A sorte está lançada. Mesmo que não declare abertamente, Serra tem dado sinais de que será mesmo o candidato tucano à Presidência da República. Nem poderia, nesta altura do processo, ser diferente. Dentro do PSDB, e mesmo no arco de alianças partidárias das oposições, não existe outro nome. Não por falta de liderança ou de capacidade, mas pela própria ação do governador paulista, que, convencido pelos primeiros números das pesquisas, sentiu-se em condições de vencer a disputa e não abriu espaços para outros postulantes. Os números que embalaram os sonhos de Serra, hoje já se mostram de risco para ele. Mesmo que ainda extemporânea, a campanha presidencial já está nas ruas, com a ministra e o presidente Lula nos palanques, provocando mudanças nas intenções de voto. Enquanto Serra, mesmo mantendo a liderança, cai, Dilma acelera sua subida e não será surpresa se, nas próximas pesquisas, ultrapassar Serra. Empatados, ou quase isto, já estão. Por razões que só ele sabe, Serra, mesmo diante dos novos números, mantém-se arredio, esquivando-se dizer-se candidato. Enquanto isto Lula age, conquistando e forçando apoios partidários e de lideranças expressivas da sociedade à sua candidata. A mais recente declaração a favor da candidatura oficial foi de Abílio Diniz, um grande empresário que procurou desfazer a imagem de esquerdista radical da ministra. Não manifestou claramente apoio, mas carimbou Dilma como pessoa de diálogo fácil e administradora competente.
Esse tipo de apoio quem deveria estar buscando é o governador Serra. Seu arco de alianças partidárias será menor do que o que está em construção para apoiar a ministra. Ele precisa compensar isto, buscando aliados importantes. Mas está atrasado nestes entendimentos e, quando chegar, encontrará os possíveis aliados comprometidos com outras candidaturas. Serra é, sem dúvida, um homem competente, mas pouco simpático, o que dificulta seus movimentos em busca de apoios. Aécio, ao contrário, além de ter demonstrado sua competência administrativa, que o coloca, segundo a Folha de S.Paulo, como o governador mais bem avaliado do país, é um mestre nas articulações políticas, traço que herdou do avô Tancredo Neves. A soma das duas virtudes é que, na opinião de muitas lideranças políticas, inclusive de seu PSDB, faria dele o candidato ideal. Acabou tendo seu caminho obstado pelos emplumados tucanos paulistas.
Aécio foi até onde poderia avançar. Hoje, para o governador mineiro, disputar a Presidência é sonho adiado. Seu caminho é o Senado e ele não admite a hipótese de retomar a candidatura a presidente nem diante de uma eventual desistência de Serra. Está inteiramente voltado para Minas, buscando sua própria eleição, com uma votação espetacular, trabalhando para eleger seu candidato. Ele sabe que fazer o sucessor não será tarefa fácil, mesmo sendo o seu candidato o professor Antonio Anastasia, que hoje nem mesmo as oposições enxergam como um técnico apenas, mas como alguém com raro instinto político. Antonio Anastasia nunca disputou voto. Sua primeira experiência foi como companheiro de chapa de Aécio. Em outubro, a movimentação política terá como opositor o ministro Hélio Costa, que já foi deputado federal, duas vezes candidato a governador de Minas e vencedor de uma eleição para o Senado. Mas vem para a disputa com o apoio, nem que mitigado, do presidente Lula. Será uma boa disputa. Lula e Aécio se enfrentando para eleger o novo governador mineiro. A disputa, se o PSDB tivesse juízo, poderia ser pela Presidência. Mas esta vai ficar sob a responsabilidade de Serra que precisa e muito do apoio do governador mineiro nesta empreitada. Não apenas por ser Minas o segundo colégio eleitoral do país, mas por ser Aécio uma liderança nacional, capaz de aglutinar forças políticas e de conseguir votos para o candidato de seu partido. No entanto, Minas dará o troco a Serra.