Costumo dizer que BH é excelente em dois momentos: quando você vai embora e quando você volta. A experiência de morar fora lhe ensina a valorizar o que foi deixado para trás e a repensar o que aprendeu de ruim, inclusive os pontos de vista e julgamentos sobre a cidade. Também já fui partidário do discurso da roça iluminada, mundinho fechado e do sempre a mesma coisa. E se algum dia essa ladainha soou coerente, as mudanças por mim percebidas neste retorno provam o contrário. Não há mais razões que justifiquem essa forma de pensar. Talvez nunca houvesse e tenham sido somente fruto da imaturidade e vícios de opinião enraizados.
Os diferentes caminhos trilhados por conhecidos ou amigos nestes sete anos de ausência ratificam a certeza de que uma cidade desenvolvida como Belo Horizonte está longe de ser a responsável pela acomodação de quem anseia por mudança, mas não toma atitude. Aqui tem todo tipo de gente, todo tipo de vida.
Tem gente que ainda vive da aparência e gente que vive pra aparecer. Tem gente que estudou, formou e gente que não se liga que o intervalo da faculdade já acabou. Tem homem que virou chefe de família, outros que envelheceram cantando menininha e há os velhos que ainda cantam pneu.
Tem cara que deseja a mesma mulher desde os 17 anos, mas nunca chegou perto nem pra dizer oi. E outros que disseram tanto oi, que agora só conseguem as de 17 anos.
Existe um grupo que, em alguns anos, morrerá abraçado, extenuado, após sete dias de loucura e bebedeira. Metade desta turma vai embora feliz, torcendo pro céu ser open bar. Já a outra metade só vai subir porque ganhou cortesia. E ainda vai dar chilique pra sentar na nuvem da área vip.
Tem mulher que escolheu, decidiu, casou e outras que estão esperando marido. Umas esperam fingindo estudar para concurso, outras esperam deitadas no sofá da sala e o resto tenta a sorte em pé na balada.
Tem gente que ou fala fofoca, ou fala de futebol, ou fala de dinheiro. E gente que ganha muito dinheiro enquanto o resto só fala. Tem um povo que trabalha, se sacrifica, mas não se preocupa em ficar rico. E muitos que nada fazem e não entendem por que não estão ricos. Querem ter vida de paulista trabalhando como baianos (preconceito meramente ilustrativo, não se avexe).
Tem pra todo mundo. Cabe a cada um escolher a própria rotina, valores e definir que tipo de belo-horizontino deseja ser. BH é uma capital cada vez mais cosmopolita, cheia de alternativas, com vida noturna variada e muitas opções gastronômicas, culturais e profissionais para todos os gostos. E isto se deve àqueles que não se acomodaram e correram atrás de seus sonhos, em vez de esconderem a própria inércia por trás de discursos preguiçosos e repetidos. Fizeram da zona de conforto uma zona de oportunidades.
A roça está na cabeça de quem não evolui, não muda de opinião e deixa de experimentar outra música, outros guetos, outras pessoas e, principalmente, outra postura, para ficar reclamando de tudo, de todos e vivendo na mesmice. Basta abrir um pouco a cabeça para entender que o futuro marido pode ser o vocalista de uma bandinha de rock esforçada que toca às terças-feiras num bar quase vazio; que a mulher dos meus sonhos talvez não precise ser uma top da noite, mas quem sabe uma pessoa comum, simples e avessa a futilidades; ou que o investidor que falta para abrir o sonhado negócio pode estar agora tomando cerveja num boteco copo sujo de um bairro distante.
Opções não faltam, basta pagar pra ver. Porque enquanto alguns preferem acreditar que nada acontece porque BH é um ovo, tem gente feliz e crescendo na vida vendendo omelete.