Terça, 22 de Maio de 2012
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Comportamento

Homens no divã

Eles cederam à sede do autoconhecimento e seguem o exemplo das mulheres: fazem terapia e buscam resolver suas questões existenciais

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela


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Na hora do almoço, após o trabalho, no happy hour com a tur­ma da faculdade ou do escritório, no vestiário, depois de uma partida de tênis, futebol ou vôlei; na roda de cerveja, na reunião de condomínio, após assistir ao jogo do time do coração. Em qualquer lugar onde se encontre uma turma de homens, entre os tradicionais bate-papos sobre política, economia, sexo, e, claro, esportes, já não causa estranheza quando alguém cita que teve um insight, termo utilizado por psicólogos, psiquiatras e psicanalistas que em bom português quer dizer discernimento. Logo, o assunto vem acompanhado de um “meu terapeuta disse”, “conversei com meu analista a respeito de” ou “a psiquiatra abordou isso comigo ontem”. Se antes tal confissão causava silêncio generalizado e espanto entre os demais ouvintes, agora é naturalmente discutido, sem neuras nem segredos.

Não existem pesquisas a respeito, mas os profissionais da área são unânimes em afirmar: na prática, os homens estão quebrando tabus e preconceitos e já buscam, por vontade própria, a terapia. Esse aumento na demanda masculina numa seara antes dominada por mulheres tem explicação nos tempos conturbados em que vivemos. Os relacionamentos amorosos são efêmeros, o perfil da família mudou, são sucessivas trocas de emprego e de posição social, fica difícil encarar o envelhecimento numa sociedade tão narcisista. Atentos às mudanças comportamentais de amigas e das companheiras que fizeram terapia, eles notaram que não se trata de algo fútil, e sim, de uma necessidade. Para a psicóloga junguiana, psicanalista e presidente do Curatorium do Instituto Carl Gustavo Jung de MG, Jussara Melo, a demanda de análise tem crescido nos últimos anos, tanto por parte dos homens quanto por parte das mulheres. “Os sentimentos de angústia são reforçados pela característica de nosso tempo: o mundo pós-moderno é o do tempo presente; é o da exigência imediata de realização do desejo, é o do sucesso absoluto, é o da beleza e juventude eternas.  Existe uma psicopatologia da pós-modernidade, em cujas modalidades de funcionamento incluem o fracasso do indivíduo em rea­lizar a glorificação do eu e a estetização da existência. Neste panorama, a psicopatologia está ligada ao fracasso da participação do sujeito na cultura do narcisismo."


Daniel Henriques, 28

CEO do Grupo Open, solteiro

- Pra quê: para superar cobranças internas contínuas, amenizar inquietude, acabar com a insônia, entender melhor o processo da vida
- Tempo de terapia: Durante o ano de 2008 consultou um psicólogo, agora voltou às sessões, mas com outro profissional
- Atualmente: faz sessões esporádicas
- Por quê: passou a ter domínio das rédeas da vida, começou a equilibrar melhor trabalho-saúde-vida social e amorosa
- Conselho: “A terapia mudou minha vida. Passei a me valorizar mais. É preciso saber dar ouvidos à voz interior, a olhar as situações por outras perspectivas. Aprendi a ter mais calma, a valorizar pequenas e grandes conquistas. Curto o dia de hoje, sem me preocupar com o passado, nem ficar grilado demais com o futuro.”

Em 490 a.C. Sócrates criou sua máxima:

"Conhece-te a ti mesmo".

Em 1637, o também filósofo René Descartes divulgou seu "Penso, logo existo"

Séculos se passaram e as teorias de ambos nunca estiveram tão atuais

Segundo Jussara, o homem contemporâneo sente-se cada vez mais insuficiente e desamparado porque é atropelado pelo volume de informação da era da comunicação e globalização, e sofre pela imposição da eterna superação de resultados. Nes­sa competição pela superação do status quo, um dos competidores é o próprio sujeito, que não compre­ende que persegue a superação de sua condição humana. Meta impossível de ser alcançada. “O resultado disso é o aumento de tensões, angústias e depressões. O corpo transformou-se em moeda de troca e o engano é mal percebido. Surgem, como consequên­cias, entre outras, as patologias ligadas à sexualidade.”

Insônia, excesso de peso, má alimentação, relógio biológico alterado por causa de tantas viagens de longa distância, celular tocando 24h, sedentarismo. Além disso, ter uma rotina estressante: liderar equipes, lidar com decisões difíceis, que envolvem altas quantias financeiras, cumprir prazos exíguos e coordenar cerca de 1,5 mil eventos por ano, alguns gigantescos, como foi toda a montagem do último Grande Prêmio do Bra­sil de Fórmula 1. Para o empresário e CEO (Chief Executiver Officer) do Grupo Open, Daniel Henriques, 28 anos, a terapia foi o divisor de águas em sua vida. Ele buscou ajuda de um psicólogo, ano passado, mas andou adiando e cancelando sessões em prol de outros compromissos ou, como ele mesmo reconhece, fez uma espécie de autosabotagem. “Recebi um torpedo do psicólogo no celular: ‘Você faz tudo pela sua empresa, nunca vi ninguém conseguir virar o jogo tão positivamente, mas você não consegue se abrir, se cuidar, você é relapso consigo mesmo’. Fiquei com ódio do que li. Hoje, entendo que foi a melhor maneira de me retirar da zona de conforto, que é o pior lugar onde alguém pode estar. Gosto de desafios. Percebi que estava realmente jogando a minha vida fora.” Henriques tenta viver mais o hoje, curte os amigos, vai a festas. “Isso já é uma boa terapia.” A decisão do empresário foi visível: a tão adiada dieta teve início imediato, em janeiro. Decidiu, enfim, que iria tomar as rédeas da sua vida.

Felipe Zandim, 29 anos

Consultor jurídico, casado

- Pra quê: necessidade de autoconhecimento, para saber o porquê de ter alguns comportamentos repetitivos que o incomodavam
- Tempo de terapia: fez psicanálise por dois anos, interrompeu, contra a vontade do analista, porque não gostou da abordagem e não notou resultados práticos. Depois, fez terapia com uma psicóloga durante 18 meses seguidos
- Atualmente: deixou o divã em 2007
- Por quê: alcançou efeitos práticos: ficou mais centrado, mais calmo, mais seguro de si, melhorou a autoestima e conquistou o domínio das emoções
- Conselho: “Ninguém perde com terapia, mas é preciso humildade para reconhecer aspectos pontuais da vida. Aprendi a ser senhor de mim mesmo. Ganhei mais consciência para analisar as situações e entender os limites meus e, principalmente, dos outros”

Para o jornalista e apresentador de TV Luiz Seabra, 51, o divã foi uma questão de vida ou morte. Mesmo jogando tênis, correndo diariamente, se tratando com o clínico geral José Carlos Medrado e de tomar medicação, seus exames estavam todos alterados, a pressão, altíssima. “Sem perceber, fui somatizando tudo. E o meu médico é de uma extrema sensibilidade. Foi ele que me indicou a terapia. Estou adorando.” Casado por três vezes, pai de três filhos já encaminhados, Seabra diz que se desnuda no divã, o que lhe trouxe paz de espírito e o afastou de repetições nocivas. “Não há outro caminho para o homem moderno, pois saímos da era em que o macho era o dominador, o provedor. Veio o boom feminino, os papéis se inverteram. E esse homem, antes caçador, ficou fragilizado, seu espaço foi diminuindo. Essa inversão de padrões gera inconstância e desconforto: ou você engole os outros ou é consumido”, avalia. Podemos, sim, evitar sofrimentos. É dessa forma que Seabra encara a vida. Segundo o jornalista, quem está no olho do furacão nem sempre vê o risco que corre. Entre os ganhos com a terapia, Seabra destaca que passou a valorizar os pequenos prazeres, a curtir a vida doméstica e social, a valorizar o hobby de escrever poesia e de estar mais disposto a tudo.

Marco Aurélio R. Paiva, 40

Funcionário público e advogado, casado

- Pra quê: Para melhorar a qualidade de vida, autoestima e buscar respostas para as dúvidas existenciais. Tinha dificuldade em dizer não
- Tempo de terapia: Há 3 anos, fez 3 sessões “por curiosidade”. Por acreditar em reencarnação, resolveu depois tentar a terapia
de vidas passadas. Voltou ao divã faz um ano, sem interromper o processo
- Atualmente: Continua na terapia e ainda incentivou a mulher a fazer o mesmo
- Por quê: “No relacionamento, a terapia é fundamental para resolver questões que antes remoíamos ou empurrávamos para debaixo do tapete. Nosso diálogo melhorou demais. Aceitei melhor as limitações minhas, da vida e dos outros”
- Conselho: “Antes, tive certa resistência à terapia, por achar que seria um processo longo. O que não é verdade. Hoje, vejo que o tratamento melhorou a qualidade de vida, passei a entender melhor porque reagimos bem ou mal a determinados estímulos, o porquê das antipatias gratuitas. Passei a entender meus desejos, e que o comportamento dos outros, muitas vezes, é reflexo do meu eu, dos defeitos que tanto evitamos expor”

Acostumada a tratar, diariamente, com a condição humana sujeita aos extremos de finitude e limites, Márcia Abreu Fonseca, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital das Clínicas da UFMG, diz que é visível que os homens cederam ao preconceito de frequentar terapia. “Eles estão, aos poucos, quebrando tabus porque procuram a completude, que se busca nas relações humanas. O homem está admitindo que está perdido e que pode ter dúvidas”, explica Márcia. Para a coordenadora do HC, as pessoas estão em busca de mais terapia, mas estão procurando mais tudo: consumo de medicamentos antidepressivos, cirurgia plástica, ninguém quer vivenciar o luto, a tristeza. “Há uma medicalização da dor, de algo que nem sempre tem remédio. E a apologia do outro se explica de várias formas. Acha-se que é o outro que precisa de tratamento, não a si mesmo”, diz a psicóloga.

Luiz Seabra, 51

Jornalista, poeta e apresentador de TV, casado

- Pra quê: estava somatizando no corpo todos os sapos que engolia: triglicérides alto, colesterol e pressão alterados, apesar de ter uma vida esportiva muito ativa
- Tempo de terapia: há sete anos, fez psicodrama em Brasília, durante poucas sessões. Por indicação do clínico geral, buscou ajuda de uma psicóloga especialista em terapia de vidas passadas, com quem se consulta há 8 meses
- Atualmente: continua na terapia
- Por quê: “Há coisas que se diz ao terapeuta que não se diz a ninguém. Às vezes, os amigos têm uma postura emocional e pré-concebida diante de nossas confissões. O terapeuta é imparcial, tem uma análise plural para analisar um determinado caso que nos aflige”
- Conselho: “Foi a partir da terapia que comecei a fazer ioga, a cuidar mais de mim. E como diz Rubem Alves, parei de preocupar com o olhar e a opinião do outro. Hoje, curto jogar tênis, correr, curtir minha casa com minha mulher, sair para jantar, adoro escrever poesia. Antes, meu esquema era só trabalho-uísque-jazz.”

Foi um pouco descrente que o consultor jurídico Felipe Zan­dim, 29, procurou o consultório da psicóloga Ivanildes Rocha. Dois anos antes, ele havia tentado psicanálise, sem conseguir re­sultados. “Fui pelo benefício da dúvida. O que me interessava eram os efeitos práticos. Consegui trazer para o consciente muito do que estava oculto no inconsciente. Vi o quanto eu era refém de condutas, de atitudes das quais não tinha controle. Ganhei domínio para lidar com questões complicadas. Vejo que na maioria das vezes as pessoas não têm domínio de si, mas querem dominar o outro.” Segundo o advogado, quando uma pessoa se deixa dominar pelo instinto se torna um joguete na mão dos hormônios. Um dos retornos mais significativos com a terapia foi a autoestima. “Não existe fórmula mágica, mas é uma ferramenta que ajuda a adquirir consciência.”

Defensor ferrenho de terapia, o funcionário público e advogado Marco Aurélio Ribeiro de Paiva, 40, estava em busca de respostas para questões ancestrais: “de onde venho, onde estou, para onde vou?” Embora tudo estivesse bem, sentia que faltava algo. “Muita gente acha que aquele que busca terapia está doente, não é bem assim. Simplesmente pode-se querer melhor qualidade de vida. É preciso reconhecer que não encontrava respostas para questões mais profundas, e não adianta tentar ser super-homem. Queria entender minhas reações repetitivas a certas questões.” Para o advogado, a maior dificuldade era dizer não às pessoas, o que lhe rendeu dissabores e idas a vários eventos por medo de ser taxado de antipático. Depois da terapia, conseguiu voltar para si mesmo, para seus desejos, e dizer não àquilo que o agride. Descobriu que é a forma de falar esse não que pode causar problemas. “Tomei consciência de que mudando meu comportamento, meu casamento e minha relação no trabalho com colegas poderiam ser muito mais duradouros e positivos.”

A mulher de Marco, a fisioterapeuta Izabela Pinto da Cunha, 35, apoia totalmente o tratamento do marido. “Ele está mais atencioso. Parou de se doar demais aos outros, coisa que fazia sem pensar se aquela pessoa queria ser ajudada. E ainda me incentivou a também fazer terapia (com outra profissional). Hoje, quando chegamos da sessão ainda discutimos vários assuntos. É ótimo.” Segundo Marco, ao abandonar o papel do superbom, do cara supersimpático, ele encontrou alí­vio. Hoje, toma outras atitudes. "A terapia foi um divisor de águas na minha vida. Se podemos melhorar nosso cotidiano, de forma tão simples, por que não tentar?"


 
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