Quarta, 23 de Maio de 2012
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Cidade

Sempre Savassi

Em março de 1940 nascia uma praça na zona sul da capital mineira que, ao longo das décadas, criou modismos, ganhou em charme e faz parte da vida de milhares de belo-horizontinos

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Daniel de Cerqueira, Nélio Rodrigues, Maria Tereza Correia, Pedro Vilela


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Praça da Savassi e o engenheiro José Arthur Penna (ao lado): convivência num lugar charmoso

Quando os irmãos Hugo e Juca Savassi inauguraram, em 16 de março de 1940, a padaria e confeitaria no cruzamento das avenidas Cristóvão Colombo e Paraúna (hoje Getúlio Vargas), na praça 13 de Maio (desde 1943 rebatizada de Diogo Vasconcelos, primeiro historiador de arte do Brasil) nunca poderiam imaginar que ali nascia, também, um estilo. O sobrenome italiano extrapolou o empreendimento tornando-se sinônimo de charme e vanguarda. Graças às estripulias de uma turma de jovens que se encontrava na porta da padaria. No auge, a Turma da Savassi chegou a ter mais de 80 integrantes. Paulo Mendes Campos, Rogério Tamm Brandão, Pacífico Mascarenhas, Nelson Aroeira, José Longo e Zeca Martins eram alguns deles. Lembrando o astro Robert Mitchum, Ludgero Dolabella (já falecido) foi galã do grupo. A rapaziada suspirava pelas musas Mônica Machado8  de Almeida, Beth Longo e Maria Beatriz Inecco (Duducha). Entre o final da década de 1950 até os anos 60 boa parte dos adolescentes da turma vinha dos colégios Padre Machado, Santo Antônio e Sagrado Coração de Jesus. Aquela geração foi pioneira, incentivando outras turmas: do Serve-Bem (alusão ao supermercado), do Iate, do Automóvel Clube, Minas Boys (do Minas Tênis), da praça 12, da padaria Lourdes, do Munhoz e da Quadra dos Auns, entre outras.

Elis Regina Castro e Andréa Loures: ambiente agradável
Elis Regina Castro e Andréa Loures: ambiente agradável
Geraldo Neme: gostos e nomes dos clientes
Geraldo Neme: gostos e nomes dos clientes

Juventude transviada

Jogar pelada no meio da rua e ter a bola confiscada pela polícia; reorganizar, à noite, o letreiro do cine Pathè, formando palavras jocosas; forçar passagem entre a grade dos fundos desse cinema, para não pagar ingresso; pegar carona nos bondes; e ser da lista dos famosos penetras da cidade. Com informantes entre fornecedores de chope, não havia lugar impenetrável. Além desses e outros hábitos da turma, jogavam-se bombinhas de estopim de cigarro para assustar pedestres. Intrusos, na Savassi, tinham de pagar passaporte à turma, ou levavam uma mofa, surra em que a vítima era vestida num saco de farinha enquanto apanhava.

Donos do pedaço, os membros da turma tinham um catálogo telefônico informal, gravado a ponta de canivete no mármore da padaria. O então gerente do Pathè, Carlos, várias vezes deixou o posto para fugir para a casa de Pacífico, na rua Paraíba, para aulas de bateria. “Gostávamos de fazer serenata e dos torneios de vida (sinuca) nos bares. Éramos bons de briga, porque juntávamos 30 rapazes de uma vez só. Não tinha como machucar, era tudo briga na mão. Nossos rivais eram dos bairros Santo Antônio, Cruzeiro, Santa Efigênia e Santa Tereza. Ninguém botava banca com a gente”, lembra o compositor e empresário Pacífico Mascarenhas, 75 anos, autor de 12 músicas sobre a região. Famílias tradicionais evitavam proximidade de suas herdeiras com os arruaceiros. Pacífico sofreu para convencer os pais portugueses da jovem Emília, porém venceu o bloqueio de forma inusitada. “Colocamos um piano sobre um caminhão para a serenata dela. Cantei músicas típicas de Portugal e outra, que escrevi para Emília.” Nos anos 1960, a Turma da Savassi chegou a sequestrar Cauby Peixoto após shows na boate 6 a 6 para que participasse das serenatas. A notícia se espalhou e Cauby ainda teve de repetir o feito para outra turma, para evitar complicações. O ainda desconhecido Milton Nascimento, então morador da pensão da dona Maria, na Antônio de Albuquerque, participou, várias vezes, desses saraus românticos.

Turma da Savassi, no final da década de 50 e Pacífico Mascarenhas (abaixo): serenatas
Turma da Savassi, no final da década de 50 e Pacífico Mascarenhas (abaixo): serenatas

Gostávamos de fazer serenata e dos torneios de vida (sinuca) nos bares. Éramos bons de briga, juntávamos 30 rapazes de uma vez só. Ninguém botava banca com a gente” Pacífico Mascarenha

Mesmo com a mudança da padaria Savassi para a rua Rio Grande do Norte, e com o esvaziamento gradual da turma, a praça Diogo Vasconcelos perpetuou-se como o coração da Savassi. Décadas depois, o escritor Roberto Drummond (1939-2002) registrou em crônicas seu neologismo savassear, justificando que a região tem vida própria. Do restaurante Dona Lucinha, na Sergipe, Drummond saía para conferir vendas de seus títulos, checando se as livrarias expunham nas vitrines os trabalhos dele.
Bares, cafeterias e livrarias tornaram-se novos points. A Boca de Pito, café e tabacaria, desde 1977, é referência. O proprietário Geraldo Neme conhece os habituès pelo nome, bem como seus gostos e manias. O advogado João Caetano Muzzi, ex-integrante da Turma do Serve Bem, é um dos clientes. “Tomar café aqui é uma terapia. Ouvimos casos do Geraldo e dos frequentadores, dá a sensação de que estamos em casa. Ajuda a relaxar da rotina estressante”, garante Muzzi. Até aos sábados, as bancárias Elis Regina Castro e Andréa Loures, que trabalham na Savassi, vão à Boca de Pito. “É agradável, não é como os ambientes estéreis e impessoais dos shoppings”, justifica Elis. Para Andréa, a tabacaria traz boas lembranças. “Aqui passei minha adolescência, com turmas de amigos, pois o 5ª Avenida era nosso ponto de encontro.” O assessor jurídico Marcos Campos Lima, 61, frequenta a Savassi desde menino e se diz duplamente privilegiado. “Comecei a trabalhar no bairro em 1987, onde também tenho momentos de lazer. Há uma energia diferente. Essa região tem alma, sem falar no público, que é muito bonito.”
João Caetano Muzzi: “Ajuda a relaxar da rotina estressante”
João Caetano Muzzi: “Ajuda a relaxar da rotina estressante”

Reduto das letras

Na Savassi se encontra a maior concentração de livrarias de rua da capital. Alencar Fráguas, proprietário da Quixote, diz que a expansão do segmento foi um processo natural. “Na década de 1980, a Savassi era famosa pelos bares e boates. Depois vieram as butiques sofisticadas. Com a proliferação dos shoppings, o comércio adaptou-se, surgiu a tradição das livrarias, como aconteceu com o Leblon (RJ). O público é típico – são pessoas que querem ser atendidas por quem entende e gosta de livros. Tem gente que faz um passeio intelectual por todas as livrarias, aos sábados”, explica Alencar. A Quixote tem uma área inteira batizada em homenagem ao escritor mineiro Barto­lomeu Campos de Queirós, vizinho e fiel frequentador. O livreiro tem razão quanto a novos hábitos de consumo que vão metamorfoseando o comércio. A Agência Status foi pioneira no café colonial aos domingos, das 8 às 13h. Famílias, casais, solteiros, gente recém-saída de baladas, turmas que celebram aniversários vão tomar o café da manhã ali, curtem shows ao vivo e ainda compram livros e periódicos. O engenheiro metalurgista José Arthur Penna, 63, confirma o hábito sagrado. “Nada melhor do que acordar num domingo, sem ter de ir para a cozinha. O cardápio é farto, tem ótimo preço. Quando não encontro um livro que procuro, encomendo. Mais um motivo para voltar, rever amigos. Tenho até mesa cativa.” A Livraria e Café da Travessa deixou de existir na praça da Savassi, no final de 2009, desvinculando-se da rede de livrarias carioca fundada por Rui Campos, irmão de Fábio, dono da Travessa mineira. No local da antiga livraria, na praça, funciona o Café da Travessa, que em março passará por reforma. A nova livraria foi instalada na rua Paraíba, ampliada e rebatizada de Mineiriana, tornando-se a maior livraria de rua da cidade, com mais de 80 mil títulos, sob a batuta da jovem livreira Juliana Campos. A exemplo de circuitos consagrados da cidade, como os roteiros gastroetílicos, a Belotur, Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte manifesta interesse em dar maior destaque à Savassi. “Trata-se de um rico circuito cultural, que tem forte recorte territorial e temático, como as livrarias. Faz parte dos nossos planos destacar para os turistas o potencial dessa região”, diz Júlio Pires, presidente da Belotur.
Marcos Campos Lima: desde menino na Savassi
Marcos Campos Lima: desde menino na Savassi

“Comecei a trabalhar no bairro em 1987, onde também tenho momento de lazer. Há uma energia diferente. Essa região tem alma, sem falar no público, que é muito bonito”

Marcos Campos Lima

Região da Savassi: charme e vanguarda
Região da Savassi: charme e vanguarda
Marina Melillo e Bruno Magalhães: café da manhã aos domingos na agência Status
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Modesto Araujo: “O progresso não pode sepultar origens”
Modesto Araujo: “O progresso não pode sepultar origens”
Marcelo Haddad: “A Savassi tem seu jeito próprio”
Marcelo Haddad: “A Savassi tem seu jeito próprio”

Mesmo com a especulação imobiliária, a Savassi manteve seu charme que atrai o público até hoje. Para Modesto Araujo, presidente da Drogaria Araujo, não se pode modernizar sem perder o elo com a história. “O progresso não pode sepultar origens. Quando inauguramos, em 1983, a filial Savassi, restauramos o casarão da rua Lavras. E com a Filial Centenário, uma loja-conceito, quisemos destacar a importância da Savassi na história da cidade.” Nesse mesmo endereço da Getúlio Vargas, Marcelo Haddad, 80, dono da Tapeçaria Marcelo, manteve muitos anos uma loja, depois ocupada pela Varig. Desde 1968, a tapeçaria está no bairro, alcançando a terceira geração de clientes das famílias Roscoe, Kubitschek, Neves, Ballesteros, Cardoso, Chaves, entre outras. Seu Marcelo se lembra do apogeu do comércio de luxo, das grifes sofisticadas como Cibelle, Nicholas e Dora Modas. “A Savassi tem seu jeito próprio, inconfundível. Guardo boas lembranças daqui.” Ele anuncia que este é o último ano da Marcelo. “Até dezembro, a loja será definitivamente fechada. Já cumpri meu papel, não é?”, alega o empresário, que fundou sua primeira loja, na época, só de roupas, há 55 anos.

Júlio Pires, presidente da Belotur: circuito cultural
Júlio Pires, presidente da Belotur: circuito cultural
José Soares: fecha as portas das lojas há 35 anos
José Soares: fecha as portas das lojas há 35 anos

O senhor das portas

Embora o comércio feche às 19h, as vitrines da Savassi ficam iluminadas até que o seu Zé das Portas, como ficou conhecido José Soares de Almeida, 68, cumpra o ritual de fechá-las, a partir das 22h. Com exceção dos domingos, às 5h, ele reabre tudo. Trabalho que faz há 35 anos. São duas horas para abri-las e três para fechar. Gentil, Seu Zé não fecha a vitrine se houver observadores. “Não seria educado. Tem que respeitar o público.” Dos mais de 80 clientes do passado, hoje ele atende 45, e guarda de memória o histórico de cada empreendimento. É testemunha ocular das mudanças da região. “As meninas da Perfumaria Lourdes pareciam pinturas vivas de Picasso, de tão lindas. Turmas de jovens faziam pegas de carros, dirigindo Dodge e Galaxie. Grupos de motoqueiros de enduro e de Harley-Davidson se encontravam aqui.” Para Seu Zé, a Savassi ainda passa por modificações, mas não perde o vigor. “O primeiro hotel, o Évora, foi um marco. Depois vieram o Boulevard, o Savassi, o Max Hotel, o Liberty, e o Ibis, que está em construção. Esses hotéis mudaram a região para melhor. O fechamento dos quarteirões da praça também ajudou muito. Aqui é um pedaço do céu,” diz o Anjo da Savassi, cujo maior sonho é conhecer o mar. “Ainda pretendo ficar uma temporada aqui,” confessa.

 
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