O artista polonês radicado no Brasil, Frans Krajcberg, duvidou que uma mulher pudesse lidar com madeira pesada, raízes ou restos da floresta morta. Menos pelo talento, mais pela dificuldade no manuseio de tanta coisa pesada. Então Bia Doria aproveitou uma passagem de Krajcberg em São Paulo e lhe mostrou seus trabalhos, troncos e raízes que se entrelaçam e ganham outra vida por suas mãos fortes, de mulher nascida no sul do Brasil. Ainda reticente, Krajcberg, conhecido pela genialidade das esculturas de madeira calcinada, ordenou que ela o seguisse em suas expedições pela mata. Bia rumou para Nova Viçosa (BA), onde o artista trabalha no ateliê Sítio Natura, numa área de mangue e mata atlântica. “Aprendi com ele o olhar, tudo pode ser matéria-prima para a escultura, um galho, qualquer casquinha”, conta a artista em seu ateliê no Jardim Europa, em São Paulo, onde reúne exemplares destacados do seu trabalho.
Nascida no interior de Santa Catarina, Bia foi para Porto Alegre na adolescência, estudou educação física e seguiu depois para Milão onde fez curso de design de moda. Casou-se com o empresário João Dória no Rio de Janeiro e se mudaram para São Paulo. De 1988 a 2001, dedicou-se ao design de moda, de fantasias de carnaval para celebridades a modelitos que vestiam as madames da sociedade paulistana. A vida corrida e borbulhante do mundo da moda exigia demais. Até que a gravidez do primeiro filho pediu a reclusão e uma guinada na carreira profissional. “Já tinha tido dois abortos, fechei as cinco lojas e resolvi me dedicar à família”, conta.