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FocoDesejo de vingançaSentimento, presente nas entranhas de todos os seres humanos, está estreitamente ligado à violência. Como controlá-lo?
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira/ sxc/ fotomontagem: Paulo Werner
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Diante de definições tão duras, confessar um ato do tipo gera constrangimento, mas há quem fale abertamente sobre o assunto. A turismóloga Nathália Matos, 25, faz parte desse time. Ela conta que tinha três meses de relacionamento quando descobriu que, na verdade, seu namorado era casado e tinha acabado de se tornar pai. “Depois de uma festa na minha casa, uma amiga que o conhecia me contou tudo. Apesar da raiva, fiz de conta que estava tudo bem e o convidei para um jantar especial”, lembra. Enquanto ele se deliciava com as iguarias preparadas por Nathália, ela colocou remédio para dormir na bebida do namorado e, quando ele pegou no sono, fez algumas marcas com a boca nas costas do rapaz. Depois da lição, ele nunca mais ligou. “Se não foi ele que viu, foi ela. Ele achou que poderia enganar as duas, mas o enganado foi ele”, vibra. |
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Em geral, essas são histórias guardadas a sete chaves e cujos protagonistas preferem não revelar suas identidades. É o caso do designer gráfico Adriano (nome fictício). Ele relata que, há cerca de dois anos, foi vítima de trotes telefônicos. “Ligavam a cobrar de oito números diferentes. Eu atendia porque aquele era meu telefone comercial”, fala. Cansado das ligações inconvenientes, Adriano resolveu dar uma lição no autor da brincadeira de mau gosto. “Entrei em sites de bate-papo, inclusive de sexo, dizendo que eu queria namorar e divulguei todos os telefones da pessoa que me passava trote. Nunca mais me ligaram”, comemora.
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“Causar um dano coloca você abaixo do inimigo, vingar-se faz com que você se iguale a ele, perdoá-lo coloca você acima dele." (Benjamin Franklin) |
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A vingança, contudo, pode se tornar inútil quando os atos nunca são suficientes para recompor o estrago causado, argumenta Ana Cecília Carvalho. Outro exemplo é quando o desejo de justiça fica submetido à lógica de um círculo vicioso do tipo olho por olho, dente por dente, assevera a pesquisadora. Isso ajuda a explicar por que há momentos em que vingança e violência se entrelaçam de tal maneira que formam uma teia complexa e difícil de ser desfeita. De acordo com o sociólogo Juracy Amaral, professor da PUC Minas, o comportamento de conteúdo vingativo pode desencadear sentimentos coletivos nefastos e de alta periculosidade para a vida social, principalmente quando difunde ódio entre as pessoas. “Nem sempre a vingança é um ato violento, entretanto, é facilitador das práticas violentas.”
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"Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem." |
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De acordo com a psicanalista Ana Cecília Carvalho, em uma sociedade na qual o Judiciário mostra-se inoperante e deixa de garantir que as penas sejam cumpridas, mantendo em liberdade réus confessos, por exemplo, é possível imaginar inúmeras consequências desastrosas. “Descrentes em relação à Justiça, os cidadãos não hesitarão antes de cometer atos vingativos que beiram a barbárie”, diz. A cidade de São Paulo é um retrato de como a vingança pode ajudar a desenhar o mapa da violência. Levantamento feito em 2008 pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), vinculado à Polícia Civil, constatou que a maior parte dos homicídios dolosos (com intenção de matar) na capital paulista acontece por vingança. Baseados em 327 inquéritos de assassinatos apurados entre 2006 e 2007, o DHPP desenvolveu o “perfil do crime". A vingança motivou 21,4% dos casos apurados. Ainda conforme o sociólogo, ao buscar proteção na sociedade, as pessoas praticam a vingança como estratégia de se defender e de se preservar coletivamente. Ele sustenta que, de acordo com estudiosos do comportamento social, a vingança como comportamento é uma estratégia desenvolvida pelos povos antigos em sequência à sociedade contemporânea para forçar o outro a não ultrapassar os limites estabelecidos pelas suas práticas sociais, mantendo-se, dessa forma, a honra dos indivíduos. |
"Com a vingança, o homem iguala-se ao inimigo. Sem ela, supera-o." |
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Ao contrário do que possa parecer, a linha que separa vingança e justiça não é tênue, diz Guilherme Massara. Segundo ele, a justiça funciona, em tese, como um modo de abolir a vingança. A exceção seriam os casos em que as leis também são bárbaras, semelhante ao que acontece em alguns países em que a legislação prevê sanções como a tortura para determinadas ações consideradas delituosas. A função da Justiça, afirma Massara, é punir, o que é diferente de vingar-se. “Uma punição justa e severa pode fazer os atores em ação sentirem-se vingados, mas não é exatamente de vingança que se trata. Mas de justiça”, opina. O sociólogo Juracy Amaral tem visão diferente sobre a questão. Para ele, os estabelecimentos prisionais evidenciam que justiça e vingança se recobrem. “É ingenuidade acreditar que penitenciar alguém tem outro sentido que não seja o de vingar-se.” Quando o assunto é vingança, uma pergunta sempre suscita discussões calorosas. Afinal, quem é mais vingativo: o homem ou a mulher? Na opinião do sociólogo Juracy Amaral, quando a causa se associa às volúpias do espírito, ambos os sexos ficam suscetíveis aos desejos de vingança, pois estão dominados pelos instintos e, portanto, desprovidos de razão. O professor Guilherme Massara reforça o coro. “A vingança não é um predicado sexuado. É um predicado humano.” Na contramão da vingança está o perdão. Todo ato humano é irreversível, diz o psicanalista Eduardo Gontijo. “Mas se nossas atitudes fossem tratadas como irreversíveis, estaríamos num estado de vigilância e culpabilidade sem fim”, esclarece. Para combater essa ideia, surge o perdão. “Ele é um elemento fundamental na nossa vida para sanar as dores do ressentimento.” Por outro lado, há quem questione a genuinidade do ato de perdoar, como o sociólogo Juracy Amaral. “O perdão, assim como ser solidário, constitui-se uma elevação da consciência social de seus praticantes. Numa sociedade onde predomina a produção de mercadorias, cujos valores do ter sobrepõem aos valores do ser, o perdão é uma prática escassa. Pode ser que exista, mas tenho dúvidas sobre sua autenticidade”, sentencia. Vilões ou mocinhos, o fato é que todos temos histórias sobre vingança para contar. Mas fica uma reflexão: vale a pena? |