Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Comportamento

Ar, doce ar

Vida moderna, estresse, notícias de tragédias e pessoas soterradas fazem aumentar casos de claustrofobia, um medo excessivo de sufocar

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Arte: Paulo Werner/ Laurent Roc - AFP/ Pedro Vilela/ Daniel de Cerqueira/ Edson Ruiz


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As imagens se sobrepõem neste início de ano nos soterramentos em Angra dos Reis, na capital paulista, no terremoto no Haiti. Aqui menos que lá. A adolescente Darlene Etienne ficou 16 dias, Guerlane Guay, 13, o jovem Exantus Wismond 11, o garoto Kiki Joachin 9, Jeanette 6 dias, a enfermeira Jean Baptiste, grávida de um mês, três sob os escombros da quase reduzida a pó Porto Príncipe. Saíram vivos na superfície de tantos mortos. As histórias puxam para si o cobertor da atenção pública e expõem à mente fértil o que é passar infinitas horas em locais fechados, que dão arrepio na alma, falta de ar, suor em quem nem pode pensar em estar nesta situação. “Não assistia ao noticiário”, diz a assistente administrativa Miriam Mascarenhas, claustrofóbica assumida. Deligava a televisão, esquivava-se ao ar livre de ver o que seu imaginário traduz real e desencadeia sofrimento deste transtorno de ansiedade. Se estivesse lá, tem a certeza de que o medo afunilaria ainda mais a saída.


Miriam Mascarenhas: só pensava na falta de ar dos haitianos
Miriam Mascarenhas: só pensava na falta de ar dos haitianos

Quem se elevou dos escombros também pode vir a desenvolver fobia a locais fechados. Qualquer situação parecida vai puxar involuntariamente de suas entranhas aquela vivência de risco de morte. “A pessoa passa a agir ou sentir como se o perigo estivesse ocorrendo novamente”, explica a psicoterapeuta Luiza Winandy. Reproduz, eleva-se neste século de tsunamis, terremotos, desabamentos, estresse, violência, que exacerbam a ansiedade, a propulsora do medo excessivo. “É bem possível que os transtornos fóbicos predominem na atualidade, levando as pessoas à maior vulnerabilidade, desconfiando de tudo e de todos.”

É lá, aqui nos desabamentos, com a possibilidade de a claustrofobia aparecer mais para frente dependendo de como a pessoa absorve o trauma. No mundo todo em atos corriqueiros, a aventar a possibilidade de falta de ar em lugares fechados. “A informação sobre fobia diminui o preconceito e as pessoas se expõem mais”, afirma o psicanalista Antonio Egidio Nardi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de livros sobre transtornos de pânico, ansiedade social e mau humor. Assumem que têm esse medo antecipatório. Miriam, a que não quis saber do terremoto, só pensava na falta de ar dos haitianos, não na tragédia, na miséria exposta. Não vai a circo, com medo de a lona cair; nada, mas jamais mergulha. “Quando tenho insônia e penso que poderia ser sequestrada e colocada num porta-malas, começo a passar mal.” Não sabe, não se conscientizou de onde veio esse medo exacerbado, tem e convive com ele: apareceu, muda a sua vida e de tantos outros.

Darlene Etienne é retirada dos escombros após 16 dias
Darlene Etienne é retirada dos escombros após 16 dias

“O medo, em si, é uma reação natural diante do perigo e que dele nos protege. Torna-se patológico quando a pessoa desenvolve estratégias para evitar a qualquer custo este enfrentamento”, diz a psicóloga Vânia de Morais. São hipervigilantes, não entram em locais que remetem a qualquer possibilidade de escassez de oxigênio. A nutricionista baiana Daniela Avelino Pinto viaja de avião atrás para não ver a porta ser fechada. Em carro de duas portas, só anda se for na frente para sair quan­do bem entender. “Qualquer sensação de falta de ar, eu caio no choro, de soluçar”, diz a nutricionis­ta.

Passou mal em ônibus, no me­trô. Entra em elevador se tiver com outra pessoa e desce se encher. Vai a velório, mas esquiva-se de ver o caixão ser fechado ou baixar na sepultura. Não pode nem pensar em estar no quarto com a porta trancada. “Parece que piorou nos últimos tempos”, diz Daniela. Ainda não procurou ajuda médica, psicológica, convive com esse medo. “Se for mui­to intenso e amplo, pode ser difícil. Caso seja localizado, como elevador, shopping, avião, as pessoas encontram formas de levar a vida”, lembra a psicóloga Leila Cury Tar­divo, professora da Universidade de São Paulo (USP).

Jennifer Emmles: “Suo frio com a possibilidade de ficar presa”
Jennifer Emmles: “Suo frio com a possibilidade de ficar presa”

É tolerada quando não traz prejuízos pessoais, profissionais, sociais. A produtora de TV Jenifer Emmels, depois de anos com essa parceira incômoda que afeta coisas simples da vida, planeja procurar tratamento. Só anda de elevador no prédio onde mora, não gosta que as pessoas conversem quando estão dentro dele; a roupa de cama não pode ficar ajustada. “Suo frio com a possibilidade de ficar presa. Hoje isto atrapalha meu trabalho”, afirma. Acha que chegou ao limite da convivência pacífica com a claustrofobia. Tem pesadelos. É, ele é um dos sintomas em que os especialistas veem como agravamento do quadro e a hora de procurar ajuda. “O tratamento ideal é o uso de medicamentos e psicoterapia, que vai ajudar a enfrentar gradativamente a situação temida”, esclarece Antonio Egidio Nardi.

São levados a ver o mundo novamente como seguro, previsível, sem perigo iminente. “Trabalhamos com técnicas de interrupção de pensamentos negativistas”, diz a psicoterapeuta Luzia Winandy. O ar está aí, não falta assim com tanta facilidade e se ocorrer situação difícil há saída: os sobreviventes do terremoto do Haiti mostram isto. A tarefa é convencer os claustrofóbicos que aumentam a cada dia neste mundo aquecido.  “Não sinto medo, mas falta de ar”, afirma a universitária Nayana Rocha.
Daniela Pinto: “Qualquer sensação de falta de ar, eu caio no choro”
Daniela Pinto: “Qualquer sensação de falta de ar, eu caio no choro”

São levados a ver o mundo novamente como seguro, previsível, sem perigo iminente. “Trabalhamos com técnicas de interrupção de pensamentos negativistas”, diz a psicoterapeuta Luzia Winandy. O ar está aí, não falta assim com tanta facilidade e se ocorrer situação difícil há saída: os sobreviventes do terremoto do Haiti mostram isto. A tarefa é convencer os claustrofóbicos que aumentam a cada dia neste mundo aquecido.  “Não sinto medo, mas falta de ar”, afirma a universitária Nayana Rocha.


 
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