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ComportamentoHomens no divãEles cederam à sede do autoconhecimento e seguem o exemplo das mulheres: fazem terapia e buscam resolver suas questões existenciais
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela
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Daniel Henriques, 28CEO do Grupo Open, solteiro- Pra quê: para superar cobranças internas contínuas, amenizar inquietude, acabar com a insônia, entender melhor o processo da vida |
Em 490 a.C. Sócrates criou sua máxima: "Conhece-te a ti mesmo". |
Em 1637, o também filósofo René Descartes divulgou seu "Penso, logo existo" Séculos se passaram e as teorias de ambos nunca estiveram tão atuais |
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Segundo Jussara, o homem contemporâneo sente-se cada vez mais insuficiente e desamparado porque é atropelado pelo volume de informação da era da comunicação e globalização, e sofre pela imposição da eterna superação de resultados. Nessa competição pela superação do status quo, um dos competidores é o próprio sujeito, que não compreende que persegue a superação de sua condição humana. Meta impossível de ser alcançada. “O resultado disso é o aumento de tensões, angústias e depressões. O corpo transformou-se em moeda de troca e o engano é mal percebido. Surgem, como consequências, entre outras, as patologias ligadas à sexualidade.” Insônia, excesso de peso, má alimentação, relógio biológico alterado por causa de tantas viagens de longa distância, celular tocando 24h, sedentarismo. Além disso, ter uma rotina estressante: liderar equipes, lidar com decisões difíceis, que envolvem altas quantias financeiras, cumprir prazos exíguos e coordenar cerca de 1,5 mil eventos por ano, alguns gigantescos, como foi toda a montagem do último Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Para o empresário e CEO (Chief Executiver Officer) do Grupo Open, Daniel Henriques, 28 anos, a terapia foi o divisor de águas em sua vida. Ele buscou ajuda de um psicólogo, ano passado, mas andou adiando e cancelando sessões em prol de outros compromissos ou, como ele mesmo reconhece, fez uma espécie de autosabotagem. “Recebi um torpedo do psicólogo no celular: ‘Você faz tudo pela sua empresa, nunca vi ninguém conseguir virar o jogo tão positivamente, mas você não consegue se abrir, se cuidar, você é relapso consigo mesmo’. Fiquei com ódio do que li. Hoje, entendo que foi a melhor maneira de me retirar da zona de conforto, que é o pior lugar onde alguém pode estar. Gosto de desafios. Percebi que estava realmente jogando a minha vida fora.” Henriques tenta viver mais o hoje, curte os amigos, vai a festas. “Isso já é uma boa terapia.” A decisão do empresário foi visível: a tão adiada dieta teve início imediato, em janeiro. Decidiu, enfim, que iria tomar as rédeas da sua vida. |
Felipe Zandim, 29 anosConsultor jurídico, casado - Pra quê: necessidade de autoconhecimento, para saber o porquê de ter alguns comportamentos repetitivos que o incomodavam |
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Para o jornalista e apresentador de TV Luiz Seabra, 51, o divã foi uma questão de vida ou morte. Mesmo jogando tênis, correndo diariamente, se tratando com o clínico geral José Carlos Medrado e de tomar medicação, seus exames estavam todos alterados, a pressão, altíssima. “Sem perceber, fui somatizando tudo. E o meu médico é de uma extrema sensibilidade. Foi ele que me indicou a terapia. Estou adorando.” Casado por três vezes, pai de três filhos já encaminhados, Seabra diz que se desnuda no divã, o que lhe trouxe paz de espírito e o afastou de repetições nocivas. “Não há outro caminho para o homem moderno, pois saímos da era em que o macho era o dominador, o provedor. Veio o boom feminino, os papéis se inverteram. E esse homem, antes caçador, ficou fragilizado, seu espaço foi diminuindo. Essa inversão de padrões gera inconstância e desconforto: ou você engole os outros ou é consumido”, avalia. Podemos, sim, evitar sofrimentos. É dessa forma que Seabra encara a vida. Segundo o jornalista, quem está no olho do furacão nem sempre vê o risco que corre. Entre os ganhos com a terapia, Seabra destaca que passou a valorizar os pequenos prazeres, a curtir a vida doméstica e social, a valorizar o hobby de escrever poesia e de estar mais disposto a tudo.
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Marco Aurélio R. Paiva, 40Funcionário público e advogado, casado - Pra quê: Para melhorar a qualidade de vida, autoestima e buscar respostas para as dúvidas existenciais. Tinha dificuldade em dizer não |
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Acostumada a tratar, diariamente, com a condição humana sujeita aos extremos de finitude e limites, Márcia Abreu Fonseca, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital das Clínicas da UFMG, diz que é visível que os homens cederam ao preconceito de frequentar terapia. “Eles estão, aos poucos, quebrando tabus porque procuram a completude, que se busca nas relações humanas. O homem está admitindo que está perdido e que pode ter dúvidas”, explica Márcia. Para a coordenadora do HC, as pessoas estão em busca de mais terapia, mas estão procurando mais tudo: consumo de medicamentos antidepressivos, cirurgia plástica, ninguém quer vivenciar o luto, a tristeza. “Há uma medicalização da dor, de algo que nem sempre tem remédio. E a apologia do outro se explica de várias formas. Acha-se que é o outro que precisa de tratamento, não a si mesmo”, diz a psicóloga.
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Luiz Seabra, 51Jornalista, poeta e apresentador de TV, casado - Pra quê: estava somatizando no corpo todos os sapos que engolia: triglicérides alto, colesterol e pressão alterados, apesar de ter uma vida esportiva muito ativa |
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Foi um pouco descrente que o consultor jurídico Felipe Zandim, 29, procurou o consultório da psicóloga Ivanildes Rocha. Dois anos antes, ele havia tentado psicanálise, sem conseguir resultados. “Fui pelo benefício da dúvida. O que me interessava eram os efeitos práticos. Consegui trazer para o consciente muito do que estava oculto no inconsciente. Vi o quanto eu era refém de condutas, de atitudes das quais não tinha controle. Ganhei domínio para lidar com questões complicadas. Vejo que na maioria das vezes as pessoas não têm domínio de si, mas querem dominar o outro.” Segundo o advogado, quando uma pessoa se deixa dominar pelo instinto se torna um joguete na mão dos hormônios. Um dos retornos mais significativos com a terapia foi a autoestima. “Não existe fórmula mágica, mas é uma ferramenta que ajuda a adquirir consciência.” Defensor ferrenho de terapia, o funcionário público e advogado Marco Aurélio Ribeiro de Paiva, 40, estava em busca de respostas para questões ancestrais: “de onde venho, onde estou, para onde vou?” Embora tudo estivesse bem, sentia que faltava algo. “Muita gente acha que aquele que busca terapia está doente, não é bem assim. Simplesmente pode-se querer melhor qualidade de vida. É preciso reconhecer que não encontrava respostas para questões mais profundas, e não adianta tentar ser super-homem. Queria entender minhas reações repetitivas a certas questões.” Para o advogado, a maior dificuldade era dizer não às pessoas, o que lhe rendeu dissabores e idas a vários eventos por medo de ser taxado de antipático. Depois da terapia, conseguiu voltar para si mesmo, para seus desejos, e dizer não àquilo que o agride. Descobriu que é a forma de falar esse não que pode causar problemas. “Tomei consciência de que mudando meu comportamento, meu casamento e minha relação no trabalho com colegas poderiam ser muito mais duradouros e positivos.” A mulher de Marco, a fisioterapeuta Izabela Pinto da Cunha, 35, apoia totalmente o tratamento do marido. “Ele está mais atencioso. Parou de se doar demais aos outros, coisa que fazia sem pensar se aquela pessoa queria ser ajudada. E ainda me incentivou a também fazer terapia (com outra profissional). Hoje, quando chegamos da sessão ainda discutimos vários assuntos. É ótimo.” Segundo Marco, ao abandonar o papel do superbom, do cara supersimpático, ele encontrou alívio. Hoje, toma outras atitudes. "A terapia foi um divisor de águas na minha vida. Se podemos melhorar nosso cotidiano, de forma tão simples, por que não tentar?" |