Quarta, 23 de Maio de 2012
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Artes Plásticas

A natureza de Bia

É pau, é tronco, é o início do processo criativo da artista plástica Bia Doria

Texto: Ana D’ângelo | Fotos: Chico Audi


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O artista polonês radicado no Brasil, Frans Krajcberg, duvidou que uma mulher pudesse lidar com madeira pesada, raízes ou restos da floresta morta. Menos pelo talento, mais pela dificuldade no manuseio de tanta coisa pesada. Então Bia Doria aproveitou uma passagem de Krajcberg em São Paulo e lhe mostrou seus trabalhos, troncos e raízes que se entrelaçam e ganham outra vida por suas mãos fortes, de mulher nascida no sul do Brasil. Ainda reticente, Krajcberg, conhecido pela genialidade das esculturas de madeira calcinada, ordenou que ela o seguisse em suas expedições pela mata. Bia rumou para Nova Viçosa (BA), onde o artista trabalha no ateliê Sítio Natura, numa área de mangue e mata atlântica. “Aprendi com ele o olhar, tudo pode ser matéria-prima para a escultura, um galho, qualquer casquinha”, conta a artista em seu ateliê no Jardim Europa, em São Paulo, onde reúne exemplares destacados do seu trabalho.

Nascida no interior de Santa Catarina, Bia foi para Porto Alegre na adolescência, estudou educação física e seguiu depois para Milão onde fez curso de design de moda. Casou-se com o empresário João Dória no Rio de Janeiro e se mudaram para São Paulo. De 1988 a 2001, dedicou-se ao design de moda, de fantasias de carnaval para celebridades a modelitos que vestiam as madames da sociedade paulistana.  A vida corrida e borbulhante do mundo da moda exigia demais. Até que a gravidez do primeiro filho pediu a reclusão e uma guinada na carreira profissional. “Já tinha tido dois abortos, fechei as cinco lojas e resolvi me dedicar à família”, conta.


Tempo para esculpir

Na casa da família em Campos do Jordão, o tempo dilatado e a disposição para o novo fermentavam a próxima empreitada de Bia. “Comecei a desenhar joias usando as madeiras, observava a exuberância da natureza.”  Daí para a escultura foi questão de tempo. Longas caminhadas pela mata e o contato com a natureza definiram o ofício da artista de maneira definitiva. “Gosto mesmo é de ficar no meu ateliê, fazendo minhas peças, trabalhando a madeira, transformando.” Da busca da matéria-prima, madeiras de fundo de rio, restos de reflorestamento, raízes mortas à chegada ao ateliê, a artista está presente com sua câmera fotográfica e intuição. São materiais difíceis de serem trabalhados, necessitam de cuidados especiais, desde a higienização até sua preservação. Passada esta etapa, chega a ho­ra da artista. “Eu me identifico com essa matéria-prima, é uma troca permanente, que começa no tato e permanece enquanto descubro a forma que se esconde no diálogo com a natureza”, diz.
Bia Doria: envolvimento com projetos de sustentabilidade
Bia Doria: envolvimento com projetos de sustentabilidade

Uma peça às vezes espera uma semana até que Bia dê novos contornos ao material. Até lá, ela pinta, dá acabamento a outras peças ou dá assistência aos projetos na área de sustentabilidade em que está envolvida. Um deles é o Grito! Salve a Amazônia, em conjunto com o artista Frans Krajcberg e outros ativistas. O projeto pretende plantar mudas de reflorestamento em regiões críticas do país e já chamou a atenção de artistas também adeptos da causa. Bia mostra as fotos da última viagem pelo projeto, em que levou a atriz Christiane Torloni e o ator Vitor Fasano para conhecer de perto as iniciativas de preservação do verde. “Quero me dedicar mais a este projeto este ano. Conseguimos mudas de grandes empresas e agora precisamos dar curso à iniciativa”, conta a artista.

Outra parceria que Bia fará neste 2010 é com a madeireira Precious Woods que lhe fornecerá resíduos de florestas de manejo para seu trabalho artístico em troca de oficinas de escultura e artesanato para comunidades tradicionais na Amazônia brasileira. “Minhas viagens este ano serão pelo Brasil, nem estou preocupada com feiras internacionais, galerias ou eventos. Vou me dedicar ao meu trabalho no ateliê e a estes projetos de sustentabilidade”, revela. Fora do Brasil, o trabalho de Bia pode ser encontrado em cidades da Itália, Suíça e agora em Cingapura, onde a artista ganhou um prêmio de design com a peça Raiz Escovada. Sobre como conciliar a vida familiar, a exposição social e as artes plásticas, Bia disse que hoje é muito mais criteriosa. “A gente só consegue maturidade com o tempo mesmo. Hoje o meu maior prazer é fazer o meu trabalho, pensar e criar coisas bonitas para as pessoas.”

Serviço

  • Galeria Bia Doria: Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1.802, Jardim Europa, São Paulo (SP)
  • www.biadoria.com.br

 
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