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Entrevista
De empreitada
O presidente do Sinduscon-MG e da Mascarenhas Barbosa Roscoe, uma das maiores empresas de construção industrial do país, Luiz Fernando Pires, fala do papel do setor na economia brasileira e das mudanças necessárias para que amarras que travam o crescimento sejam desfeitas
Ele tem hábitos simples, despojados até, o que fica evidente na decoração de seu escritório de presidente da Mascarenhas Barbosa Roscoe Construções, uma das maiores empreiteiras brasileiras. Luiz Fernando Pires é o típico profissional bem-sucedido. Formado em engenharia nos anos de 1970, trabalhou no campo, foi diretor e hoje é o presidente e acionista controlador da construtora que, fundada em 1934 é uma das três mais antigas do país. Recém- empossado como presidente do Sinduscon-MG, ele se mostra dirigente classista moderno, que apoia a participação do empresariado nas soluções dos problemas sociais e na vida política. Defende reformas no país e critica empresário que ajuda político para, mais à frente, ser recompensado com vantagens.
Quem está trabalhando, investindo mais no Brasil hoje? A iniciativa privada ou o governo? A iniciativa privada trabalha mais que o governo. O governo tem algumas obras andando, mas o investimento total da iniciativa privada é maior que o do governo, isto somando todos os segmentos, desde setor industrial ao de construção residencial de baixa e de alta renda.
A sua empresa trabalha mais na área de construção industrial. A crise chegou a atingir este segmento? O segmento industrial, como mineração e siderurgia foram muito impactados. Agora eles começaram a recuperar. A produção está quase voltando aos patamares anteriores e estão retomando os projetos que foram engavetados no último trimestre do ano passado. Não foram muitos os investimentos paralisados por causa da crise. A maioria continuou.
As empresas brasileiras estão capitalizadas e com mão-de-obra qualificada para a retomada do desenvolvimento? Depende do ritmo de crescimento, acima disto começaremos a esbarrar em algumas dificuldades. De uma forma geral as empresas brasileiras estão bem capitalizadas. Já se houver necessidade de expansão de quadros, teremos que preparar mais mão-de-obra. Isto em todos os níveis de pessoal.
Houve um período em que a mão-de-obra no setor da construção era farta. O que aconteceu? Mão-de-obra não se estoca. Ou você usa ou ela se perde. O Brasil ficou muito tempo num reme-reme, crescendo muito pouco. Então o que aconteceu foi que a mão-de-obra não cresceu e foi mobilizada para outras coisas. Formaram-se muito menos engenheiros, técnicos. Hoje temos poucos grandes engenheiros calculistas, mecânicos, jovens. E a formação desta mão-de-obra não se faz de uma hora para outra.
“Mão-de-obra não se estoca. Ou você usa ou ela se perde. Hoje temos poucos grandes engenheiros jovens”
Quem sente mais uma crise, o setor de construção industrial ou de moradias? O setor industrial. Na hora que ele sente a crise, para de investir. Um investimento industrial tem processo de maturação longo. Não dá nem para começar rápido nem parar rápido. O setor de construção residencial é um bom sinalizador. Se a pessoa sente o risco de ficar desempregada, ela não compra, não assume dívida. Então o governo no Brasil agiu bem, manteve o financiamento porque na hora que você corta o crédito, tira o oxigênio.
O Sinduscon tem mais de seis mil construtoras sindicalizadas. Há mercado para todo mundo? Alguns destes sindicalizados são empresas de consultorias. Claro que em menor número, pois elas possuem sindicato próprio, o Sinaenco, mas tem mercado para todos porque há obras de todo porte. Tem empresa que é apenas um profissional trabalhando, sem equipe. Há megaconstrução, mas tem também a construção de uma sala apenas, uma reforma de apartamento. Então o mercado não tem problema de espaço. Tem sim problema de competência. Há empresa pequena que é competente porque está focada num determinado segmento e a pessoa é boa naquilo. Quando alguém resolve mexer em muitas coisas, ele não consegue ser competente.
O senhor já falou que, numa eventual retomada do crescimento em ritmo forte, o país corre o risco de não ter mão-de-obra para atender o setor. Estamos numa camisa de força para crescer? Não, mas a gente precisa ajustar a velocidade e arrumar o veículo. O nosso carro, por enquanto, anda a 80 km bem, mas se começar a andar a 120 km vai sair roda. O adequado do crescimento é você pegar uma curva e ir ajustando, se estruturando, comprando equipamento, preparando pessoal, se arrumando em todos os aspectos. O que não dá é para você mudar sua curva de crescimento instantaneamente porque aí vai dar problema em tudo. Então o Brasil tem uma velocidade de ensino, de formação, e se você acelerar muito vai faltar tudo. Tem que ajustar o ritmo de crescimento e manter a velocidade constante. É bom lembrar que a mulher demora nove meses para gerar um filho. Não adianta juntar nove mulheres que, juntas, elas não vão gerar um filho em um mês.
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E para que nosso carro possa andar em uma maior velocidade o que é preciso fazer? Resolver as falhas na infraestrutura física e de gestão. Problemas de transportes, portos, saneamento, energia. Ao mesmo tempo é preciso trabalhar na gestão, reformando leis, códigos, promover a reforma política enfim, uma série de coisas. Mas em final de governo ninguém vai fazer isto.
O setor com o qual o senhor trabalha gera problemas na área ambiental. As leis ambientais são realmente um gargalo no país? É, mas é muito mais um gargalo de adequação de gestão. Hoje todos nós, empresários, crianças, estamos conscientes da necessidade de preservação do meio ambiente. Quando você fala em preservação, fala em tomar as medidas adequadas. O gargalo nosso é aplicar a legislação com velocidade. O que falta é clareza na aplicação, nas decisões. Por exemplo, esta mina, dá para ser explorada aqui? Dá ou não dá. Você tem que tomar esta ou aquela providência. Mas o problema é que demora três anos para licenciar a mesma mina. É preciso melhorar o processo de gestão. Isto deveria ser colocado na internet para que se saiba por que o processo está parado, qual fiscal está analisando, o que é preciso fazer para uma decisão mais rápida. Nada contra as pessoas, mas é preciso que a gente tenha mais objetividade. O empresário não tem nada contra as questões ambientais. O que não pode é ficar parado, esperando decisões. Hoje há soluções de engenharia ótimas, que não impactam o ambiente. Nós temos que ser mais inteligentes na gestão. O que não é possível é ficar com dinheiro disponível para aplicação, às vezes por três anos, esperando licença.
O Brasil foi novamente sacudido por escândalos de corrupção. Vem aí um novo período eleitoral, sempre complicado pelas suspeitas nos financiamentos de campanha. O senhor defende o financiamento público ou outra forma mais transparente, capaz de reduzir a corrupção? Este é um problema grande e certamente o do mundo todo. Mas aperfeiçoar o sistema sempre tem espaço. A dependência direta nunca é boa. O fiscal não pode depender de quem ele deve fiscalizar. É preciso criar um sistema mais inteligente. É um problema amplamente discutido e eu não me acho em condições especiais de discuti-lo. Penso, porém, que nunca será bom o favorecimento. O sujeito ajudar para ter a contrapartida do favorecimento lá na frente nunca será boa opção.
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“O nosso carro anda a 80 km, mas se começar a andar a 120 km vai sair roda. Tem que ajustar o ritmo de crescimento”
Nossas leis que regulam as licitações de obras públicas, por exemplo, são boas ou existem nelas brechas que facilitam negociações? Ou a solução para este tipo de problema está nas privatizações? A privatização é sem dúvida o melhor caminho. É um sistema de autodefesa automático. Não tem problema de corrupção depois de estrada privatizada. É a concessionária que precisa realizar as obras de manutenção e melhoria das estradas. E ela vai fiscalizar. Quanto à legislação, especificamente a lei 8.666, ela ajudou a melhorar, pois tem bons instrumentos de acompanhamento. O que não temos de bom é a capacidade de organização e gestão. Há sim espaço para melhorar a legislação, mas o grande espaço a ser melhorado pelo estado é a de melhor presença gerencial naquilo que ele for tocar. Uma equipe melhor. A parte do governo que fiscaliza os fiscais, como os tribunais, remunera melhor seu pessoal do que aqueles responsáveis pelo acompanhamento das obras. Há desequilíbrio aí. É preciso ter uma carreira para os servidores. Quem vai fiscalizar obras imensas, precisa ter remuneração compatível.
O senhor preside uma entidade importante. Outras representantes de segmentos econômicos já se mobilizam para elaborar documentos com reivindicações a serem encaminhados aos futuros candidatos à Presidência. O setor da construção já está trabalha nisto? No passado fizemos estes documentos tanto em nível estadual quanto federal. Nós temos a obrigação de, como entidade de classe de um setor que representa parcela grande do Produto Interno Bruto, apresentar estas sugestões e reivindicações. O que nós mais precisamos é adequar a legislação trabalhista, tributária, de licenciamento ambiental, enfim tirar todas as amarras que não trazem benefício a ninguém.
O empresário brasileiro sempre foi arredio à participação política, pelo menos publicamente. Há até a fama de, usando expressão popular, gostar de “tirar castanha com a pata do gato”. O senhor acha que esta situação melhorou? Eu considero que o empresariado cresceu muito socialmente. Ele tem participado de muitas ações, ajudando as comunidades, e também nas ações políticas. Eu acho que as pessoas se conscientizaram de que não adianta tentar ficar numa ilha. Nós somos afetados por tudo isto que está aí. O grande desafio brasileiro é a arrumação social. Nós temos que trabalhar com ele, cuidando, por exemplo, da educação desde a base e a segurança está dentro deste contexto.
Para o senhor a arrumação social é muito mais do que o Bolsa Família? Ah!... sim. Nós temos desorganização social de 509 anos, desde que fomos descobertos. Nossa colonização ocorreu sem preocupações de estruturação social, como ocorreu com outros países. Já começamos com problemas. Com o passar do tempo, este problema se agravou. Vamos ser realistas, ninguém mora numa área de risco porque deseja. Ninguém sustenta uma família com salário de 600 reais. Aí precisamos de começar a melhorar o ensino. É bem verdade que houve a universalização, mas tem a questão da qualidade, que é problema de gestão. Este é um problema no qual o empresariado pode ajudar, realizando algumas ações.
Voltando à questão política. Ano que vem há eleições presidenciais. Quem se eleger terá como fazer mudanças profundas? O pensamento predominante é que o Brasil estruturalmente está melhor. Quem for eleito não poderá fazer grandes alterações. Mas eu acho que a escolha de uma pessoa com maior adequação para disputar o cargo é importante. Um político puxa para um lado ou para outro. É como numa empresa, que bem dirigida é uma coisa, mal dirigida é outra. Nós temos aí exemplos de vizinhos nossos de como é estragar um bom país.
O senhor acha que os avanços são resultados de um governo ou resultam de uma continuidade? Quem vier terá que seguir o mesmo caminho? Cada governo teve o seu papel. O Sarney eu considero que foi uma transição militar, mas a gestão operacional não foi das melhores, com dificuldades de condução da economia. O Collor teve o mérito de agir como dom João VI, abrindo os portos às nações amigas. Depois ele não teve capacidade de gestão e acabou tumultuando as coisas. Itamar conseguiu formar uma equipe e acertar o ponto básico que foi o plano econômico. O Fernando Henrique conseguiu consolidar o plano e fazer outras coisas boas, como a privatização. Mudou muita coisa e melhorou o país. O governo Lula tem seus aspectos positivos. Ele conseguiu manter esta política econômica e melhorar a parte social. Nesta parte há questionamentos do modelo como um todo, que precisa ser ajustado. A transferência de renda é positiva mas é necessário saber se o modelo é o adequado. O empresariado pode ajudar nestes programas, mas é preciso ter cuidado para que eles não se transformem nem em instrumento de compra de votos, nem numa forma de viciar o cidadão.
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