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Reportagem
De peito aberto
Conheça pessoas que vivem para ajudar o próximo, mesmo que esta missão traga algum tipo de risco à sua integridade física
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Daniel de Cerqueira, Nélio Rodrigues, Pedro Vilela e Keystone
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 Andréa Ambrósio: situações de risco vivenciadas várias vezes
Durante uma rebelião na Penitenciária Nelson Hungria, Andréa Ambrósio se tornou moeda de troca dos detentos. O que poderia representar o ponto final para muitos, tornou-se força motriz para a idealizadora da ONG Projeto Fred
Cumprir tarefas, alcançar metas, fechar negócios. Termos recorrentes na vida profissional da maioria das pessoas. Entretanto, para alguns o cotidiano inclui riscos e imprevistos que representam, muitas vezes, viver sob constante fio da navalha, até sob ameaça de morte. Não se trata da parcela especial de trabalhadores que lida com insalubres ou perigosas. São pessoas que abraçaram o que chamam de missão. Afinal, tanto esforço nem sempre visa salário. Apenas se empenham em prol do bem-estar de terceiros, de estranhos. Subir favelas, frequentar lugares inóspitos e insalubres, passar por privações de conforto e de subsistência, transitar em meio a brigas, tráfico de drogas, ser ameaçado.
A médica pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, uma das vítimas brasileiras no terremoto que varreu o Haiti, em janeiro, viveu toda uma vida assim. Na luta contra a poliomielite, a desnutrição infantil, pela saúde das gestantes e idosos pobres ela esteve em zonas de risco do Brasil e do exterior para levar seus ensinamentos. Zilda era a própria linha de frente da entidade que representava, visitava lugares esquecidos no mapa para atender minorias do Peru, Colômbia, Bolívia, Angola, Cuba, México, África do Sul, Filipinas, Timor Leste, Guiné Bissau, entre tantos outros. Ela chegou a cruzar rios do Amazonas em pequenos barcos para ter acesso às comunidades ribeirinhas e ampliar o trabalho voluntariado. Sua ida ao Haiti seria mais uma das muitas visitas humanitárias que fez mundo afora, trabalho que lhe trouxe indicação ao Nobel da Paz. Ao morrer, aos 75 anos, em meio daqueles que tanto defendia, ela deixou o exemplo de que é possível a qualquer um ajudar a reduzir as mazelas humanas.
De acordo com a médica sanitarista Andréa Maria Silveira, coordenadora dos projetos de prevenção à violência do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG, há um elo comum entre profissionais da área caritativa e os que trabalham no setor social. “São pessoas dotadas de grande convicção, que são movidas pela solidariedade, convictas de que podem contribuir para minimizar problemas alheios.” Segundo a especialista, mesmo cientes dos riscos a que estão sujeitos, essas pessoas jamais interromperiam o que fazem diante de incidentes, por exemplo. “Os conflitos são encarados como riscos ocupacionais. Na verdade, essas pessoas são o que chamamos8 de resilientes, pois enfrentam reveses com grande capacidade de adaptação, são motivadoras, tanto ética quanto ideologicamente, são exemplos para a sociedade”, explica Andréa Silveira.
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Antônio Jorge: “Casos de violência são exceções” |
Célio Alan Kardec, engenheiro civil e coordenador geral do Grupo da Fraternidade Espírita Irmã Scheilla, entidade que desde os anos 1980 distribui sopa a moradores de rua da capital, confirma a análise do Crisp. “A nosso ver, os mais fortes devem amparar os mais fracos. Quando se faz esse contato de forma espontânea, carinhosa, sem proselitismo, sem buscar reconhecimento pessoal, há uma natural receptividade.” Atendendo drogaditos, alcoólatras, migrantes, famílias em exclusão social, fugitivos da Justiça e pessoas que praticam crimes, já houve casos pontuais de furtos e de agressões entre os próprios beneficiados do programa e até contra a equipe de 40 voluntários. Kardec confirma que todos os fraternistas que lidam com o público recebem treinamento para lidar com situações de risco. Habilidade e diálogo são fundamentais para conter brigas, diz Antônio Jorge de Almeida, coordenador da Casa Espírita André Luiz, entidade que integra o Grupo Scheilla e que é responsável pela distribuição da sopa. “Casos de violência são exceções. A melhor estratégia é que tanto nosso segurança quanto os voluntários são orientados a tomar atitudes pacificadoras para romper o ciclo de violência que infelizmente integra a rotina dessas pessoas.”
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Célio Kardec: “Os mais fortes devem amparar os mais fracos” |
Se situações de risco são exceções nas ações do Grupo Scheilla, elas já foram vivenciadas várias vezes por Andréa Ambrósio, idealizadora da ONG Projeto Fred, que realiza oficinas e atividades socioeducativas com detentos, comunidades carentes e soropositivos. Durante uma rebelião na Penitenciária Nelson Hungria, ela ficou isolada, pelos detentos, para forçar negociações. O que poderia representar o ponto final para muitos, tornou-se força motriz para a empresária. “Nasci para o que faço. Pode-se morrer a qualquer tempo, acho que todos têm um tempo certo de vida. Deixar meu trabalho de lado não me tornaria menos vulnerável. Em cada rosto deles vejo uma parte do meu irmão Fred (ex-detento que morreu assassinado quando deixou a cadeia).” Na contramão do perigo, foi o próprio trabalho social que também a livrou de problemas. Ao sair de mais um dia de atividades numa penitenciária da capital mineira, Andréa foi alvo de sequestro-relâmpago. Foram mais de 6 horas de pressão psicológica nas mãos de um adolescente armado, que aparentava uso de entorpecentes. Violento, ele fez ameaças, agressões verbais, deu-lhe puxões de cabelo e obrigou-a dirigir num ziguezague sem fim por lugares ermos, noite adentro. “Ele contou que precisava de dinheiro para comprar um bujão de gás para a família. Seu comportamento oscilava entre extremos: da máxima fúria à enorme carência emocional. Quando ele notou o material do projeto dentro do carro, falei que havia sim, chances de ele reescrever a vida para melhor. Acho que isso me salvou.” O jovem desceu do carro levando apenas o dinheiro que disse precisar: 20 reais.
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Violência contra a mulher: causa abraçada pela ONG Bem-Vinda |
“A questão prisional é co-responsabilidade de toda a sociedade. Não é algo para se empurrar para debaixo do tapete, achar que é mera obrigação de órgãos públicos”, diz Maria de Lourdes Oliveira, secretária-executiva da Pastoral Carcerária. Ela se lembra dos horrores e condições subumanas que presenciou no antigo depósito de presos da Lagoinha e na 2ª Delegacia de Polícia de Contagem, que colocam em risco de contágio até a próprias equipes da Pastoral. Para encarar rotinas como essas, as equipes passam por treinamento, por formação permanente que envolve áreas de psicologia, jurídica e de procedimentos corretos em caso de conflitos.
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Maria de Lourdes Oliveira: formação permanente |
E quando o alvo se tornam as próprias pessoas que se ocupam em prol de ajudar o próximo? No Bem-Vinda – Centro de Apoio à Mulher, são diversos os casos de homens que se excederam, fazendo desde ameaças verbais, perseguição até tentativas de agressão física à equipe de profissionais do órgão, que pertence à Coordenadoria dos Direitos da Mulher, da Secretaria de Direitos e Cidadania da prefeitura de Belo Horizonte. A entidade atende mulheres vítimas de violência (física ou psicológica, tentativa de homicídio) de parceiros com quem tiveram ou ainda têm relação afetiva. Depois que fazem denúncia na Delegacia de Mulheres, elas são encaminhadas a um abrigo, mantido em lugar secreto. “Muitos parceiros chegam aqui se fazendo de vítimas, tentam desqualificar suas companheiras, pressionam para saber onde elas estão. Houve o caso de um homem que chamou a polícia para a nossa equipe porque queria imediatamente falar com a mulher, mesmo ciente que ela o denunciara por agressões. Já um engenheiro e estudante de direito fez tudo para descobrir o paradeiro da esposa, a quem ele espancara com assiduidade. O rapaz tentou obstruir a Justiça, fez várias tentativas de agressão contra funcionários, além de ameaças”, afirma a coordenadora do Bem-Vinda, Daniele Caldas. O assédio foi tamanho que culminou em denúncia, que o levou a quatro meses de detenção. Daniele diz que os riscos ocupacionais de seu trabalho são previstos e compensados ao ver mulheres se libertando de anos sob opressão física e psicológica. “Claro que temos o apoio da Guarda Municipal, na retaguarda, e treinamento próprio para lidar com excessos. Tudo isso faz parte do processo”, afirma, sem colocar os riscos como obstáculo para que o trabalho continue a pleno vapor. Até porque a única intenção é a de ajudar o próximo, o que o fazem de peito aberto, com o coração.
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Andréa Silveira: “Conflitos são encarados como riscos ocupacionais” |
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