Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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História

Ao Vosso Reino

Igreja São José, localizada no coração da capital mineira, completa 100 anos em 2010, e o presente aguardado é a restauração dos belos e históricos elementos artísticos

Texto: Ana Arsênio | Fotos: Edson Michalick


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Igreja São José: local completa 100 anos

Palco de manifestações pela democracia, luta pela terra e direitos humanos, a igreja São José, bem no coração de Belo Horizonte, inaugurada em 1910, busca manter nesses cem anos de vida – quase a idade da capital (BH tem 112 anos) – a harmonia entre os seus dois principais pilares: o social e o sacro. Braço da congregação holandesa dos missionários redentoristas, a igreja, com o auxílio da iniciativa privada, realiza amplo trabalho social, principalmente com idosos e comunidades carentes, e é esta mesma parceria que busca para conseguir manter intacta a sua decoração interior.

Padre Sérgio Luiz e Silva, um dos responsáveis pela paróquia, conta que foi elaborado projeto, com apoio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) para a restauração dos elementos artísticos da igreja. Orçada em 1 milhão de reais, a proposta aguarda  agora a adesão da iniciativa privada, por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. “Esperamos conseguir captar os recursos necessários neste ano de 2010 para que a igreja entre o seu centenário de cara nova”, diz o padre.


Altar que retrata a Santíssima Trindade é datado do final de 1912
Altar que retrata a Santíssima Trindade é datado do final de 1912

  

A igreja, construída em estilo manuelino: influência holandesa
A igreja, construída em estilo manuelino: influência holandesa

    

Estrelas nas naves representam as constelações do Universo
Estrelas nas naves representam as constelações do Universo

Construída em estilo manuelino, com fortes influências holandesas, a igreja São José tem a forma de uma perfeita cruz latina. Ela ocupa o centro do quarteirão, em alameda que engloba as ruas Tupis com Espírito Santo e Tamoios com Rio de Janeiro, com frente para a avenida Afonso Pena. Por sua posição estratégica, muitas vezes a igreja é usada como corredor pelos milhares de cidadãos que circulam diariamente no centro da cidade. No entanto, são essas mesmas pessoas que buscam no templo paz e espiritualidade. “Dom Se­rafim Fernandes, quando arcebispo de Belo Horizonte, costumava chamar a São José de A catedral do povo de Deus. Isto porque ela  acolhe gente de toda a cidade. A igreja tem a cara de Belo Horizonte”, diz padre Sérgio.

Segundo ele, pelo templo passam, diariamente, cerca de 2 mil pessoas. Número que se concentra, principalmente às quintas-feiras. É neste dia, na hora do almoço, por volta de 12 horas, que acontece um momento de oração. “As pessoas que trabalham no centro da cidade já estão acostumadas a dedicar este tempo à reflexão”, afirma o padre. Momento intercalado pela admiração do belíssimo acervo artístico da São José. Tombada pelo patrimônio histórico estadual, ela é toda trabalhada em seu interior.

Padre Sérgio lembra que a decoração da igreja foi iniciada em agosto de 1910, logo após a conclusão da obra. A pintura interna, que se destaca pela variedade de cores, é obra do artista alemão Guilherme Schumacher. Ele entregou a obra no final de 1912. No altar-mor, painel retrata a Santíssima Trin­da­de, entre anjos e santos. A imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus e 40 medalhões, além dos antepassados de Jesus, desde Abraão até são José,  estão no teto do presbitério, cujas paredes mostram os quatro evangelistas e, ao lado das janelas inferiores, os 12 apóstolos. Já são José, padroeiro da igreja, é retratado no alto dos arcos.

Foto: Daniel de Cerqueira
Foto: Daniel de Cerqueira

Memórias de São José

“Eu a tenho no coração, foi lá que me casei. Até me veio à lembrança a imagem de minha mãe ajoelhada, rezando nos altares laterais da igreja. O posicionamento dela ali, no centro da cidade, é tão importante, as memórias de minha infância se misturam com as da igreja. Ela é muito significativa para a cidade, com sua arquitetura imponente. Lembro-me de subir as escadarias dela para assistir à parada do 7 de Setembro. Para a minha geração ela foi ponto de encontro. Era lá que eu encontrava com o meu esposo, foi lá que eu me casei.”

Célia Souto Mayor, empresária

Foto: divulgação
Foto: divulgação

“Num dia de semana à tarde pegue um táxi e diga ao motorista: Igreja São José, no centro. Entre pela porta principal, sente-se no último banco; gradativamente vá passando para os bancos da frente, admirando as pinturas, as colunas, o teto, o piso de mármore; sinta o espaço, a luz, o cheiro; ouça o silêncio; curta os mistérios; desvende a história. Se tiver vontade, reze um pouco.”

Eduardo Carlos Guerra, arquiteto

Foto: Daniel de Cerqueira
Foto: Daniel de Cerqueira

“Há 85 anos a igreja São José faz parte da história da minha família. Minha avó, seus filhos e netos tornaram-se frequentadores assíduos das missas de domingo. Herdei de minha mãe esse hábito e carinho pela igreja, onde até hoje frequento em companhia da minha filha.”

Beatriz Machado, empresária

Detalhe do acervo da São José: obras desgatadas pelo tempo
Detalhe do acervo da São José: obras desgatadas pelo tempo

“Nas naves laterais, em azul celeste, as estrelas representam as 8
constelações. Algumas pessoas costumam confundir com os signos do zodíaco, no entanto, o artista buscou retratar as constelações do Universo”, explica o padre. Ele diz também que, no corpo da igreja, no alto, estão, de um lado, 14 santos e, de outro, 14 santas. “A separação reflete o costume da época de homens ficarem de um lado e mulheres do outro dentro da igreja”, conta. “Todo este acervo, porém, está desgastado pelo tempo, necessitando de reforma para que possa continuar contando a história da Bíblia e refletindo toda a sua beleza”, acrescenta, lembrando que os elementos artísticos da igreja passaram por rápida restauração no final dos anos 90.

A São José é a segunda paróquia criada na capital. As obras foram iniciadas quando os serviços religiosos eram prestados por aqui somente pela capela de Santo Antônio, que ainda está instalada na confluência das ruas Tamoios e São Paulo. A pedra fundamental foi lançada em abril de 1902. O projeto arquitetônico é do engenheiro Edgard Nascente Coelho e o construtor foi o irmão leigo redentorista holandês Gregório Mulders. As escadarias foram projetadas e executadas por outro irmão leigo redentorista holandês, Verenfrido Vogels.

E são essas monumentais escadarias que costumam servir de palco para manifestações sociais. Padre Sérgio lembra, por exemplo, que elas já registraram atos pela democracia e serviram de abrigo para os sem-terra, no final da década de 80. Na ocasião, eles acamparam por vários dias no pátio da igreja.“Somos a casa de Deus e estamos abertos ao seu rebanho”, diz. E é esta mesma casa que promove cursos de artesanato, oferece bolsas de estudos para as pessoas carentes, além de extensa programação, anualmente, voltada para os idosos, onde eles recebem cuidados com a saúde e orientações sobre seus direitos. “Não temos programação especial para os cem anos que marcam o final da construção da igreja. Queremos continuar com nosso trabalho social e conseguir o apoio para a restauração das pinturas do templo, fontes de inspiração e alimento para o espírito.”


 
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