“O MP, da forma que atua hoje, é uma instituição muito nova. O perfil dos colegas é jovem. Temos os arroubos da juventude”
O senhor falou que pelo menos em tese o promotor não recebe influências. Na prática há?
É natural que possa existir, num caso ou outro, uma tentativa de ingerência da chefia, que é premida por diferentes situações. Mas o promotor tem suas prerrogativas funcionais e normalmente estas pressões não são aceitas. Tem que haver maturidade do promotor para se desvencilhar da situação.
Hoje se debate a possibilidade de o Ministério Público ter uma função de investigação em algumas situações. A instituição está preparada para isto?
Estamos melhores preparados do que já estivemos. Há realmente algumas situações em que o melhor é que os procedimentos sejam conduzidos pelo promotor de Justiça como, por exemplo, numa situação de abuso do poder de polícia que, dificilmente, seria investigado pela própria polícia. Esta polêmica surgiu já há algum tempo, mas, hoje felizmente, no Supremo Tribunal está pacificada. A atuação do Ministério Público não é concorrente com a Polícia Civil nem absoluta. É simplesmente complementar, pois o poder de investigação é própria da polícia. Eu diria que minimamente estamos preparados para alguns procedimentos investigatórios.
Recentemente a Assembleia de Minas e o MP tiveram embate que quase descambou para uma crise institucional. Isto está superado?
Hoje acho que estão superadas as dificuldades de relacionamento, principalmente pela atuação do presidente Alberto Pinto Coelho, e a convivência está muito mais tranquila. Pode ter ocorrido à época abuso por parte de algum promotor, mas, com certeza, esta é uma situação pontual. O que precisa haver é compreensão de que algumas medidas tomadas pelo MP são traumáticas e podem resultar em desgaste. Por exemplo, desde algum tempo, uma atuação nossa na área do patrimônio público que é fiscalizar a contratação de funcionários pelas prefeituras. Muito antes do Supremo Tribunal Federal tratar do nepotismo, já havia uma atuação do MP para evitar esta prática. Hoje se pode dizer que a situação de contratação de servidores públicos pelas prefeituras está bem normalizada, dentro dos preceitos legais, mas, evidentemente, durante o processo de ajuste, houve muito desgaste na convivência com os poderes.
O senhor também considera o Brasil o país da impunidade?
Não há dúvida alguma de que é este o sentimento social. Ele é ainda maior quando se trata de casos de corrupção e mesmo do crime comum. Nós temos uma lei de execução penal que muitas vezes, notadamente nos casos de clamor público, a sociedade não compreende. É o caso do regime de progressão de pena que, muitas vezes abranda a punição. O sujeito comete, por exemplo, um homicídio e após cumprir dois quintos de sua sentença – antes era com um sexto – evolui no regime de cumprimento da pena. Mas na consciência das pessoas o sujeito foi solto, apesar de ter cometido crime gravíssimo. Nos atos de corrupção é pior ainda. Quantos estão presos por corrupção? Há casos recentes notórios, em que o indivíduo praticou atos terríveis de corrupção e, por força do ordenamento jurídico, mantém-se no cargo, embora haja pressão social muito grande.
De uma forma recorrente há movimentos pedindo o aumento das penas. É a solução?
Sem dúvida nenhuma o problema não é o tamanho das penas, mas sim do seu cumprimento. Há muita polêmica em torno do assunto, mas há uma política de execução das penas que é muito benevolente e distante da realidade social do país. O clamor dos promotores de Justiça não é pelo aumento, mas pelo seu cumprimento efetivo.
O senhor acha necessário mudar a lei para dar maior dinamismo à Justiça?
As reformas que estão sendo feitas já melhoraram um pouco. O Supremo Tribunal Federal, me disse um ministro, em dois anos deverá colocar sua pauta em dia, com a diminuição do número de processos que chega até ele agora, depois das mudanças. Mas ainda é preciso mudar muita coisa. No âmbito do processo penal, por exemplo, é necessário reduzir o número de recursos possíveis.
O Ministério Público está acompanhando o projeto de reforma do Código de Processo Penal, em discussão no Senado?
O Ministério Público tem acompanhado todas as propostas de reforma do código. Muitas reformas do Código de Processo Penal, infelizmente, têm sido feitas em função do clamor público. Casos concretos de grande comoção social, às vezes fazem o Congresso se mover e resgatar projetos que estão em andamento para votar isoladamente, sem perspectiva de revisão do processo penal como um todo. As mudanças são isoladas, movidas muito mais pelos fatos que causam comoção do que pela preocupação estrutural e orgânica.
O senhor falou em clamor público, mas muitas vezes a gente vê o Ministério Público se envolvendo neste sentimento, empenhando-se mais do que em outros crimes que não têm este clamor.
Isto é natural, afinal o membro do Ministério Público é um cidadão como outro qualquer e às vezes se deixa motivar por este fato, mas ele precisa ter a consciência de que não pode agir, não pode ser movido em função deste clamor e ter a serenidade para atuar distanciado da situação. Mas nós procuradores, promotores, juízes e policiais estamos sujeitos a isto, embora não seja a situação ideal.
A população, de um modo geral, aprendeu a buscar seus direitos e demonstra confiança no Ministério Público. Vocês estão preparados para o aumento da demanda?
Hoje, em praticamente todo o Brasil, a situação do Ministério Público melhorou muito, mas ainda é insuficiente. Especialmente no interior, apesar de ter evoluído, a estrutura ainda está aquém das expectativas e necessidades. Em Minas, na região Norte, no Vale do Jequitinhonha, ainda há casos em que um promotor atende a 100 mil jurisdicionados. Um promotor e um funcionário para atender uma área onde os conflitos sociais são muitos.
A estabilidade e em alguns casos os bons salários atraem muitas pessoas para a área pública. Hoje as pessoas buscam o serviço público não por vocação, mas pela garantia do emprego. A instituição sente este problema de gente que vem para ela sem vocação para a atividade?
Sente sim. Ainda muito recentemente o perfil dos membros da instituição era de gente oriunda da classe média, classe média baixa. Agora há a preocupação de que não haja uma elitização muito grande. Hoje o advogado para fazer concurso público para o Ministério Público e para o Judiciário precisa ter três anos de exercício da profissão. O que ocorre é que aquele que tem condições de ficar três anos só estudando e trabalhando apenas o suficiente para atender ao requisito, acaba sendo beneficiado. A elitização, embora ainda não constatada, é uma preocupação, inclusive no âmbito do Conselho Nacional do Ministério Público.
O senhor é, reconhecidamente, um defensor de sua classe, mas não custa perguntar: o Ministério Público tem salário elevado? O pessoal ganha muito?
Nós temos consciência de que a nossa remuneração, dentro do contexto social, é bem razoável, para não dizer elevada. Por outro lado, pelas atribuições, responsabilidade e importância social que a instituição tem, acho que a remuneração é compatível. Ninguém entra no MP acreditando que fará riqueza. Vai ter uma boa situação social, confortável, mas o advogado que quiser fazer riqueza, prosperar, que vá para o exercício da advocacia. Isto ele não vai conseguir na carreira pública. Agora, no contexto social do país, nossa carreira é muito bem situada e isto é importante que a gente mesmo saiba, para que tenhamos a consciência de nosso dever e uma dedicação muito grande.