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ComportamentoComo (e quando) falar de sexoErotização precoce dos dias de hoje traz angústias aos pais: qual a melhor maneira de abordar os filhos quando o assunto é educação sexual
Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela/ Marcos Rosa/ Daniel de Cerqueira/ Arte: Paulo Werner - SXC
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Vários especialistas concordam que o momento ideal para tocar no assunto é aquele em que a criança demonstra algum tipo de curiosidade. A idade varia dos 3 aos 9 anos. O que não se deve fazer é antecipar. A decoradora Vivien de Casttro conversou com a filha Lunna pela primeira vez quando a garota tinha 7 anos (hoje, tem 13). “Ela viu a palavra sexo em uma revista e perguntou o que significava”, lembra. Já a joalheira Ana Paula Carneiro ainda não teve nenhuma conversa sobre o tema com a filha Valentina, 7. “Ela nunca me perguntou nada e não acho que devo tomar a iniciativa”, diz. |
Mamãe, como eu nasci? Essa pergunta ainda causa calafrios em muitos pais. O sexólogo Marcos Ribeiro, no livro Conversando com seu Filho sobre Sexo (Academia de Inteligência), dá a dica de como respondê-la de forma clara e natural: “Quando um homem e uma mulher se gostam, eles sentem vontade de fazer carinho, de que o corpo de um tenha contato com o corpo do outro. O papai coloca o pênis dentro da vagina da mamãe. Em certo momento, sai do pênis um líquido chamado sêmen, que contém milhares de espermatozoides (ou sementinhas). E eles entram no corpo da mamãe. Um desses espermatozoides se encontra com o óvulo, uma célula interna no corpo da mamãe. A isso, damos o nome de fecundação. É o começo de um bebê e de uma nova vida.” |
Porém, mais importante que o quando é o como. A abordagem deve ser a mais clara, natural, segura e objetiva possível, levando-se em conta, obviamente, a idade da criança. Na opinião da psicóloga e pedagoga Sheila França, os pais podem usar apelidos ou diminutivos para os órgãos sexuais, mas também devem citar o nome correto, principalmente quando conversam com crianças maiores. “Mais importante que os termos é associar o sexo a sentimentos de afetividade e à maturidade emocional”, frisa Sheila. Em geral, as primeiras dúvidas têm a ver com gestação (veja quadro na página anterior). O conselho é responder exatamente ao que foi perguntado, tirando todas as dúvidas, mas sem a pretensão de dar aula. Ainda há famílias que insistem na fábula da cegonha e similares. Marcos Ribeiro desaconselha essa tática. “A criança de hoje tem tanto acesso à informação que, em algum momento, ela vai descobrir a verdade e constatar que os pais mentiram.” Para facilitar a conversa, é interessante ter à mão um livro sobre educação sexual.
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Muitas vezes, a responsabilidade de quem deve conversar com os filhos recai sobre as mães. Apesar de as mulheres serem mais abertas para a comunicação, os homens não devem se eximir. O empresário Rodrigo Mascarenhas, pai de quatro meninas, optou pelo diálogo. “Falei sobre uma sementinha que foi fecundada pelo papai no corpo da mamãe. Uma das minhas filhas me perguntou o que era camisinha e eu demonstrei como usá-la com uma banana.” Se possível, o casal deve verificar a possibilidade de terem essa conversa em conjunto. Dessa forma, pai e mãe irão transmitir uma visão mais rica e diferenciada e promover a noção de igualdade entre os gêneros; de quebra, poderão fortalecer a própria relação. “As crianças mais felizes e saudáveis são aquelas que não são reprimidas sexualmente e têm informações verdadeiras sobre o assunto com os pais,” afirma Sheila França.
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Entenda a sexualidade do seu filho De 0 a 2 anos De 3 a 4 anos De 5 a 6 anos De 7 a 10 anos Fonte: Conversando com seu filho sobre sexo (Academia DE Inteligência) |
Situações delicadasAlém das perguntas básicas, os pais se questionam sobre outros temas. O filho pode dormir no quarto do casal? Pode tomar banho junto com os pais? Como lidar com a influência da mídia? O que fazer quando o menino ou a menina se masturbam? E se ele ou ela for homossexual? São situações delicadas, cujas respostas perpassam pela ideologia particular da família. Mas algumas orientações sempre são cabíveis. “A perda da repressão sexual é saudável, mas a perda dos valores, não”, contrapõe a psicanalista Eliane de Andrade. Segundo ela, o mundo sofre com ausência de referências. Vamos às dúvidas. Não é saudável que a criança durma no mesmo quarto dos pais. É importante para o crescimento emocional e sexual que ela tenha seu próprio quarto. “Mas se, ocasionalmente, ela dormir na cama dos pais, não vejo problemas e isso é até saudável para a convivência”, diz o sexólogo Marcos Ribeiro. O tema da nudez familiar é mais controverso. “Às vezes, os pais podem estar expondo a criança a uma situação que ela não está preparada para vivenciar”, analisa a pediatra Ana Maria Lopes. Ela se preocupa com a questão do abuso. “Crianças que estão acostumadas a ver os adultos se despirem diante dela podem permitir que alguém tenha acesso ao seu corpo com mais facilidade.” Em contrapartida, Ribeiro não vê a nudez como problema, desde que ambos ajam com naturalidade. “Isso cria na criança a noção da beleza da sexualidade, sem alusão a pecado ou vergonha.” Mas, atenção. É comum que, ao entrar na puberdade, a criança procure se resguardar. Nesse momento, os pais devem respeitar a privacidade do filho. E já que se falou em puberdade, é verdade que ela chega cada vez mais cedo, mas isso não quer dizer que deve ser apressada. Segundo a ginecologista e sexóloga Maria Virgínia de Aguiar, “a primeira consulta só deve acontecer após a primeira menstruação”. Virgínia diz que a sociedade não dá mais tempo para as crianças serem simplesmente crianças. Isso acontece principalmente com as meninas. “As mães devem parar de vestir as filhas pequenas como adultas, com roupas coladas, saltinho, batom e unhas pintadas. Esses trajes erotizam e não correspondem à postura apropriada para essa idade”, critica. Culpa da mídia? De fato, músicas, novelas, clipes e programas de TV carregam nas conotações sexuais, na exposição do corpo. Cabe aos pais evitar que a criança seja exposta a isso. “Bloqueio o computador para conteúdos acima de 16 anos e não deixo que minha filha assista a novelas e outros programas duvidosos”, diz a joalheira Ana Paula Carneiro. Não basta proibir; os pais devem proporcionar outro tipo de entretenimento e buscar programas adequados. |
Outra alternativa é liberar o acesso àquele conteúdo, aproveitando a oportunidade para educar o filho. A decoradora Vivien de Casttro prefere esse caminho. “Quando eu e minha filha assistimos a uma cena de traição em novelas, por exemplo, procuro conversar, mostrar que aquilo é errado e terá consequências negativas.” Já a empresária Dilma Rodrigues, mãe de Nathália, 12, leva em conta a faixa indicativa, mas analisa cada programa individualmente. “A regra em casa é o horário de dormir, mas não é nada rigoroso. Dia desses, minha filha pediu para assistir a um reality show, e eu deixei. É preciso ter jogo de cintura para satisfazer certas curiosidades.” Em contrapartida, não dá para controlar a descoberta da sexualidade por meio do toque. Palavra feia e muito evitada, a masturbação é natural desde os primeiros meses de vida e fica mais intensa quando a criança toma consciência de seu corpo. “Pai e mãe não precisam ficar preocupados. A masturbação não é algo sujo e não causa nenhum problema, nem de ordem física nem psicológica”, afirma Ribeiro. No entanto, isso não significa omissão. É importante que o filho receba algumas orientações, tais como: não introduzir objetos no corpo, não se tocar com as mãos sujas, não fazer isso na frente de ninguém e evitar excessos. Na contramão, repreender ou castigar fará apenas com que ele se sinta culpado. Não seria exagero afirmar que o maior medo não revelado da maioria dos pais é que o filho seja homossexual. A sociedade cria rótulos, em que meninas pouco femininas ou garotos com trejeitos são massacrados. Os pais, quando veem seus sonhos ruindo, angustiam-se e buscam alternativas para curar o filho. “Homossexualidade não é doença, não é escolha, não é opção. É uma atração (ou orientação) sexual e de afeto por alguém do mesmo sexo. Procurar psicólogos ou religiosos só traz danos à autoestima. Mesmo sendo difícil, cabe aos pais entenderem que a história do filho não é a deles”, diz Ribeiro. Vale lembrar que não dá para definir se alguém é ou não homossexual ainda na infância, quando a criança não vivenciou nenhuma relação. Nessa fase, os pais devem possibilitar que o menino tenha mais chance de entrar em contato com a identidade masculina, e a menina, com a feminina. “Mas isso não significa que o filho mudará a orientação sexual.” Ao final desta matéria, muitos pais podem achar que poderiam ter dado uma educação sexual melhor para seus filhos. Porém, ninguém deve se culpar. Não dá para acertar sempre e bebês não vêm com manual de instruções. Seja qual for a idade de seu filho, é provável que ainda esteja em tempo de estabelecer o diálogo claro, franco e amoroso. Por que não começar agora? |
Pulseirinhas Nos últimos meses, a mídia nacional anunciou com alarde as pulseirinhas coloridas do sexo, cada uma com significados diferentes, de abraço a relação sexual. Quem romper a pulseira um do outro tem direito a ganhar o que a ela simboliza. A modinha surgiu na Inglaterra e só chegou ao Brasil no fim de 2009. Mas, por aqui, elas têm mais efeito estético. Pesquisas revelam que a maioria das crianças que usa as pulseiras ignora o significado sexual. Mais uma vez, a maldade está na cabeça de “gente grande”. |