Quarta, 23 de Maio de 2012
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Saúde

Proibido aqui, permitido acolá

Saiba por que um medicamento é liberado em um país, mesmo se em outros já foram comprovados casos de efeitos nocivos à saúde

Texto: Renata Turra | Fotos: Pedro Vilela / Arte: Paulo Werner


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Um dos medicamentos mais populares do Brasil, a boa e velha Novalgina, tem venda proibida nos Estados Unidos. Por outro lado, a sibutramina – vendida com os nomes Reductil, Reduxade, Zelium e Meridia –, uma das substâncias para emagrecer mais comercializadas no mundo, foi proibida na Europa em janeiro passado, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas divulgou um alerta para os profissionais de saúde sobre o uso da substância no país. A Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA), nos EUA, fez o mesmo. Mas, afinal, por qual motivo um medicamento com efeitos já compro­vadamente danosos numa determinada região do globo continua a ser vendido no outro lado do planeta?

A liberação ou a proibição da venda de um remédio em cada país obedece à agência fiscalizadora local do setor e esses órgãos funcionam de maneira independente entre as nações. A explicação é do doutor em farmacologia e professor da Fa­cul­dade de Ciências Médicas, To­lomeu Casali. E a Novalgina é um bom exemplo disso. “Nos Estados Unidos verificou-se que pacientes que fizeram uso do medicamento desenvolveram alteração na medula óssea”, observa. Ainda de acordo com ele, a substância continua liberada no Brasil porque as pessoas fazem uso dela há anos e aqui esse efeito colateral simplesmente não apareceu. “Extrapola-se que um dos motivos seja a raça”, justifica.

Com remédios novos, como é o caso da sibutramina, diferentes orientações em diversas partes do mundo são ainda mais comuns. “Isso já era esperado. Todo medicamento que entra no mercado passa por um longo proces­so de testes antes de ser liberado”, sustenta. Isso, porém, não elimina a possibilidade de aparecimento de efeitos colaterais que surgem quando ele passa a ser usado em larga escala. Foi o que ocorreu com a talidomida, uma substância usada na década de 70 para tratar a hanseníase que provocou efeitos colaterais nos filhos das mulheres grávidas que o utilizaram. “As crianças nasciam sem um ou mais membros do corpo, mas esse efeito colateral só foi descoberto quando começou a acontecer de fato”, lembra o especialista.


Tolomeu Casali: venda é regulada por órgão fiscalizador de cada país
Tolomeu Casali: venda é regulada por órgão fiscalizador de cada país

Em 2004, o mesmo aconteceu com o anti-inflamatório Vioxx, da Merck Sharp & Dohme, que teve sua comercialização proibida no mundo por iniciativa da própria fabricante. O produto foi retirado do mercado após estudos que indicavam risco de ataques cardíacos com o uso prolongado. Os remédios foram recolhidos e consumidores, reembolsados. Para Casali, isso não indica falha na fiscalização no Brasil ou em outros países. “É uma questão de autonomia. Quando um medicamento é liberado por todas as agências fiscalizadoras, a gente fica mais tranquilo, mas nem sempre isso acontece”, observa. Ele alerta porém que, uma vez documentados os casos, o efeito é de dominó. “Não há como questionar”.

No Brasil, a fiscalização periódica da Anvisa normalmente é feita por monitoramento de amostras de medicamentos que são recolhidos aleatoriamente no mercado. Mas a agência também atua baseada em denúncias de consumidores, segundo informa Vitor Eustáquio Aranha, da Gerência de Vigilância de Medicamentos e Congêneres em Minas Gerais. Diariamente são publicados no Diário Oficial da União os medicamentos interditados para análise e investigação. As resoluções do dia 3 de março, por exemplo, suspendem a comercialização de lotes específicos de uma série de remédios, alguns bastante conhecidos como o Angitens 100mg (atenolol), o Fluxozol (flu­xo­nazol), o Taxofen (citrato de ta­mo­xifeno 20mg) e o Rubromicin (es­tolato de eritromicina) 250 mg/5ml.

No caso da sibutramina, a agên­cia de fiscalização europeia afirmou, num comunicado no qual pedia que os médicos parassem de receitá-la, que “os riscos que este medicamento provoca são bem maiores do que seus benefícios”. A sibutramina foi cria­da como antidepressivo nos anos 1980 e há cer­ca de dez anos teve seu uso liberado para emagrecer. Em dezembro de 2009, depois que um estudo elaborado pela FDA apontou que 11,4% dos pacientes que tomaram o medicamento morreram ou sofre­ram paradas cardíacas ou derrames, consumidores norte-americanos pe­diram ao governo a proibição da venda do produto no país.

O medicamento tem venda con­trolada no Brasil, com retenção de receita. A Anvisa recomenda a contraindicação para pacientes com obesidade associada a doenças cardio e cerebrovasculares ou com antecedentes pessoais, diabetes mellitus tipo 2 com sobrepeso ou obesidade e associada a mais um fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Segundo relatório da Junta Internacional de Fisca­liza­ção de En­torpecentes (Jife), órgão das Na­ções Unidas, o Brasil é o país que mais consome remédios para emagrecer no mundo. De acordo com a entidade, isso se deve à grande produção doméstica, restrições limitadas e facilidade na compra dos medicamentos. Aqui, substâncias derivadas de anfetamina, proibidas em vários locais, ainda são receitadas em fórmulas de manipulação de medicamentos para emagrecer. Em casos como este, cuidado e cautela são mes­mo os melhores remédios. 


 
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