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Reportagem
ANGÚSTIAS NOSSAS DE CADA DÉCADA
Desde que nascemos este sentimento insiste em nos perseguir e se refaz a cada fase de nossas vidas
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Carlos Mendonça, Pedro Vilela / Arte: Paulo Werner
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O peito aperta, quase dói. Parece que o ar falta, a respiração pesa. Instala-se um mal-estar inexplicável... mas qual a causa mesmo? Esta sensação lhe é familiar? Certamente, sim. E mais do que isto: vez ou outra, ao longo da vida, volta, como a cutucar. Trata-se da inevitável angústia, definida por Jacques Lacan como “único afeto que não engana.”
Não mesmo. Pois já ao sair do útero materno configura-se a primeira situação crucial do ser humano: a sensação de desamparo. Daí pra frente, muitos e muitos momentos de angústia se sucederão. A criança que por volta dos oito meses percebe a mãe como um outro e sofre com sua ausência, o adolescente cujo corpo está biologicamente preparado para o sexo mas não ainda à altura para relacionamentos afetivos. A confrontação com a responsabilidade pelos próprios desejos junto ao receio de responder pelo futuro, a chegada da maturidade – chamada pelo filósofo existencialista Jean Paul Sartre de idade da razão – e a entrada na velhice. “Neste momento nos deparamos com nossa finitude, num balanço do que fizemos de nossa vida. Nova angústia!”, avalia a professora da residência de psiquiatria do Ipsemg Gilda Paoliello.
Constitutiva e característica do ser humano – incompleto por natureza – a angústia tem a função de mobilizar e é algo que nos questiona. “É um sentimento que faz parte da vida, embora não manifesto o tempo todo, e sim em ocasiões de dúvida, em que nos encontramos mais divididos que habitualmente”, ressalta Gilda.
Então, o que fazer com a formatura batendo à porta? Terminar a faculdade ou fazer o número mínimo de créditos para, assim, estender o estágio? Como enfrentar, sozinho, uma doença na madrugada? Que desamparo, meu Deus! Uma tristeza que não passa nem conversando com amigos. “Não sei se quero isto mesmo. Às vezes posso encontrar algo com que me identifico mais em outro lugar. Difícil dizer o que me faria feliz”, afirma Otávio Augusto de Oliveira, 21 anos e muita angústia prestes a se deparar com o diploma do curso de Comunicação Social. “Estou tenso, com medo. Vou ter que me virar, não vai ter jeito. Pretendo não depender do dinheiro dos meus pais.”
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Otávio Augusto, prestes a receber o diploma: “Vou ter que me virar” |
Existe um hiato, no teatro, entre o apagar das luzes e o momento em que se abrem as cortinas. Um suspense: o que virá? Este é o momento de Oliveira: ele já não está mais onde estava. Não é criança, mas não sabe para onde vai. Suas crenças já não são as de seus pais e vive num mundo em que os ideais caíram. Os objetos estão no lugar dos ideais. Ele está de cara com a imponderável vida profissional. “Não há garantias de que algo dará certo. Mas é essencial que cada um se faça responsável pela própria vida. E a cada momento de forma diferente”, adverte o psicanalista Henri Kaufmanner. “Nesta brecha entre o pronto e a falta fica a insegurança sobre que rumo tomar. Às vezes leva-se anos para perceber o que se quer”, aponta a psiquiatra e psicanalista Vanda Pignataro Pereira.
Esperamos, e apostemos, nos passos do jovem, pois a angústia é, também, seu motor. “Pode ser produtiva se leva as pessoas a se perguntarem o que está acontecendo e a trabalharem em cima disso apostando em seu desejo”, explica Kaufmanner. Mas nunca se falou tanto em fobias, síndromes e até crianças estão sendo diagnosticadas e medicadas como se angústia devesse ser domesticada, curada. “A vida não deixa a gente se acostumar, é sempre uma surpresa. O problema é a pessoa deixar-se imobilizar”, adverte Kaufmanner, para quem a interpretação deste afeto tão difícil unicamente como doença leva à medicação sedativa com função de controle social.
A gerente de T.I. Roselene de Sá Pinto, 42 anos, passou sua década de 30 trabalhando loucamente. Era a época de construir certo patrimônio e conquistar a tão sonhada – e ilusória – estabilidade. Exigente consigo mesma, controladora, não pôde ir ao casamento de irmãos e nem pensar em ter filhos: como, se viajava constantemente? “Deixei minha vida pessoal de lado e sempre estive só.” Ao mesmo tempo em que pensa e se angustia pelo futuro, vive hoje o que os filósofos chamam de falta da falta. “Não tenho objetivos.” Rose está se defrontando não com o que será, mas com o que deixou de ser. Angústia, angústia, angústia.
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Hugo César Tavares: “Não temos segunda chance” |
“Nossa existência é finita e a única certeza é de que somos seres para a morte. Logo, não temos segunda chance”, analisa o doutor em filosofia pela Universidade de Louvain, Hugo César da Silva Tavares. Portanto, quem quer viver deve, por incrível que pareça, aceitar esta parte fundamental que é a morte. “É importante para caminharmos na vida com autenticidade.” Caminhar significa envelhecer. E este não é um processo fácil. Segundo o artigo Um envelhecer peculiar do idoso na perspectiva psicnalítica freudiana da mestranda em Linguística Geralda Maria de Carvalho Zaidan, “raros são os sujeitos que acolhem o tempo com serenidade.” Segundo ela, em longas horas de insônia, próximas de uma lucidez extravagante, alguns idosos fazem e refazem a cada noite um balanço, a aproximação da morte, horas de solidão em que não há nada além da memória, do medo de ficar louco.
Em outra ponta, muitas pessoas da terceira idade gozam de plena saúde física e capacidade produtiva. Se há algumas décadas a angústia do idoso relacionava-se muito à sensação de não existir, uma vez que perdia seu espaço profissional e pessoal, hoje, sua angústia é outra: a cobrança pela manutenção da aparência jovial e a manifestação de alguma doença, vista até mesmo como certo desleixo. “Existe a obrigação de estar eternamente bem. Estamos proibidos culturalmente de manifestar o envelhecimento”, avalia o geriatra e gerontologista Antônio Roberto Casarões.” É o paradoxo da velhice em novos moldes, mas não sem angústias.
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Miriam Mendes: sem angústia pela velhice |
Rugas, declínio de alguma ou muitas funções, o cabelo que vai raleando, modificação da libido, a musculatura definhando... E ainda por cima saber que o fim está mais e mais perto. E perdas. Estas não faltaram na vida da dona de casa Miriam Pimentel Mendes, 72 anos. Em um mesmo ano morreram seu pai, avó e um filho de 22 anos, de modo bastante trágico. “Senti muita angústia. A morte do Júnior foi como se arrancassem um pedação de mim. Mas não sinto nenhuma angústia nem revolta pela velhice. Claro que traz perdas: da juventude, limitações físicas, mas a experiência é um ganho enorme. Vemos uma família constituída.”
Miriam faz pilates e RPG – a coluna não está boa, não – e admite, com bom humor: “o braço fica feio. Mas a gente coloca uma manguinha e deixa pra lá.” Não tem insônia – recorrente em idosos e fonte de angústia pela noite eterna – nem se inquieta com a morte ou os problemas; acha que tudo faz parte da vida. Todas as quartas-feiras visita doentes com câncer. “Não penso que não vou existir. Enquanto estou aqui invisto na minha missão. Sou muito disposta e acho que a vida é sempre isto: ninguém é completo.”
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