Quarta, 23 de Maio de 2012
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Especial

Ente querido

Processo de humanização dos animais de estimação é fenômeno sem volta. Especialistas alertam para as consequências dos exageros

Texto: Pilar Batista | Fotos: Marcos Rosa, Nélio Rodrigues e Pedro Vilela


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Quando passeia pelas ruas do Jardim Europa, em São Paulo, usando botinhas de couro, colar de cristais Swarovski e estola de pele de chinchila nos dias frios, a pequena Donatella chama a atenção de quem cruza seu caminho. Não tanto por acessórios como a bolsa Louis Vuitton ou pelos óculos de sol importados, mimos comuns aos moradores e habitués do bairro de classe alta paulistana, mas porque Donatella é uma cachorrinha, da raça spitz alemão, mais conhecida como Lulu da Pomerânia. Ela é filha da empresária paulista Ester Menegazzo.
Donatella e sua dona Ester Menegazzo: bolsa Louis Vuitton e óculos de sol importado
Donatella e sua dona Ester Menegazzo: bolsa Louis Vuitton e óculos de sol importado

O cabeleireiro Sílvio Nogueira ainda chora ao falar de Hulk, um buldogue inglês a quem dedicava seu mais sincero afeto, a ponto de despender cerca de 10 mil reais em dois meses, na tentativa de salvar a vida do animal, tratado como filho. “Ele era minha vida, eu nunca senti tanta dor”, diz Sílvio, que chegou a comprar cadeira de rodas para Hulk a fim de restabelecer o movimento das pernas, perdido em um acidente de carro. Além disto, o cão só comia ração francesa, dormia na cama de Sílvio, tinha babá que cuidava dele na ausência do dono e quando saía para passear ostentava um cordão de ouro branco maciço, presente do pai. Depois de esgotadas todas as tentativas de salvar a vida de Hulk, a despedida foi em8 grande estilo. Sílvio mandou cremar o corpo e as cinzas jogadas na serra da Moeda, um dos locais preferidos de Hulk nos passeios pelas montanhas da Grande Belo Horizonte.

O analista comportamental de cães Dennis Martin, colunista do site Greepet, critica esta humanização dos cães, segundo ele uma tentativa de tornar os animais semelhantes a seus donos. Neste processo, o animal passa a ser o líder absoluto e os membros da família meros seguidores. “Este ser prefere mil vezes fazer o papel de um cão, nada além disso”, defende. A atividade de analista comportamental de cães ou psicólogo canino, como é mais conhecida é, inclusive, resultado da demanda que os próprios humanos criaram ao fazerem de seus pets seres semelhantes a eles em tudo. E esta demanda atinge setores diversos. O mercado pet movimenta por ano 9 bilhões de reais, apenas no Brasil.

Gabriela Bressan, da Fricotes & Filhotes: colares de pérola para os cãezinhos
Gabriela Bressan, da Fricotes & Filhotes: colares de pérola para os cãezinhos

Este excesso de cuidados, de acordo com especialistas, acaba sobrecarregando os animais. Estresse e depressão são algumas das consequências mais conhecidas, mas o alvo da terapia acaba sendo o próprio ser humano, que na maioria das vezes tem de mudar o comportamento para melhorar o do bichinho. “Ser o centro das atenções e ter a missão de resolver todas as situações de seus seguidores estressa esse líder, que pede e recebe, pega e ninguém contesta, grita e todos obedecem. Mesmo assim ele não é feliz”, afirma Dennis Martin, em um artigo bem-humorado sobre o tema.

Além do estresse, a obesidade, cáries e problemas periodontais, doenças cardíacas e até câncer acabam afetando os animais. “Se meus meninos passarem mal de madrugada eu saio correndo, de pijama”, afirma a dona de casa Cíntia Sandoval Babo, se referindo a seus cães Brigite, Juquinha e Ze­quinha. Os três animais têm rotina de criança: tomam todas as vacinas recomendadas pelo veterinário, dormem na cama e seus brinquedos passam pelo crivo da mãe para verificar se as peças não se soltam.

Se por um lado o excesso de mimos pode levar os animais ao estresse, é sabido que a dedicação aos caninos fez com que a espécie ficasse mais longeva. Eles, que até a década de 80 viviam apenas 10 anos em média, atualmente chegam a atingir 15 e até 18 anos de vida. O convívio com a família e o hábito de alimentá-los com ração, ao invés de restos de comida como se usava até então, estão por trás dessa estatística e de outra que aponta o Brasil como o terceiro país consumidor de produtos pet, perdendo apenas para Estados Unidos e França. 

Sílvio Nogueira: cinzas do buldogue Hulk jogadas na serra da Moeda
Sílvio Nogueira: cinzas do buldogue Hulk jogadas na serra da Moeda

Aproveitando a onda de mimos excessivos o mercado não para de lançar novidades. O pet lover, por exemplo, é um aspirador desenvolvido especialmente para aspirar pelos. Entre os mais de 60 tipos de xampus, incluindo condicionadores e máscaras de hidratação, estão também os tonalizantes. Comedores de porcelana, roupas de grife – os cães de Gisele Bündchen usavam Dolce&Gabbana no casamento da top –, colares de pérolas e banheiras de ofurô. Para se ter ideia do tamanho deste mercado, a loja Fricotes & Filhotes, instalada no shopping Iguatemi, em São Paulo, comercializa mais de 3 mil itens, segundo o funcionário Haroldo Nogueira. A maioria deles classificada como fricote, como os óculos de sol com proteção total contra os raios solares.

A paixão pelos animais chega a determinar os produtos a serem comercializados e até mesmo as transações envolvendo vidas caninas. Explica-se: a veterinária Cristina Versiani, proprietária de uma loja em Belo Horizonte, exclui da lista de itens que comercializa as coleiras antilatido, por considerar o produto danoso ao animal. Ao latir, o cão leva choque. Proprietária de oito cachorros e três gatos, ela joga no time dos que tratam os pequenos como gente. Reich, um schnauzer de 10 anos, é o filho predileto de Cristina e, apesar da idade, ainda é tratado como bebê. “Os cães há muito tempo deixaram de ser considerados como bichos pelas pessoas, que reconhecem os benefícios que este convívio proporciona”, afirma.

Margarida Morgan e a cadelinha Happy: cuidados incluem alimentação natural
Margarida Morgan e a cadelinha Happy: cuidados incluem alimentação natural

Opinião compartilhada pela criadora de buldogue francês, ou frenchies, como carinhosamente os denomina, Camilli Chamone. Ela comemora  o aniversário de seus bebês com bolo feito com ingredientes naturais e vem adotando alimentação idem no dia-a-dia da matilha. Sua preocupação com os bichinhos é tanta que ela divulga em seu site 10 motivos para não ter um frenchie. “É para desanimar criadores desprepa­rados, aqueles que não estejam dispostos a dar o máximo em amor e cuidados para os cãezinhos”, diz. E Camilli ainda aceita doações como forma de garantir que seus filhos tenham um lar adequado.

“O animal não substitui pessoas da família, mas ter um, sem dúvida, é uma forma de não se sentir sozinho”, defende a veterinária Eli­ân­gela Orl­an­do, que vem constatando, entre seus clientes, apego crescente aos animais, não apenas cães e gatos, mas também aves e pequenos répteis. A diretora de  plano de saúde específico para animais, Ana Luisa Ziller, afirma que a maior parte de sua clientela é formada por pessoas que tratam o animal como membro da família. O excesso de zelo – muitos banhos, escovação, às vezes, levam o bicho ao adoecimento. Para evitar excessos e seguindo critérios técnicos, a empresa estabeleceu uma periodicidade para as consultas. “Há pessoas que querem levar o cão ao veterinário toda semana”, exemplifica.

Haroldo Souza em loja de shopping paulistano: mais de 3 mil itens
Haroldo Souza em loja de shopping paulistano: mais de 3 mil itens

No caso da cadelinha Happy, uma shihtzu da advogada Margarida Morgan, a clínica veterinária manda pelo celular da dona a seguinte mensagem: “Está na hora de Happy se vacinar contra a raiva”. O cuidado com a saúde do animal inclui, ainda  alimentação natural, à base de frutas como mamão e maçã, além de alface, cenoura e até rúcula, servidos à mesa. “Happy é uma companhia absoluta e o meu amor por ela é como o da mãe para um filho”, explica Margarida.


 
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