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Reforma PsiquiátricaOnde (e como) tratar?Na primeira da série de três reportagens sobre os 30 anos da reforma psiquiátrica no Brasil, especialistas discutem eficácia das longas internações como tratamento a pessoas com transtornos mentais
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira e Pedro Vilela
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Nesta primeira reportagem, especialistas e profissionais do setor falam a respeito da reformulação do modelo brasileiro de assistência em saúde mental. Afinal, trinta anos se passaram desde as primeiras mudanças e, uma década após a lei que regula o tema ter entrado em vigor, uma série de questionamentos ainda paira no ar. Será que as medidas adotadas pelos hospitais psiquiátricos e o atendimento prestado pelos serviços substitutivos são suficientes para atender de forma plena o portador de sofrimento mental? Essas ações conseguem proporcionar, além de tratamento adequado, a inclusão sociofamiliar e profissional destes pacientes, além do resgate de sua dignidade e cidadania? |
Perguntas difíceis de serem respondidas e que geram debates – alguns nada amistosos – entre profissionais do setor, usuários do sistema e simpatizantes da causa. De um lado, defensores da continuidade dos hospitais psiquiátricos no tratamento de pacientes em crises agudas ou com problemas que requerem mais tempo para a elaboração de recursos terapêuticos; de outro, militantes da luta antimanicomial e dos serviços substitutivos, os quais sustentam que, mesmo com a humanização do atendimento nos hospitais, nesses locais o doente ainda permanece segregado, isolado da sociedade e de sua família. Com a entrada em vigor da lei nº 10.216/01, o Ministério da Saúde adotou uma série de iniciativas para reduzir o número de leitos nos hospitais psiquiátricos e oferecer serviços alternativos que promovam não apenas o tratamento da doença, mas também inserção do paciente na sociedade e na família. A rede é composta por Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) e Centros de Convivência e Cultura, além de outras ações (vide quadro). Em Belo Horizonte, os Centros de Referência em Saúde Mental (Cersam), coordenados pela prefeitura, equivalem aos Caps. Atualmente, a capital possui nove Cersams (a estrutura e o funcionamento desses serviços serão discutidos na próxima reportagem da série). Entretanto, para que a reforma do modelo de assistência em saúde mental no Brasil continue avançando é necessário mais investimento por parte do setor público. A opinião é da coordenadora de Saúde Mental da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES), Marta Elizabeth de Souza. Ela assevera que orçamento da saúde é das três esferas de governo. |
“Em Minas, 12% é destinado ao setor, só que esses recursos também atendem órgãos como a Copasa e o Corpo de Bombeiros e não apenas o Sistema Único de Saúde (SUS)”, observa a servidora. Marta frisa ainda que muitos portadores de transtornos mentais têm outros problemas graves, como a miséria. “É preciso criar políticas públicas para suprir as necessidades dessas pessoas, porque o SUS não é capaz de fazer tudo.” Um dos temas mais polêmicos quando se aborda saúde mental é quanto a ser possível ou não prescindir totalmente do hospital psiquiátrico. Argumentos não faltam entre quem defende a manutenção do sistema hospitalar e nem entre quem é a favor do fim dessas instituições. Na avaliação do psiquiatra Hélio Lauar, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a existência dos hospitais de saúde mental é necessária. “Devemos priorizar os atendimentos nos níveis ambulatoriais e oferecer acolhimento em tempo parcial ou integral quando houver necessidade clínica”, pontua. |
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O início da reforma psiquiátrica
Fonte: Museu da Loucura |
O especialista da ABP afirma que os hospitais públicos funcionam hoje dentro dos princípios da reforma da assistência psiquiátrica. “Não há mais o isolamento e a segregação típica dos tratamentos e concepções terapêuticas do século 19 e que duraram na primeira metade do século 20”, esclarece. Segundo Lauar, a eficácia das medicações, o envolvimento das famílias na recuperação dos pacientes e os novos pactos culturais que permitiram repensar a cidadania e os direitos dos portadores de transtornos mentais mudaram profundamente o modo de abordar essas patologias em qualquer nível do atendimento. Questões ideológicas também vêm à tona quando se fala em reformulação do sistema de atendimento psiquiátrico. “Este movimento por melhores condições assistenciais extrapolou sua função e se distanciou da Associação Brasileira de Psiquiatria , das universidades e dos anseios da classe médica. Os médicos psiquiatras e as faculdades de medicina, alijados, precisam de ser ouvidos e respeitados para que possa se oferecer o melhor em termos de assistência”, destaca o médico Rodrigo Nicolato, especialista em psiquiatria pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. |
Nicolato reforça que há uma grande tendência de se internar quando necessário e centrar o modelo atendimento em atividades preventivas, serviços comunitários e ambulatoriais. “Pode haver menos exagero em termos de internações desnecessárias, mas há muito pacientes precisando de internação em bons hospitais.” Na contramão da ideologia de manutenção dos hospitais exclusivamente voltados para a saúde mental, está o movimento da luta antimanicomial. Uma das vozes ativas da causa em Minas é Aparecida Celina Alves de Oliveira, coordenadora do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Ela concorda que os hospitais psiquiátricos mudaram, estão mais humanizados, mas ressalta que eles ainda excluem o usuário. “O serviço substitutivo foi criado com o objetivo de não tirar o usuário de sua área geográfica para que ele não perca o contato com a família. Nossa maior preocupação é com a inserção desse paciente na sociedade, inclusive profissionalmente, o que o hospital não proporciona.” |
De acordo com a psicóloga Rosimeire Silva, uma das responsáveis pela coordenação do departamento de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, que também é a favor da lógica antimanicomial, para que os hospitais psiquiátricos sejam extintos, pelo menos em BH, é necessária a adoção de várias medidas. “É preciso ter um dispositivo para a formação de profissionais já dentro desse formato, criar um espaço de trabalho permanente para estimular a produção dos usuários da rede, fortalecer as cooperativas, as parcerias intersetoriais e também a assistência social para que haja um atendimento de qualidade. É fundamental ainda que exista integração com outras áreas do setor público e que haja sustentação dessa rede”, justifica Rosimeire. O que há de verdade e de exagero nessas opiniões? Na segunda reportagem da série, a Viver Brasil vai relatar como foram as visitas ao Galba Veloso e ao Instituto Raul Soares e também ao Cersam Noroeste além de uma residência terapêutica. Vamos apontar as diferenças entre os dois modelos de atendimento, relatar as impressões que a equipe teve ao conhecer esses lugares e contar histórias emocionantes de quem vive essa realidade. |
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A Política Nacional de Saúde Mental
Fonte: Ministério da Saúde, Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais Leia o depoimento da repórter sobre a matéria no Blog da Redação. |