|
ComportamentoEu traio, tu trais, ela trai...Motivos da infidelidade feminina? Invariavelmente, a culpa é transferida para o comportamento do próprio marido
Texto: Fernando Torres | Fotos: Ilustração: Paulo Werner / SXC
|
A antropóloga Mirian Goldenberg, autora dos livros Infiel e A Outra, fez estudo com 1.279 pessoas (444 homens e 835 mulheres), com a pergunta: “Você já foi infiel?” Os dados: 47% das mulheres e 60% dos homens responderam afirmativamente. Não pense, porém, que isso é sinônimo de equidade. Há muitas diferenças sociais e culturais, principalmente no que diz respeito a justificativas. “O homem usa como desculpa para a traição a natureza masculina, enquanto a mulher culpa o marido de falta de afeto, sentimento que ela precisa preencher com outra relação”, contrapõe a antropóloga. Portanto, nenhum dos gêneros assume a própria responsabilidade em uma questão que, afinal de contas, passa pela ética e códigos morais. Nessa lógica, contudo, o culpado é sempre o homem, já que a mulher se coloca como vítima da situação.
Desculpas ou realidade? O fato é que a terapeuta sexual Walkíria Fernandes ouve diariamente essas reclamações femininas em seu consultório. “Falta cumplicidade, carinho, intimidade sexual, atenção, parceria, investimento na relação. Mas acredito que o principal estímulo para a infidelidade feminina seja a falta de comunicação”, aponta. Está aberta a brecha. “Crente de que o problema está com o parceiro, a mulher parte para experimentar o novo, idealizando no amante um homem companheiro, que a escute e a compreenda, alguém com quem ela possa contar”, diz a psicóloga e terapeuta sexual Claudia Marques. É como se, metaforicamente, elas buscassem no amante a cena idealizada do casal apaixonado de mãos dadas, ausente dentro do próprio casamento. |
Motivos da infidelidadeO que elas reclamam...
Consultoria: Terapeutas sexuais Walkíria Fernandes e Claudia Marques |
Vide o caso da jornalista fluminense Camila*, 30 anos, loira, olhos cor de mel, 1,70 m, 65 kg. Aos três anos de um casamento estável, ela e o marido se mudaram do Rio de Janeiro para São Paulo por conta do emprego dele. “Desde então, meu marido se transformou. Foi ficando frio, distante, apático, e começamos a brigar por bobagens”, conta. Para piorar, Camila deixou seu trabalho por conta da transferência de cidade, o que desencadeou em cobranças. Um ano depois, ela conheceu Gustavo, também casado e pai de uma menina. “Apaixonei-me rapidamente. Comecei a planejar uma vida com ele e até abri conta bancária pensando em nós. O sexo era perfeito. Entreguei-me a ele de uma maneira que nunca tinha feito com meu marido”, relembra, emocionada. A publicitária mineira Paula*, 33 anos, ruiva, cabelos curtos, olhos castanhos, 1,76 m e 69 kg, também justifica a infidelidade pela carência afetiva. Casada havia três anos, ela conta que seu casamento era ruim de um modo geral. “O sexo, na média de uma vez por mês, era um pesadelo. Além disso, ele fazia eu me sentir mal, feia, com a autoestima no pé.” Romântica e idealista confessa, Paula diz que nunca planejou a traição e, inclusive, acha que é um ato incorreto, mas, em viagem a trabalho, conheceu alguém que lhe deu atenção. “Foi um caso curto, nos encontramos apenas três vezes. Mas foi o estímulo para, três meses depois, acabar com aquele casamento que fazia com que eu me sentisse em uma prisão.” |
Segundo Walkíria, o perfil de Camila e Paula corresponde à grande maioria das mulheres que traem. Mas, a coisa não para por aí. Apesar de os homens continuarem no posto de detentores da libido incontrolável, algumas mulheres traem, sim, apenas pelo prazer sexual. Afinal, a revolução feminina dos anos 60 abriu a brecha para o sexo pelo sexo. A advogada paulista Isadora*, 38, 1,65 m, 53 quilos, morena, olhos e cabelos castanhos é casada há 20 anos com um analista de sistemas de 44. Mas tem caso fixo há sete anos com um professor de educação física de 48, segundo ela, sem grandes envolvimentos emocionais, simplesmente pelo prazer. O marido, coitado, nem desconfia: “Ele é ótimo, apenas um pouco tranquilo na cama.” Já o outro... “É um cachorro, do tipo galinha. Mas me enlouquece”, entrega. Conforme a terapeuta Walkíria, dois fatores contribuem para casos como o de Isadora, “a curiosidade da busca pelo novo e a necessidade de provar que ainda consegue atrair outro parceiro”. Além disso, trair, hoje em dia, é muito mais fácil, já que o universo feminino excedeu os limites de dona de casa. A internet, aliás, é a fonte moderna de infidelidade. Mesmo assim, elas acham que teclar não é traição. De fato, não é. Reconheça-se, porém, que uma mulher casada em um chat de sexo não está querendo trocar dicas de beleza. |
No artigo Infidelidade Virtual, a antropóloga Mirian Goldenberg cita o caso de uma mulher carioca que se relaciona virtualmente há quase um ano. “Ele tem 43 anos; ela, 47. Falam-se todos os dias, algumas vezes chegam a conversar mais de seis horas durante a madrugada. Ela me disse que tem muito mais intimidade com ele do que com o marido”, relata. Apesar do romantismo da relação, curiosamente, a internauta não quer conhecer o amante. “Prefiro a intimidade do mundo virtual à intimidade que jamais tive no mundo real, mesmo que seja apenas ilusão”, diz no depoimento dado à antropóloga. Nem sempre é o que acontece. Na maioria das vezes, o caso ultrapassa a tela do computador. Que o diga a designer paulista Bárbara*, 30, uma loira de olhos castanhos, 1,69 m e 69 kg. Casada há 10 anos com um advogado de 35, há um ano ela conheceu um homem de 39 em um chat. O casamento andava meio morno devido à rotina, aos ciúmes e à superdependência que ele depositava nela. O sexo, por sua vez, cada vez mais raro – duas vezes por mês, em média. Sendo assim, não foi difícil cair em tentação. E que tentação! “Nós nos gostávamos muito. Quando nos juntávamos, pegávamos fogo”, confidencia. Ah, as volúpias da vida moderna... Com a ascensão da mulher no mundo profissional, o perigo também pode estar na mesa ao lado: o colega de trabalho. Com a jornalista mineira Rosana*, 38, foi assim. Após cinco anos de casamento, dois filhos e vida sexual rotineira, seus olhos fisgaram um amigo da empresa. Em viagem de trabalho, o clima rolou, 8 |
A essa altura do campeonato, o leitor deve querer saber como as mulheres infiéis lidam com a culpa. Algumas das entrevistadas garantem não sentir remorso ao serem infiéis. Melhor dizendo: sentem em um primeiro momento, mas, ah, depois, passa... A terapeuta Claudia Marques discorda: “Acredito que a culpa seja inevitável. Elas conseguem levar o caso até que esta sensação se torne muito pesada”, opina a psicóloga. A jornalista Rosana é da mesma opinião. “A culpa é uma coisa que as mulheres, pelo menos as que eu conheço, carregam pelo resto da vida.” Em contrapartida, muitas transferem as expectativas do marido para o amante e até mesmo, em um paradoxo extremado, juram fidelidade eterna ao novo homem (!). Porém, a maior parte das relações extraconjugais tende a não se estender por muito tempo. O caso da designer Bárbara, por exemplo, durou cerca de um ano. Para variar, o cara era muito galinha e saía com várias mulheres ao mesmo tempo. O fim da história da jornalista Camila também é parecido. “Nossa relação começou a se tornar muito possessiva e inviável por causa da família dele. Dois anos depois, achei melhor nos separarmos”, lamenta. Fim de caso, marido traído e sem conhecimento de causa, família, filhos... * (Situações e descrições reais com nomes fictícios)
Bastidores desta matéria no blog da redação. |