Quarta, 23 de Maio de 2012
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Trânsito

Fúria no trânsito

Volante nas mãos e dá-lhe intransigência: como explicar a mudança de comportamento da maioria dos motoristas nas ruas e avenidas das grandes cidades

Texto: Fernando Torres | Fotos: Gustavo Scatena e Pedro Vilela


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Lucas Neves: “Às vezes, xingo; às vezes, sou xingado”
Violência e agressividade são palavras-chave para descrever o trânsito das cidades brasileiras. Alguns responsabilizam os governantes pela falta de investimento na infraestrutura das vias urbanas, que não suportam o aumento do volume de tráfego. Outros colocam a culpa no estresse e na má-educação dos motoristas e pedestres. O fato é que não há inocentes: o ambiente inóspito e a falta de bom-senso provocam histeria coletiva, um problema social muito distante de ser solucionado. Os pesquisadores Cláudia Monteiro e Hartmut Günther, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UNB), realizaram pesquisa com 923 motoristas da capital federal (459 homens e 464 mulheres) sobre comportamento no trânsito. Em um primeiro momento, 98,2% dos entrevistados relataram sentimento de raiva diante de condutores que têm direção agressiva. Mas, logo adiante, 67,2% admitiram cometer violações agressivas interpessoais. Percebe-se, portanto, um ciclo vicioso, já que a maioria daqueles que se irrita com motoristas violentos também se comporta dessa maneira.

 

Comportamento no trânsito

  • 98,2% dos motoristas se irritam com condutores que têm direção agressiva
  • 84% admitem cometer erros
  • 80,4% sentem raiva diante de um veículo que o esteja impedindo de passar
  • 76,5% cometem violações agressivas
  • 67,2% já praticaram infrações agressivas interpessoais.

Fonte: Estudo do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UNB), com 923 condutores

Karina Cabral: “Costumo buzinar quando alguém faz algo errado”
Karina Cabral: “Costumo buzinar quando alguém faz algo errado”

Para ver essas cenas na prática, a Viver Brasil acompanhou a hora de rush (de 17h às 19h) em dois pontos da região central de Belo Horizonte: o cruzamento da avenida do Contorno com a Nossa Senhora do Carmo; e a avenida Afonso Pena com a rua Espírito Santo, nas imediações da praça Sete. Em pouco mais de duas horas, a reportagem presenciou cerca de 20 infrações. Tome-se como exemplo o embate entre Gol e Honda Fit para definir qual deles entraria primeiro no estacionamento do Pátio Savassi. Depois de instantes de discussões e buzinadas e um xingamento de veado, o Gol venceu a disputa. Mais adiante, Peugeot versus Uno: o motorista engravatado do Peugeot não teve paciência para esperar o Uno sair de sua frente e cortou-o pela pista da direita, complementando a grosseria com buzinas e sinais obscenos. A reportagem também verificou desrespeito ao pedestre: com o semáforo fechado, o Monza posicionou-se cerca de 1,5 m depois da faixa. Gol e Idea fizeram o mesmo, fechando o trânsito, mas o motorista do Gol, ao notar a presença do fotógrafo, tentou uma discreta reduzida. Nem os pedestres escaparam da observação: muitos invadiram as ruas no sinal vermelho.

Sem dúvida, esse cenário tão familiar se encaixa bem no conceito de selva urbana. Segundo a psicóloga Mariza Tavares Lima, muitas pessoas são tomadas por uma força estranha quando estão ao volante: o carro tor­na-se uma espécie de armadura, e o motorista tende a atravessar o que estiver em seu caminho. “As pessoas sentem possuir mais autonomia, esquecendo-se de que os outros também têm direito e espaço”, observa. Para Mariza, o caos provoca a exteriorização da própria frustração e de todo o estresse do dia na forma de violência. Em muitos casos, a a­gressividade  também está ligada à ideia de perda de liberdade. Afinal de contas, o condutor está “pre­­so no congestionamento”, com seu direito de ir e vir interferido. “Essa sensação de prisão  evoca o instinto de liberdade a qualquer custo”, comenta Mariza. Porém, nada justifica a exteriorização da raiva. Isso tem a ver com educação, falta de limites, impaci­ên­cia e intolerância com o próximo. “To­dos estão sujeitos às mesmas re­ações, mas alguns tendem a se conter e relaxar, enquanto outros explodem.”

Maria Gorete Jerônimo prefere andar de ônibus: tranquilidade
Maria Gorete Jerônimo prefere andar de ônibus: tranquilidade

O estudan­te Lucas Neves, 25, anos, reconhece estar entre as duas posições. “Às vezes, xingo; às vezes, sou xingado.” Segundo ele, “certos condutores simplesmente pensam que as coisas funcionam à sua maneira. Isso me irrita muito.” E resol­ve? “Não, só piora. Mas, fazer o quê?” Já o empresário João Eduardo Pi­nheiro de Lima, 29, admite passar raiva no trânsito, “principalmente quan­do o motorista da frente é lerdo”. Porém, ele tenta se segurar. “Já comprei muita briga. Hoje, estou mais tranquilo. Se bem que, um dia desses, quando um carro me fechou, eu abri o vidro e gritei: você tá cego?”, recorda.

Os homens tendem a ser mais violentos, mas as mulherem vêm se soltando nesse quesito. “Elas estão mais agressivas no trânsito devido ao ritmo de vida a que se submetem, com horários para tudo e a dupla jornada, no trabalho e em casa”, aponta a psicóloga Joane Carvalhaes. A professora Karina Cabral, 33, diz receber pelo menos um xingamento por dia, sem falar nas buzinas e sinais indecorosos. Mas ela não posa de vítima. “Também costumo buzinar quando alguém faz algo errado. É uma reação automática.” Karina relembra quando discutiu feio com uma moça que arranhou seu carro. “Ela falou muitos palavrões; eu não cheguei a tanto, mas reconheço que normalmente não sou daquele jeito.”

Quando a agressão se torna crime

Já imaginou pagar multa por ter xingado alguém no trânsito?
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) concedeu ganho de causa a duas motoristas que foram agredidas por gritos e xingamentos. Elza Maria Oliveira dos Santos recebeu indenização por danos morais de R$ 3 mil, e Marcelina Ferreira Lopes, de R$ 5 mil. “Não estamos acostumados a esse rigor da Justiça, mas essa deveria ser uma prática cotidiana. Afinal de contas, a agressividade pode se constituir como crime de ameaça. Temos que nos responsabilizar por aquilo que falamos”, analisa o psiquiatra forense e criminólogo Paulo Repsold.
João Eduardo Pinheiro: “Já comprei muita briga no trânsito
João Eduardo Pinheiro: “Já comprei muita briga no trânsito

De certa forma, a hostilidade reflete a necessidade de sobrevivência do agressor. Muitos motoristas relacionam a violência no volante como uma forma de aliviar a tensão. Segundo a psicóloga Raquel Alm­q­vist, chefe do Departamento de Psicologia da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), es­sa sensação não é real: “Só se consegue verdadei­ro alívio aprendendo a lidar com aqui­lo que gera estresse, e não externalizando a raiva.” Além disso, a fúria só aumenta o caos e causa prejuízos para o próprio condutor. A síndrome do pânico, por exemplo, costuma se manifestar no trânsito. “A pessoa se sente ameaçada, transtornada e pode demorar muito tempo para voltar a dirigir”, diz Joane Carvalhaes.

Nem sempre é fácil recorrer a expedientes para driblar a agressividade. Raquel Almqvist aconselha a procurar rotas alternativas, tentar sair um pouco mais cedo, driblar os horários de pico. Se isso não for possível, o jeito é se acostumar. “Temos que nos adaptar às condições da vida urbana e incluir o tempo gasto no tráfego na programação diária. E sempre lembrar que o outro motorista também está na mesma situação”, orienta. Outros recursos para relaxar são ouvir boa música, ter à mão palavras cruzadas, revistas, e até livros.

O psiquiatra forense e criminólogo Paulo Repsold acredita que a solução é a educação da população. “O governo deve reforçar a legislação e a fiscalização; e quan­do ocorrer alguma infração, penalizar de forma mais contundente.” Segundo ele, um bom exemplo de medida é a Lei Seca, já que o álcool tende a aflorar ainda mais os ânimos. “Temperada pe­la bebida ou outras drogas, é quase certo que uma discussão termine em lesão corporal”, antevê. Para Repsold, se a pessoa tiver pavio muito curto, deve procurar tratamento profissional.

A bancária Maria Gorete Jerô­ni­mo, 42, optou por uma solução bem radical: deixar o carro na garagem e ir de ônibus para o trabalho. Nem mesmo a distância a ser percorrida – ela mora em Sabará e trabalha no centro de Belo Horizonte – impediu sua decisão. “Apesar de o transporte público não ser o ideal, ganho em tempo e em tranquilidade”, afirma. Para ela, o maior problema do trânsito é a vaidade dos condutores: “Quem quer seguir as leis tem dificuldade. Muitos motoristas ficam irritados quando alguém na frente deles está dirigindo dentro da velocidade permitida. Afinal, eles são os donos da rua, e só sua visão de mundo importa. Mas, quando dirijo, eu não ligo. Fico na pista da direita e vou em frente, sem me estressar.”

Imagem do desenho de Pateta (foto: divulgação)
Imagem do desenho de Pateta (foto: divulgação)

Agressividade nos desenhos animados

Ainda na década de 70, um desenho animado do personagem Pateta mostrou a transformação do pacífico sr. Walker em sr. Wheeler, o motorista, um homem possuído pelo poder e com comportamento agressivo no trânsito, o que mostra que mesmo naquela época o trânsito já era um fator de estresse. Veja trecho do desenho:


 
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