Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Crônica

Por um 2010 feliz

Texto: Bruno Fernandes, Jornalista | Fotos: Arte: Paulo Werner


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As pessoas não sabem ser felizes, mas fingem bem. A frase não é minha, mas gostaria que fosse. Faz todo sentido.


Acredito que felicidade seja a capacidade de sentir uma profunda, sincera e diária gratidão por aquilo que possuímos e que nos traga, além de paz de espírito, motivação para buscar o que não temos. Acordar com alegria e disposição todos os dias, ou a grande maioria deles.


Algumas pessoas não são felizes porque fazem justamente o inverso. Em vez de dormirem verdadeiramente gratas pelo que têm, deitam e acordam (às vezes nem dormem) canalizando todas as energias e pensamentos em função daquilo que falta: o carro bacana, a casa na praia, o lifestyle do amigo, o corpo da vizinha, a mulher do vizinho.


São infelizes porque abdicam da própria intuição ou vocação para encaixarem-se em modelos de realização socialmente aceitos, desenhados a partir da tríade sagrada urbana: dinheiro, estética e reconhecimento. O tal do sucesso. Se possível, em excesso. Muita farra, muita beleza, muitas posses. A moderação e o equilíbrio estão fora de moda, tornaram-se sinônimos de chatice e mediocridade. Todavia, a saga cotidiana pelo muito (uma pegadinha sem fim, pois alguém sempre tem mais) faz crescer o vazio interior, aquela angustiante sensação de que algo está errado, está faltando alguma coisa mas eu não sei bem o que é. Nada mais óbvio: quem foca no externo deixa de alimentar a alma. E quando este doloroso vácuo é percebido, lança-se mão da receita mais prática: fingir felicidade vivendo a euforia. E euforia não resolve, só disfarça.


Viver na balada não cura a tristeza pelo fim do relacionamento. O sexo selvagem com a estranha gostosa não supre a carência afetiva, o sapato caro não sara a dor de cotovelo, o carro novo não compensa a falta de tempo para os filhos (pelo menos na opinião deles) e a lipoaspiração só engana a autoestima por um curto período. Logo depois já dá vontade de fazer outra.

A euforia não preenche ninguém. É apenas complemento, um brinde à felicidade e deve ser consequência de decisões seguras, ponderadas e não inventada para tapar buracos emocionais. Ela é saudável quando é dispensável. Caso contrário, funciona como uma droga, que distorce a realidade por breves momentos, perde o efeito e nos obriga a tomar mais doses, causando dependência. O êxtase dos prazeres superficiais como válvula de escape é um vício que, como todos os outros, um dia cobra seu preço, em forma de solidão, falência ou depressão.

O Ano ­Novo está aí. Entre promessas, resoluções (que muitas vezes duram até o Carnaval) e pedidos, o principal objetivo é a felicidade. Alguns alcançarão a meta e, não importa quantos desafios ou perdas no caminho, terminarão o ano exatamente como começaram: gratos e satisfeitos. Outros terão novamente a oportunidade de retomar a luta por sonhos já abandonados, de repensar a postura ante as exageradas cobranças de realização social e dispensar a superficialidade da euforia como fuga das dúvidas e angústias mal resolvidas. 2010 é mais uma chance para aprender a ser feliz de verdade.


 
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