Quarta, 23 de Maio de 2012
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Comportamento

Como (e quando) falar de sexo

Erotização precoce dos dias de hoje traz angústias aos pais: qual a melhor maneira de abordar os filhos quando o assunto é educação sexual

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela/ Marcos Rosa/ Daniel de Cerqueira/ Arte: Paulo Werner - SXC


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Apesar da liberalidade de nossos tempos, muitos pais ainda têm dificuldades para conversar abertamente sobre sexo com seus filhos. Afinal, grande parte deles recebeu pou­ca ou nenhuma informação sobre o assunto dentro de casa. No entanto, a erotização cada vez mais precoce demonstra que a família não pode se acanhar. Mais do que nunca, pai e mãe devem procurar responder satisfatoriamente às dúvidas de seus filhos e prepará-los para vivenciar a sexualidade de forma plena, responsável e prazerosa.

Muitos pensam que a informação incentiva a prática sexual antes da hora. Ao contrário, a criança bem informada terá mais confiança nos pais e sabedoria para lidar com sua sexualidade quando for adulta. Em contrapartida, a desinformação pode gerar ansieda­de, culpa e relações amorosas frustrantes. “Quando conversam com os filhos sobre esse tema, os pais têm a oportunidade de quebrar mitos, corrigir conceitos equivocados e estabelecer vínculos”, diz o sexólogo Marcos Ribeiro, autor do livro Con­ver­san­do com seu Filho sobre Sexo . Outra vanta­gem do diálogo é a prevenção de doenças, gravidez na adolescência e abuso.


Vivien de Casttro, com a filha Lunna: “Ela viu a palavra sexo e perguntou o significado”
Vivien de Casttro, com a filha Lunna: “Ela viu a palavra sexo e perguntou o significado”

Vários especialistas concordam que o momento ideal para tocar no assunto é aquele em que a criança demonstra algum tipo de curiosidade. A idade varia dos 3 aos 9 anos. O que não se deve fazer é antecipar. A decoradora Vivien de Casttro conversou com a filha Lunna pela primeira vez quando a garota tinha 7 anos (hoje, tem 13). “Ela viu a palavra sexo em uma revista e perguntou o que significava”, lembra. Já a joalheira Ana Paula Carneiro ainda não teve nenhuma conversa sobre o tema com a filha Valentina, 7. “Ela nunca me perguntou nada e não acho que devo tomar a iniciativa”, diz.

Mamãe, como eu nasci?

Essa pergunta ainda causa calafrios em muitos pais. O sexólogo Marcos Ribeiro, no livro Conversando com seu Filho sobre Sexo (Academia de Inteligência), dá a dica de como respondê-la de forma clara e natural:

“Quando um homem e uma mulher se gostam, eles sentem vontade de fazer carinho, de que o corpo de um tenha contato com o corpo do outro. O papai coloca o pênis dentro da vagina da mamãe. Em certo momento, sai do pênis um líquido chamado sêmen, que contém milhares de espermatozoides (ou sementinhas). E eles entram no corpo da mamãe. Um desses espermatozoides se encontra com o óvulo, uma célula interna no corpo da mamãe. A isso, damos o nome de fecundação. É o começo de um bebê e de uma nova vida.”

Ana Paula Carneiro, com Valentina: “Ela nunca me perguntou nada”
Ana Paula Carneiro, com Valentina: “Ela nunca me perguntou nada”
Porém, mais importante que o quando é o como. A abordagem deve ser a mais clara, natural, segura e objetiva possível, levando-se em conta, obviamente, a idade da criança. Na opinião da psicóloga e pedagoga Sheila França, os pais podem usar apelidos ou diminutivos para os órgãos sexuais, mas também devem citar o nome correto, principalmente quando conversam com crianças maiores. “Mais importante que os termos é associar o sexo a sentimentos de afetividade e à maturidade emocional”, frisa Sheila. Em geral, as primeiras dúvidas têm a ver com gestação (veja quadro na página anterior). O conselho é responder exatamente ao que foi perguntado, tirando todas as dúvidas, mas sem a pretensão de dar aula. Ainda há famílias que insistem na fábu­la da cegonha e similares. Marcos Ribeiro desaconselha essa tática. “A criança de hoje tem tanto acesso à informação que, em algum momento, ela vai descobrir a verdade e constatar que os pais mentiram.” Para facilitar a conversa, é interessante ter à mão um livro sobre educação sexual.
Muitas vezes, a responsabilidade de quem deve conversar com os filhos recai sobre as mães. Apesar de as mulheres serem mais abertas para a comunicação, os homens não devem se eximir. O empresário Rodrigo Masca­re­nhas, pai de quatro meninas, optou pelo diálogo. “Falei sobre uma sementinha que foi fecundada pelo papai no corpo da mamãe. Uma das minhas filhas me perguntou o que era camisinha e eu demonstrei como usá-la com uma banana.” Se possível, o casal deve verificar a possibilidade de terem essa conversa em conjunto. Dessa forma, pai e mãe irão transmitir uma visão mais rica e diferenciada e promover a noção de igualdade entre os gêneros; de quebra, poderão fortalecer a própria relação. “As crianças mais felizes e saudáveis são aquelas que não são reprimidas sexualmente e têm informações verdadeiras sobre o assunto com os pais,” afirma Sheila França.

Entenda a sexualidade do seu filho

De 0 a 2 anos
Fase da descoberta. O bebê começa a explorar seus órgãos sexuais. Os meninos já podem ter ereção, e as meninas, lubrificação vaginal

De 3 a 4 anos
Algumas crianças já querem saber de onde nasceram e passam a ter conhecimento real de seus órgãos sexuais. É quando acontece a identificação de gênero

De 5 a 6 anos
A quantidade de perguntas aumenta e também o interesse pelo corpo do sexo oposto. O menino costuma sentir ciúme e possessividade em relação à mãe (complexo de Édipo)

De 7 a 10 anos
As descobertas continuam, embora se formem clubes masculinos e femininos. Podem acontecer algumas brincadeiras sexuais entre eles. Fisicamente, o corpo já começa a amadurecer, anunciando a puberdade

Fonte: Conversando com seu filho sobre sexo (Academia DE Inteligência)

Dilma Rodrigues, com Nathália: “É preciso ter jogo de cintura”
Dilma Rodrigues, com Nathália: “É preciso ter jogo de cintura”

Situações delicadas

Além das perguntas básicas, os pais se questionam sobre outros temas. O filho pode dormir no quarto do casal? Pode tomar banho junto com os pais? Como lidar com a influência da mídia? O que fazer quando o menino ou a menina se masturbam? E se ele ou ela for homos­sexual? São situações delicadas, cujas res­postas perpassam pela ideologia particular da família. Mas algumas orientações sempre são cabíveis. “A perda da repressão sexual é saudável, mas a perda dos va­lores, não”, contrapõe a psicanalista Elia­ne de Andrade. Segundo ela, o mundo sofre com ausência de referências.

Vamos às dúvidas. Não é saudável que a criança durma no mesmo quarto dos pais. É importante para o crescimento emocional e sexual que ela tenha seu próprio quarto. “Mas se, ocasionalmente, ela dormir na cama dos pais, não vejo problemas e isso é até saudável para a convivência”, diz o sexólogo Marcos Ribeiro. O tema da nudez familiar é mais controverso. “Às vezes, os pais podem estar expondo a criança a uma situação que ela não está preparada para vivenciar”, analisa a pediatra Ana Maria Lopes. Ela se preocupa com a questão do abuso. “Crianças que estão acostumadas a ver os adultos se despirem diante dela podem permitir que alguém tenha acesso ao seu corpo com mais facilidade.” Em contrapartida, Ribeiro não vê a nudez como problema, desde que ambos ajam com naturalidade. “Isso cria na criança a noção da beleza da sexualidade, sem alusão a pecado ou vergonha.” Mas, atenção. É comum que, ao entrar na puberdade, a criança procure se resguardar. Nes­se momento, os pais devem respeitar a privacidade do filho.

E já que se falou em puberdade, é verdade que ela chega cada vez mais cedo, mas isso não quer dizer que deve ser apressada. Segundo a ginecologista e sexóloga Maria Vir­gí­nia de Aguiar, “a primeira consulta só deve acontecer após a primeira menstruação”. Virgínia diz que a sociedade não dá mais tempo para as crianças serem simplesmente crianças. Isso acontece principalmente com as meninas. “As mães devem pa­rar de vestir as filhas pequenas como adultas, com roupas cola­das, saltinho, batom e unhas pintadas. Esses trajes erotizam e não correspondem à postura apropriada para essa idade”, critica.

Culpa da mídia? De fato, músicas, novelas, clipes e programas de TV carregam nas conotações sexuais, na exposição do corpo. Cabe aos pais evitar que a criança seja exposta a isso. “Bloqueio o computador para conteúdos acima de 16 anos e não deixo que minha filha assista a novelas e outros programas duvidosos”, diz a joalheira Ana Paula Carneiro. Não basta proibir; os pais de­vem proporcionar outro tipo de entretenimento e buscar programas adequados.

Sheila França: “Crianças mais felizes são as que têm informações sobre o assunto”
Sheila França: “Crianças mais felizes são as que têm informações sobre o assunto”

Outra alternativa é liberar o aces­so àquele conteúdo, aproveitando a oportunidade para educar o filho. A de­coradora Vivien de Casttro prefere esse caminho. “Quando eu e minha filha assistimos a uma cena de traição em novelas, por exemplo, procuro conversar, mostrar que aquilo é errado e terá consequências negativas.” Já a empresária Dilma Ro­drigues, mãe de Nathália, 12, leva em conta a faixa indicativa, mas analisa cada programa individualmente. “A re­gra em casa é o horário de dormir, mas não é nada rigoroso. Dia desses, minha filha pediu para assistir a um reality show, e eu deixei. É preciso ter jogo de cintura para satisfazer certas curiosidades.”

Em contrapartida, não dá para controlar a descoberta da sexualidade por meio do toque. Palavra feia e muito evitada, a masturbação é natural desde os primeiros meses de vida e fica mais intensa quando a criança toma consciência de seu corpo. “Pai e mãe não precisam ficar preocupados. A masturbação não é algo sujo e não causa nenhum problema, nem de ordem física nem psicológica”, afirma Ribeiro. No entanto, isso não signifi­ca omissão. É importante que o filho receba algumas orientações, tais co­mo: não introduzir objetos no corpo, não se tocar com as mãos sujas, não fazer isso na frente de ninguém e evitar excessos. Na con­tramão, repreender ou castigar fa­rá ape­nas com que ele se sinta culpado.

Não seria exagero afirmar que o maior medo não revelado da maioria dos pais é que o filho seja homossexual. A sociedade cria rótulos, em que meninas pou­co femininas ou garotos com trejeitos são massacrados. Os pais, quando veem seus sonhos ruindo, angustiam-se e buscam alternativas para curar o filho. “Ho­mos­se­xu­a­li­da­de não é doença, não é escolha, não é opção. É uma atração (ou orientação) sexual e de afeto por alguém do mesmo sexo. Procurar psicólogos ou religiosos só traz danos à autoestima. Mesmo sendo difícil, cabe aos pais en­tenderem que a história do fi­lho não é a deles”, diz Ri­bei­ro. Vale lem­brar que não dá para definir se alguém é ou não homosse­xual ainda na infância, quando a criança não vivenciou nenhuma relação. Nes­sa fa­se, os pais devem possibilitar que o menino tenha mais chance de entrar em contato com a i­­dentidade masculina, e a menina, com a feminina. “Mas isso não significa que o filho mudará a orientação sexual.”

Ao final desta matéria, muitos pais podem achar que poderiam ter dado uma educação sexual melhor para seus filhos. Porém, ninguém de­ve se culpar. N­­ão dá para acertar sem­pre e bebês não vêm com manual de instruções. Seja qual for a idade de seu filho, é provável que ainda esteja em tempo de estabelecer o diálogo claro, franco e amoroso. Por que não começar agora?

Pulseirinhas

Nos últimos meses, a mídia nacional anunciou com alarde as pulseirinhas coloridas do sexo, cada uma com significados diferentes, de abraço a relação sexual. Quem romper a pulseira um do outro tem direito a ganhar o que a ela simboliza. A modinha surgiu na Inglaterra e só chegou ao Brasil no fim de 2009. Mas, por aqui, elas têm mais efeito estético. Pesquisas revelam que a maioria das crianças que usa as pulseiras ignora o significado sexual. Mais uma vez, a maldade está na cabeça de “gente grande”.


 
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