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PersonagensSem limitesPara eles, a cadeira de rodas passou a ser extensão do próprio corpo e, após o impacto inicial, a adaptação se faz com um único propósito: o de viver a vida
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Daniel de Cerqueira / Agradecimento Praia Clube, Nélio Rodrigues, Marcos Rosa e SXC
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É o que o mundo apresenta, o jeito é se metamorfosear. Antes do dia em que dormiu e caiu do parapeito da casa de um amigo, o universitário Fellipe Rodrigues Pereira Lima praticava esportes radicais: de surfe a skate. Aí veio a paraplegia, depois a descoberta da descida de corredeira, caiaque-surfe, mergulho livre, pesca submarina, triciclos. O radical se manteve em sua vida, transferido dos pés para as mãos. “Reaprendi a viver. Não adianta voltar atrás. Retiro experiências com o passado, vivo o presente e vou construir o futuro,” diz. Do que se foi, as fotos das manobras radicais de skate, de agora, a faculdade de gestão empresarial, o namoro, o trabalho, a fisioterapia, o cachorro, a busca por patrocínio para a canoagem, o dia-a-dia rotineiro. Morou seis meses na Flórida, nos Estados Unidos, três deles sozinho e se prepara para a temporada de 90 dias na Austrália. “Minha ideia é viver dos esportes radicais, seja como competidor ou investidor.”´
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A vereadora Mara Gabrilli, de São Paulo, vive da fala, o que nem isto conseguia logo depois do acidente de carro que a deixou tetraplégica, como Luciana, a personagem da atriz Alinne Moraes. “Não saía som, vivia entubada, estava muito mal. Fui me defendendo, não tive tempo para pensar na deficiência. Minha luta era pela vida.” Recuperou a fala, não os movimentos de braços e pernas. Precisa de ajuda para tudo, teve de repaginar a sua vida. “O que faço é verbal.” Entoa a voz na defesa dos deficientes, da acessibilidade à remoção do estigma de tristeza carimbado nas cadeiras de rodas, foi secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da capital paulista, fez fotos sensuais e campanha de lingerie.
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Há de se contabilizar esforços de todos. O jogador de basquete José Wan Der Maas de Souza Júnior chegou a pensar em suicídio: o acidente de moto em Carlos Chagas, no Vale do Mucuri, uma semana inconsciente, depois acordar num hospital em Belo Horizonte, rodeado de médicos. “Fiquei sem entender, estava imóvel, percebi que não mexia as pernas.” Conscientizou-se do que havia acontecido, a busca pela reabilitação, o contato com o mundo antes nem pensado da deficiência, a colaboração de amigos e família. “Eles me ajudaram muito.” Viu que queria continuar nessa vida, achou força física e psicológica no esporte. Hoje está no time da Associação Mineira de Paraplégicos. “O basquete é parte de mim.” Mora sozinho, lava roupa, faz comida, vira-se. O difícil é mudar a temperatura do chuveiro, tão distante das mãos, e o receio de uma frigideira cair no seu colo quando for preparar a refeição. “Uso mais a inteligência do que a força”, diz Júnior. Redescobriu-se nestes quatro anos e meio após a queda da moto. “A pessoa se adapta, busca saída, senão enlouquece”, lembra o psicanalista Adilson de Aguilar, que trabalha com deficientes. Como acontece com qualquer um, mesmo com todas as funções do corpo. A vida tem de ser preenchida. |
Quando mergulhou no rio e de lá saiu tetraplégico, o funileiro Nardélio Fernandes da Luz tinha 31 anos e muitas histórias para contar. “Tive sorte porque quando fiquei deficiente estava com a cabeça feita”, diz. Percebeu que podia escrever, o que fazia antes espaçadamente por falta de tempo, e resolveu publicar o livro autobiográfico Vida após a Vida. A dele que mudou por completo, com meses de recuperação, dependência para as necessidades básicas. “Isto é o mais difícil. Quem cuida do tetraplégico vive duas vidas: a sua e a da pessoa.” Divide com a mãe, senhora de 73 anos, e as irmãs. O resto vai bem, sem os movimentos das pernas, das mãos e parcialmente dos braços. “A vida não é melhor hoje, mas é feliz. Antes eu a atropelava, não vivia”, afirma o escritor e ganhador da medalha de prata no campeonato de bocha adaptada. É, ele joga também, sai, já teve três namoradas depois do acidente, mostra que é capaz e muito, de levantar a bandeira contra o preconceito de que são incapazes, assexuados, coitadinhos. “As pessoas têm a mania de querer ajudar, quem precisa aprender é o próprio deficiente.” Estão aí como qualquer um, com seus problemas, com seus desejos. “O sonho primário do paraplégico é andar e do tetraplégico é ser paraplégico”, diz Nardélio. Nem sempre, a vida encarrega-se de transmutar sonhos. A nadadora Letícia Fernandes garante que não é o dela, torce para que as pesquisas com células-tronco ajudem os deficientes físicos, mas não tem a pretensão de voltar a andar. “Não sei se me adaptaria, porque houve mudanças no meu corpo. Bastaria a mim poder experimentar novamente algumas sensações como a textura da terra, da grama, da cerâmica fria ou do asfalto quente.” Não há novela tão emocionante quanto a vida é, bruta, lapidada, sensível, real, aí para ser encarada de frente, de cadeira de rodas. |
Lesões medularesParaplégico Tetraplégico |
Quando mais ocorre- Acidentes de carros- Ferimentos por arma de fogo - Queda - Mergulho em águas rasas |
O que querem- Portas mais largas- Rampas de acesso ou elevadores - Balcões de recepção e caixas eletrônicos mais baixos - Respeito às vagas reservadas a deficientes nos estacionamentos - Vê-los como pessoas normais, não coitadinhos - Não os ajudarem, só quando pedirem |