Quarta, 22 de Maio de 2013
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Saúde

Preciso fazer um exame

Por um lado, a tecnologia trazendo precisão no diagnóstico de doenças; por outro, médicos e pacientes que muitas vezes banalizam a demanda por pedidos, pulando etapas importantes como a avaliação clínica criteriosa no consultório

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela


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Diagnosticar doenças se tornou uma atividade corriqueira para a medicina moderna. Além de o arsenal de exames ter aumentado em larga escala, a tecnologia digital possibilita registros visuais do organismo mais nítidos, rápidos, precisos e bem menos invasivos. Com isso, o número de pacientes que se submetem a exames preventivos ou de diagnóstico também cresceu. Segundo o departamento de Medicina Diagnóstica e Preventiva do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o número de brasileiros que fizeram check-up em 2009 aumentou 4% em relação a 2008. De acordo com o médico José Antonio Maluf de Carvalho, gerente do departamento, “o crescimento ocorre em virtude de alertas que a imprensa e as sociedades médicas estão fazendo em relação aos benefícios do diagnóstico precoce de doenças e de sua prevenção para garantir uma qualidade de vida melhor.”


Henrique Salvador: “Mamografia revela alterações não palpáveis
Henrique Salvador: “Mamografia revela alterações não palpáveis"

Em contrapartida, percebe-se a banalização dos exames em geral. Muitos pacientes chegam ao consultório já pedindo determinado exame sem que haja a menor necessidade para isso. Al­guns médicos cedem e acabam solicitando aos pacientes uma série completa, indiscriminadamente, em detrimento da avaliação clínica. “Antes de pedir qualquer exame de laboratório ou de imagem, o médico deve examinar minuciosamente o paciente e investigar seus hábitos de vida, histórico familiar e perfil psicológico”, argumenta o oncologista Bruno Ferrari. De acordo com ele, é só a partir daí que o médico irá saber qual exame solicitar, como avaliar os resultados e que tratamento é mais adequado para aquele paciente.

O problema é que realizar check-ups e exames sem necessidade encarece a medicina e dificulta o acesso a quem realmente precisa. Os excessos também são responsáveis por consultas mais curtas e atendimento apressado. “Médico e paciente pagam a conta. O primeiro por trabalhar sob pressão, e o segundo por não ter atendimento individualizado e personalizado como deveria”, aponta Ferrari. Segundo ele, os exames devem ser pedidos para checar uma suspeita clínica, e não por fobia ou paranoia do paciente. “É o clássico caso de um paciente com diagnóstico de câncer na família que pede exames do corpo inteiro sem apresentar sintomas.”

Leonardo Lamego: identificação de metástases e problemas cardíacos
Leonardo Lamego: identificação de metástases e problemas cardíacos

Porém, uma ressalva: mesmo sendo complementares à avaliação médica, em muitos casos, os exames são fundamentais. O exame clínico não exclui totalmente patologias ocultas. “Muitas doenças apresentam manifestação tardia, sem sinais e sintomas relevantes, e não são diagnosticadas por meio da avaliação clí­nica. Sendo assim, os exames exercem papel fundamental na detecção preco­ce dessas doenças”, defende a médica-radiologista Renata Furletti.

Tome-se como exemplo o câncer de mama, com altíssimo índice de morte na população feminina brasileira, mas facilmente diagnosticado pela mamografia. O autoexame só detecta nódulos com tamanho a partir de 1 cm, isto é, em estágio avançado. “Já a mamografia, um exame de imagem, revela al­te­rações não palpáveis, como microcalcificações, nódulos de até meio milímetro e outras assimetrias”, explica o mastologista Hen­ri­que Salvador, presidente da Comis­são Científica da Sociedade Brasileira de Mastologia e diretor do Hospital Mater Dei. A radiografia pode indicar a necessidade de fazer um estudo aprofundado da mama, tais como “ampliações da área, compressões locais, ultrassom, punções (introdução de agulha na mama para retirada de material na área suspeita) e ressonância nuclear magnética”. 

Renata Furletti: defesa de avaliação clínica e exames
Renata Furletti: defesa de avaliação clínica e exames

Isso não significa que a mamografia deve ser feita isoladamente, e sim interrelacionada ao exame clínico. Foi graças à junção dos dois que a dona de casa Alice Santos, 73 anos, se cu­rou de um tumor na mama esquerda. Há dois anos, enquanto tomava ba­nho, ela notou algo diferente. Marcou a consulta, e o médico realmente percebeu dois nódulos no seio. Na sequência, Alice fez ultrassom, mamografia e punções. Os resultados confirmaram a suspeita de câncer. “Mi­nha mãe e irmã morreram dessa doença, pois não tiveram nenhum acompanhamento médico. Mas mi­nha história foi diferente. Graças a Deus e à medicina, consegui me cu­rar”, comemora Alice.

Outra tecnologia muito eficaz para diagnósticos precoces é o aparelho Pet Scan ou PET/CT (Positron Emission Tomography), disponível em três cidades brasileiras, entre elas, Belo Horizonte. Por meio de uma pequena quantidade de glicose injetada no paciente por via intravenosa, feixes de pósitron (antipartícula do elétron) percorrem todo o corpo do paciente e indicam a presença de focos cancerígenos. “O PET Scan, identifica metástases, avalia a repercussão da quimioterapia e radioterapia e indica reincidências”, lista Leonardo La­mego, mé­dico-nuclear do Mater Dei. O aparelho também tem eficácia na cardiologia. De acordo com Lamego, “ele detecta se há pou-co fluxo de sangue migrando para o músculo cardíaco, prevenindo o infarto e possibilitando a intervenção por angioplastia”. Por fim, o PET ainda revela patologias psiquiátricas, sendo eventualmente útil no diagnóstico de mal de Alzheimer, depressão, esquizofrenia e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

Alice Santos: “Graças a Deus e à medicina consegui me curar”
Alice Santos: “Graças a Deus e à medicina consegui me curar”

O empresário Salvador Ohana, 54, diagnosticou um tumor maligno na garganta por meio de biópsia. Na sequência, submeteu-se ao PET Scan para verificar se não havia outros pontos cancerígenos. Felizmente, os resultados deram negativos, com exceção da própria garganta. Depois da cirurgia, Salvador submeteu-se ao tratamento de seis sessões de quimioterapia e 40 de radioterapia. Em fevereiro, fez novamente o PET Scan, para ratificar que não havia mais nada. “A tecnologia desses exames modernos nos tranquiliza. Temos certeza de que o problema não está se espalhando pelo corpo. Mas o exa­me clínico foi essencial para meu diagnóstico. Antes de qualquer coisa, o médico apalpou a garganta e detectou que os gânglios estavam alterados”, conta Salvador.

A sessão de PET Scan custa cerca de 4 mil reais e só em junho deste ano deve entrar no rol de procedimentos cobertos pelos planos de saúde. Portanto, suas indicações devem ser precisas e justificadas, isto é, quando trazem mais benefícios que outros métodos. No caso de Alzheimer, por exemplo, deve ser usado apenas depois de o paciente realizar outros exames. Na oncologia, por sua vez, não é tão indicado para diagnósticos iniciais, com exceção do câncer de pulmão.  Assim, não há porque o paciente solicitar o PET se o médico não identificou nenhuma suspeita.

Bruno Ferrari: “O médico deve examinar, investigar hábitos de vida”
Bruno Ferrari: “O médico deve examinar, investigar hábitos de vida”

Sem dúvida, a alta precisão e difusão dos exames os tornam grandes aliados da medicina moderna, com grandes benefícios para o paciente. O importante é lembrar que eles nunca substituem a avaliação médica. A “dobradinha” entre profissional e tecnologia, quando feita de maneira ética, consciente e responsável, é capaz de salvar vidas.

 

arte: Paulo Werner
arte: Paulo Werner

A onda do check-up

  • Em 2009, o número de brasileiros que se submeteram a check-up aumentou 4% em relação a 2008
  • 86,4% dos pacientes são homens
  • A idade média dos homens é de 46 anos, e das mulheres, 42 anos

Fonte: Centro de Medicina Diagnóstica do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo (SP)

Métodos diagnósticos

  • Saiba mais sobre algumas modalidades dos atuais exames de imagens e para que elas são indicadas

Ultrassom

  • Identifica lesões mamárias não visualizadas na mamografia, guia biópsias e, mais recentemente, com o equipamento doppler, analisa aspectos funcionais dos órgãos, fornecendo informações no acompanhamento de transplantes de fígado e rim, por exemplo.

Densitometria

  • Avalia a densidade óssea e faz o diagnóstico precoce de osteoporose, bem como o tratamento.

Mamografia

  • Indicada para diagnóstico inicial do câncer de mama, capaz de detectar nódulos não perceptíveis ao exame clínico. Com a tecnologia digital, garante diagnósticos cada vez mais precisos.

PET Scan

  • Detecta tumores cancerígenos, identifica metástases, avalia o quanto o tratamento está sendo eficaz e revela se há reincidência. Também é usado na cardiologia e como coadjuvante de patologias neurológicas.

Tomografia Computadorizada Multislice

  • Solicitado para detecção inicial de lesões e patologias em diversas partes do corpo, bem como para o monitoramento e tratamento de radioterapia e quimioterapia. Capta imagens do corpo inteiro em até 20 segundos.

Ressonância magnética

  • Exame indolor não invasivo indicado para delimitação e caracterização de lesões diversas, detecção precoce de AVC (Acidente Vascular Cerebral), estudo dos vasos sanguíneos, avaliação específica da próstata e reconhecimento de neoplasia de mama e recidivas, entre outras aplicações.

Fonte: Dra. Renata Furletti, médica radiologista do Hospital Mater Dei


 
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