de toda sua lida espiritualista e de trabalho voluntário, onde o médium permaneceu até os 49 anos, que a reportagem concentrou sua apuração para mostrar um pouco de seu mundo. Em 1959, mudou-se para Uberaba, onde deu continuidade ao seu trabalho e encerrou sua estadia de 92 janeiros na Terra. Para nós, tão sujeitos a vaidades, ambições e individualismos, resta-nos, no mínimo, considerar Chico especial. (Luciana Avelino) |
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O que é espiritismo ou kardecismoDoutrina criada pelo francês Allan Kardec, o espiritismo, ou kardecismo, como dizem muitos, é baseado na crença que há um mundo espiritual que mantém relações com o mundo corporal. Para o espiritismo, a morte só acontece para o corpo. Cada homem tem um espírito que tem sucessivas vidas (reencarnações) e pode vir à Terra por diversas vezes. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2000, há no Brasil cerca de 2,3 milhões de espíritas e estima-se em mais de 30 milhões os simpatizantes à doutrina. |
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Confira trailer do filme "Chico Xavier":
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