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Por uma vida mais colorida
O apadrinhamento proporciona chance de futuro melhor para milhares de crianças carentes. Que tal ser um padrinho?
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: SXC/ Pedro Vilela/ Petronio Amaral/ Daniel de Cerqueira/ Nélio Rodrigues/ Divulgação
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A pequena belo-horizontina de 5 anos não sabia que Boston era a maior cidade do estado de Massachusetts, nem tampouco que Charles River e Mystic River eram os rios que cortavam aquele lugar desconhecido onde de tempos em tempos chegava uma carta. Essa, em papel sempre azul, tinha a foto de um casal bem jovem, sorridente, Steven e Robin, que falava sobre a neve, perguntava a ela sobre os estudos, contava sua vida nos Estados Unidos, do casamento próximo, de como gostaria de conhecê-la. Do outro lado do hemisfério, o gesto desse casal, que mensalmente enviava uma quantia esperada com ansiedade no lar da menina, era recompensado com desenhos do sol, de flores, de uma casa. A menina, feliz, se orgulhava de contar para os amiguinhos dos padrinhos norte-americanos, ainda não entendendo que a vida difícil da mãe para criar duas filhas era em muito abrandada pela solidariedade de pessoas como eles. A menina cresceu e hoje é a jornalista que escreve essa matéria.
O número de crianças em situação de risco atualmente no Brasil é impreciso, mas sabe-se que muitas delas integram as famílias dos 8,8 milhões de brasileiros, segundo dados do governo federal, que vivem na pobreza extrema, ou as 20 mil que vivem em abrigos em todo o país. São crianças e adolescentes que mesmo 19 anos depois da implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente ainda não têm a plenitude de todos os seus direitos pessoais e sociais garantido por políticas públicas. O sopro que ameniza alguns desses duros cotidianos está num padrinho diferente daqueles instituídos por ritos religiosos. Ele escolhe ajudar uma criança que não viu nascer, mas que o sensibiliza a ponto de querer mudar sua vida. O apadrinhamento social hoje é uma realidade para milhares de crianças e adolescentes em cidades brasileiras e há diversos formatos dessa ação de solidariedade. Há os que ajudam mensalmente a criança, outros que se comprometem a estabelecer um vínculo social, em que a adoção pode ou não acontecer. Independentemente da forma, é uma aproximação, como se verá nos depoimentos desta reportagem, que gera uma mudança para melhor – tanto para quem é ajudado quanto para quem ajuda.
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Maria José Borges: de apadrinhada à madrinha |
Mesmo mais de 30 anos depois do apadrinhamento por um casal de estrangeiros, a advogada Maria José Borges da Silva, 39, ainda se emociona ao relembrar o que este fato significou para sua vida. Moradora, na infância, de uma das regiões mais pobres de Belo Horizonte, o Aglomerado Alto Vera Cruz, ela e os cinco irmãos foram apadrinhados através do Fundo Cristão para Crianças (FCC). Este ato teve tamanho significado na vida de Maria José, que é possível dividir sua trajetória na fase anterior e posterior ao apadrinhamento. Para a criança, significava o carinho de ter um casal que, mesmo longe, estava sempre torcendo por ela. Para a família, a ajuda financeira era primordial para a compra de alimentos, roupas, remédios, material escolar. “O apadrinhamento foi algo essencial em minha vida. Essa solidariedade me abriu outra expectativa, melhorou a minha autoestima, e me mostrou caminhos essenciais para a pessoa que sou hoje”, diz a advogada, que tem dois filhos.
Em seu escritório no Barro Preto, Maria José traz na memória os desenhos com um sol sorrindo que enviava aos padrinhos. Mostra uma carta de Eva, uma menina do Vale do Jequitinhonha, da cidade de Itaobim, com 6 anos, que tal como ela fazia, também envia desenhos coloridos que expressam seu agradecimento. Eva é sua afilhada social há um ano e meio. Ela vive numa das regiões mais pobres de Minas, caracterizada por um baixo desenvolvimento econômico e social, com o menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do estado. “Espero fazer por ela o que foi feito por mim”, afirma a advogada que contribui mensalmente com 50 reais e deseja, no próximo ano, ir pessoalmente ao Vale do Jequitinhonha para conhecer a afilhada. Neste Natal, Maria José vai enviar uma boneca para Eva e também dinheiro extra para que a família compre roupas para ela.
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Ananias Neves: apadrinhamento é laço social para crianças que vivem em abrigos |
Para a criança chegar ao apadrinhamento, programas como os da Visão Mundial e do Fundo Cristão para Crianças (FCC) levam em conta os indicadores de desenvolvimento humano de uma cidade, região, localidade. “Atuamos onde há pobreza e vulnerabilidade extrema e trabalhamos para mudar essa realidade. Queremos a criança como protagonista de sua história”, afirma o diretor nacional do FCC, Gerson Pacheco. É um acompanhamento que pode começar ainda bebê e terminar quando o jovem completar entre 18, 19 anos. O formato é o de uma ajuda mensal, que contribui não só com a família da criança apadrinhada, mas com toda a comunidade que está inserida. “A lógica do trabalho é gerar o desenvolvimento da comunidade para que as crianças e suas famílias sejam beneficiadas e, desta forma, construam outra realidade”, afirma o diretor de marketing da Visão Mundial, Ronaldo Martins.
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O casal Claudinei e Andréia Rocha com o filho Cristian e a afilhada Sergimara |
Foi justamente essa perspectiva de mudar a realidade da criança que chamou a atenção do administrador de empresas Wendell Afonso Teixeira, 65, quando ouviu um amigo comentando sobre um programa de apadrinhamento. Em 1998, Teixeira era um homem ocupado pelo trabalho e constantes viagens. Ajudava a instituição Caminhos para Jesus, mas sentia que poderia fazer mais. Escolheu apadrinhar, pelo Fundo Cristão, uma menininha, com então dois anos, moradora do Aglomerado da Serra, considerada a maior favela de Belo Horizonte. Mensalmente, durante os últimos 11 anos, enviou quantia em dinheiro e presentes em épocas especiais. Acompanhou, por meio de cartas e relatórios, o crescimento e o cotidiano de Michele Carolina Francisca Xavier. Hoje, aos 13 anos, Michele é uma adolescente que frequenta a escola à tarde, participa das atividades do projeto Conselho de Pais Criança Feliz e gosta de queimada, vôlei, artes, informática. “Sempre recebi cartas da Michele me contando sobre o cotidiano, as diversões, sua família. No decorrer destes anos, percebi a evolução social e psicológica, sua clareza, a maturidade intelectual. É algo que foi um motivador para que eu não saísse do apadrinhamento”, diz o administrador.
No dia da entrevista para esta reportagem, Wendell encontrou-se com Michele pela primeira vez. Ele prometeu à afilhada um contato mais permanente, agora que está prestes a se aposentar. Michele, tímida, não escondeu a felicidade de ver, em carne e osso, o padrinho que sempre fez parte de sua vida. “Tenho muito carinho por ele. Quando escrevo, gosto de contar sobre o meu dia-a-dia. Tinha muita curiosidade em conhecê-lo”, diz.
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Eduardo Costa e Rute Léa com Mateus: proximidade |
A administradora Rute Léa Alves Amâncio, 44, e o marido Eduardo Ângelo Costa, 51, têm três filhos e há 10 anos apadrinham crianças. Rute conta que, num primeiro momento, optou pelo apadrinhamento a distância, mas depois mudou de ideia, queria a proximidade com o apadrinhado. E isso implicava conhecer a família, o local da moradia, levar a criança para passear nos finais de semana, fazer festa no dia de aniversário. Conheceram o Projeto Acolher, que atende cerca de 30 crianças carentes da Vila São Francisco, e fica próximo ao seu bairro, o Carlos Prates. O projeto recebe as crianças na parte da manhã, no período em que não estão na escola, e oferece atividades que incluem aulas de futebol, balé, musicalização, inglês, teatro, assistência médica, odontológica. Os participantes têm duas refeições: o café da manhã e o almoço.
“Ajudo mensalmente com 30 reais. Algumas pessoas não ajudam porque acham que é um valor que não muda a vida de ninguém. Mas, posso garantir que toda a forma de contribuição é válida. Vemos como as crianças chegam no início do ano e como vão ficando, a melhora da autoestima, do rendimento escolar”, diz. Rute e Eduardo apadrinham Mateus, 9, desde 2007, uma criança esperta que gosta de jogar bola, é brincalhona e adora os encontros com os padrinhos. “É um projeto que abre portas para todos nós e significa um exercício constante de amizade, de perdão, de sentimentos que fazem a diferença na vida de todos nós”, afirma Rute.
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Robson Tasca visitou oito estados para conhecer seus 10 afilhados |
Há também o apadrinhamento das crianças que vivem nos abrigos. Algumas são órfãs, mas a maioria tem pais e mães ou familiares que, em um determinado momento, têm de ficar separados por causa de algum tipo de violência ou miséria. O apadrinhamento se torna um laço para que elas tenham convivência familiar e de amizade. “Se elas não são apadrinhadas, não têm uma relação intramuros do abrigo”, explica o presidente da ONG Centro de Voluntário de Apoio ao Menor (Cevam), o advogado Ananias Neves.
É na época de Natal que aumentam os apadrinhamentos às crianças abrigadas, mas o desafio é fazer com que elas sejam acolhidas durante todos os meses do ano. Atualmente, em Belo Horizonte há 70 abrigos e unidades de acolhimentos, com cerca de 400 crianças. Dessas, 120 têm apadrinhamentos permanentes, que significa passar os finais de semana, férias, Natal, aniversário, na casa das famílias. Difere da adoção, já que a maioria delas têm pais e estão esperando o momento do retorno à sua família. É um laço, segundo Neves, que fortalece a referência social da criança. “Ela estará integrada à sociedade e perceberá que existe um mundo melhor e que pode participar dele”, diz Neves.
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O educador social Claudinei Rocha, 38, e sua esposa Andréia Rodrigues dos Santos Rocha, 28, apadrinham crianças inscritas no Cevam desde 2006. O casal tem um filho, Cristian, de 8 anos. A primeira apadrinhada foi a menina Raiane, que logo voltou para sua família. Depois chegou Sergimara, 13, que desde 2007 virou o xodó da família de Rocha. Ela passava o final de semana e as datas comemorativas com o casal e o filho. “Temos essa menina como filha. Neste mês, ela voltará para a sua família. Fico imensamente feliz porque sei o quanto é importante essa convivência, mas o nosso coração está apertado porque é um amor de pais o que sentimos por ela”, afirma.
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Wendell Teixeira com Michele: encontro depois de 11 anos |
Rocha já foi voluntário e trabalhou em abrigos de Belo Horizonte. Diz que é impressionante como as crianças chegam a esses locais em busca de atenção e carinho. Como acredita que cuidar de crianças é uma missão, o casal se prepara para um passo maior em seu apadrinhamento – deve adotar Larissa, uma menina de 9 anos, que mora num abrigo e virou afilhada no final do ano passado. “Foi engraçado porque quando soubemos que Mara (como chamam Sergimara) iria embora, minha mulher fechou o coração e falou que não queria apadrinhar ninguém. Mas a Larissa veio e fez com que ela mudasse de ideia. Estamos com o coração aberto para adotá-la”, diz.
Há padrinhos que fazem o impensável pelos seus afilhados. É o caso do jovem empresário de Chapecó (RS), Robson Tasca, 25, que é padrinho de 10 crianças e que no meio deste ano visitou oito estados para conhecer a realidade de cada uma delas. Voltou e incentivou os funcionários de sua empresa a apadrinhar mais 40 crianças. O detalhe é que a empresa paga essas contribuições dos funcionários ao projeto social. “Acho que temos de fazer algo por aqueles que estão ficando para trás. Não é preciso ser em tempo integral, nem ser uma quantia muito grande, mas o essencial é que alguma coisa seja feita”, diz.
Tasca reuniu o irmão e dois amigos e num avião particular conheceu cada um dos afilhados com idades entre três e 13 anos. “O que mais me surpreendeu foi a força das pessoas dos projetos sociais que ajudam essas comunidades. Essas pessoas fazem o melhor que podem com muito amor, dedicação, empenho. Acho que todos os padrinhos deveriam conhecer cada realidade. Fortifica nosso contato com as crianças”, afirma.
Quando passou pela primeira cidade e pegou um dos afilhados no colo, Tasca chorou pela realidade daquelas crianças, suas dificuldades, por estar frente a frente com os autores das cartas singelas e cheias de desenhos recebidas por ele, capazes de sonhar num ambiente tão duro. “Muita gente não ajuda por desconfiança, por não conhecer. Eu não conhecia, olhei na internet, apostei. É gratificante fazer parte de uma corrente que está mudando a vida desses meninos e meninas".
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