Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Saúde

Geração fofura

Obesidade infantil ganha contorno de epidemia no Brasil. Chegou a hora de os pais assumirem sua grande fatia de responsabilidade no problema

Texto: Fernando Torres | Fotos: Victor Schwaner e Daniel de Cerqueira


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Arte: Paulo Warner

A situação é alarmante. Segundo o Ministério da Saúde, 12% das crianças e adolescentes brasileiros estão acima do peso. Só em Belo Horizonte, em cinco anos, o número de crianças obesas aumentou em 2%, e com sobrepeso, 5%, conforme estudo do núcleo de pós-graduação em pediatria da UFMG. Devido a esse quadro, doenças que antes só eram diagnosticadas em adultos acima de 40 anos já têm sido vistas na infância – a saber, diabetes tipo 2, hipertensão e alterações do nível de colesterol, sem falar em baixa autoestima e depressão. Não à toa, a obesidade infantil é considerada um distúrbio crônico, carregado pelo resto da vida. Uma epidemia global, sem dúvida, como declarou a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1998.

Pergunta óbvia: como e por que a situação chegou a esse ponto? Não há uma única resposta. “Se a criança pertence a uma família com tendência à obesidade, as chances de ela desenvolver a doença são muito maiores. Mas um estilo de vida sedentário e a má alimentação se expressam de forma mais forte”, contrapõe o pediatra Joel Lamounier, especialista em nutrologia pediátrica e professor da UFMG. Já é praticamente um clichê dizer o que é saudável e o que não é. Mas, neste caso, não custa repetir. Na prática, significa trocar um bom prato de arroz, feijão, carne, salada, suco natural e fruta de sobremesa por hambúrguer, batata frita, refrigerante e sorvete. Soa familiar? Então, cuidado ao ler a frase seguinte – pode doer. “Os pais ou cuidadores são os maiores responsáveis pelo problema. Há muita permissividade em detrimento da qualidade da alimentação, além de indisciplina em relação aos horários”, aponta a nutricionista Ermelinda Lara.


Glaison Pereira: 15 quilos a menos após tratamento
Glaison Pereira: 15 quilos a menos após tratamento

Fora do eixo familiar, outro vilão se avizinha: a hora do recreio. Nas instituições públicas, a merenda é praticamente um almoço. “O cardápio das escolas públicas é inóspito. É responsabilidade dos governantes instituir uma merenda saudável”, contesta Ermelinda. Já nos colégios particulares, a cantina é cheia de atrativos calóricos como refrigerantes, salgadinhos de pacote, frituras e doces. No início de 2009, surgiu um projeto de lei que visava restringir a venda de tantas guloseimas. “Enquanto isso não aconte­ce, os pais devem se esforçar para colocar na lancheira sanduíches naturais, frutas, sucos e barras de cereal”, fri­sa a en­docrinologista Roberta Ro­cha, responsável pelo Am­bu­latório de Obe­sidade na In­fância e Adolescência da San­ta Casa de Belo Hori­zon­te.

Não é exatamente o que acontece no dia-a-dia de Carolina Novais, 11 anos, estudante do sétimo ano (antiga 6ª série). Ela mede 1,51 m, pesa 70 kg e seu Índice de Massa Corporal (IMC) está em 30 kg/m² (veja quadro), caracterizando obesidade. Mesmo com a insistência da mãe, ela não toma café da ma­nhã, mas, na hora da merenda, às 9h40, costuma comer um prato de macarrão ou arroz doce, oferecidos pela escola. E, lá pelo meio-dia, almoça normalmente. “Ao mesmo tempo em que ela cresce na altura, também engorda”, preocupa-se a mãe, a comerciante Dircelene Novais.


Entre os adultos, as causas psicológicas são apontadas como fator de obesidade. Porém, segundo o psiquiatra Alessandro Loiola, autor do livro Crianças em Forma – Saúde na Balança, elas não são tão relevantes na infância. “Ao contrário dos adultos, a maior parte das crianças não descarrega sua ansiedade na comida. Elas descontam isso com birra, pirraça e desobediência”, afirma. Isso não significa que os problemas emocionais devam ser totalmente descartados. “Muitas vezes, a criança ansiosa é resultado de pais relapsos, que não lhe dão atenção suficiente. Possivelmente, ela irá se transformar em um adulto ansioso e, aí sim, poderá ter problemas com peso”, explica Loiola.

Carolina Novais: dieta para perder gordura e crescer
Carolina Novais: dieta para perder gordura e crescer

Mas há controvérsias. A barreira entre relapso familiar e ansiedade é mais tênue do que se imagina. Glaison Pereira de Souza é um exemplo de que essa perigosa associação pode provocar quadro de obesidade. “Com oito anos, meus pais bebiam muito e viviam discutindo. Ficava muito angustiado com essa situação e acabava me empanturrando de comidas calóricas. Comer tornou-se uma espécie de obsessão”, relembra. Em sua lista, entravam coxinha, chocolate, refrigerante, miojo, leite condensado, doce de leite, bolo e batata frita. Para piorar, o histórico familiar do garoto não era dos melhores (o pai é um pouco obeso). A balança não deixou por menos: aos 13 anos, Glaison atingiu 148 quilos, com aproximadamente 1,57 m de altura. Seu IMC estava em torno de 59 kg/m², o que caracteriza obesidade mórbida.

Por fim, temos a questão do sedentarismo. É evidente que as crianças de hoje passam muito mais tempo em frente ao computador ou à TV, em vez de, por exemplo, andar de bicicleta ou brincar de bola. Portanto, praticam pouca atividade física. “O tempo diante da TV ou do computador deve ser restringido a menos de duas horas diárias. Estudos mostram que crianças que passam mais de quatro horas diante de uma tela tendem à obesidade grave”, declara a endocrinologista Roberta Rocha. Além dos problemas com sedentarismo, esse mau hábito faz com que os pequenos comam alimentos mais calóricos sem ter consciência disso.

A boa notícia é que o problema tem solução. Falemos, então, de tratamento. A obesidade infantil é uma doença e deve ser tratada como tal. Portanto, o primeiro passo é procurar uma avaliação médico-nutricional. A partir daí, o profissional irá diagnosticar as raízes do problema e estabelecer a melhor forma de corrigi-lo. A maioria das pessoas tem a ideia de que obesidade se resolve com regimes espartanos. E aí vem o desânimo. Na verdade, a estratégia nutricional é uma nova educação alimentar, com a substituição de alimentos calóricos pelos de menor nível energético. Noutras palavras, isso significa mudança de hábitos, que devem ser seguidos para o resto da vida. É como se fosse uma fórmula matemática: ingere-se menos e gasta-se mais, mas dentro de um cardápio variado. “Não costumo recomendar dietas radicais. Vez ou outra deve haver algumas regalias, para que haja maior adesão do paciente”, orienta a endocrinologista Roberta Rocha. “A criança deve sentir prazer em comer e não comer por prazer”, completa o pediatra Joel Lamounier.

A endocrinologista Roberta Rocha condena dietas radicais
A endocrinologista Roberta Rocha condena dietas radicais

Entre essas mudanças de hábitos, está o fracionamento das refeições de três em três horas. Isso mantém o metabolismo atuante e evita que a criança chegue à próxima refeição com muita fome. Em tempo: esse cardápio fragmentado deve ser orientado. Caso seja feito independentemente, há grande probabilidade de os lanches serem recheados de guloseimas. Asso­ciado à alimentação saudável, a criança também deve praticar atividade física pelo menos uma hora por dia, cinco vezes na semana.


Há muitos obstáculos nesse processo que desencadeiam na interrupção do tratamento. Todos os profissionais entrevistados concordam que a maior dificuldade é a conscientização familiar. Qual é a criança que tem vontade de comer uma salada enquanto os irmãos se empanturram de batata frita? Portanto, toda a família tem de estar envolvida no processo, não apenas para tratar, mas também para prevenir, garantindo um ambiente satisfatório. Além disso, muitos pais querem tratamento rápido e acabam desanimando quando o filho não perde peso. A nutricionista Ermelinda Lara alerta que, no caso específico das crianças, esse não deve ser o objetivo, pois elas estão em fase de crescimento. “Nossa preocupação é que o paciente transforme gordura corporal em crescimento, isto é, cresça de forma satisfatória, preservando a massa magra e muscular.” Assim, o que ocorre com mais frequência é simplesmente a manutenção do peso.


Porém, crianças excessivamente obesas devem, sim, diminuir os dígitos da balança. É o caso de Glaison, já citado nesta reportagem. Há dois anos, as professoras Maria de Fátima Chaves e Maria dos Anjos Amaral o incentivaram a procurar tratamento. Mais que isso: acompanharam-no sistematicamente nas consultas. Nos últimos meses, Glaison conseguiu resultados expressivos. Atualmente com 16 anos e 1,61 m, ele reduziu seu peso de 148 kg para 133 kg. Só em outubro, perdeu 7 kg. Uma vitória! Sua meta é chegar aos 80 kg – as expectativas de sucesso são grandes.


A propósito, a reportagem de Viver Brasil testemunhou o primeiro dia de tratamento de Carolina Novais, também já citada. Depois da entrevista com a médica, o diagnóstico: sua meta seria reduzir o peso de 70 kg para 48 kg. Porém, como ela está em fase de crescimento, o tratamento, mais maleável, visa perder gordura e crescer de forma satisfatória. Na primeira consulta, a mãe mostra que está disposta a colaborar. “Espero que ela consiga descobrir os motivos que a estão levando a engordar e tenha base para fazer uma readaptação alimentar.” É o primeiro passo: o início de uma mudança de hábitos alimentares e uma vida mais feliz e saudável.

Medicamentos

- Quando o paciente não consegue perder peso por meio da re-educação dos hábitos, pode entrar em ação o tratamento medicamentoso. A endocrinologista Roberta Rocha lista as duas drogas liberadas pelo órgão norte-americano Food and Drug Administration (FDA): “A Orlistat pode ser usada a partir dos 12 anos e inibe a absorção de gorduras pelo intestino. Já a Sibutramina, receitada apenas acima dos 16 anos, age no cérebro, liberando hormônios que promovem a saciedade. ” Vale frisar que os remédios não são indicados para qualquer paciente e devem ser usados apenas como última alternativa.”

- A cirurgia bariátrica, considerada a fórmula mágica para resolver a obesidade, ainda rende muita discussão entre os especialistas. No Brasil, ela não é autorizada para menores de 18 anos.

Como calcular o IMC

Por meio do Índice de Massa Corporal (IMC) é possível determinar o nível de obesidade da criança. Ele determinado pela seguinte fórmula:

Peso do corpo em kg / Altura x altura

Fique atento para os seguintes resultados:
< > Igual ou menor que 18 kg/m² – abaixo do peso
< > Entre 19 kg/m² e 24 kg/m² – peso normal
< > Entre 25 kg/m² e 26 kg/m² – sobrepeso
< > Entre 27 kg/m² e 39 kg/m² – obesidade
< > Igual ou acima de 40 kg/m² – obesidade mórbida

Fonte: Crianças em Forma – Saúde na Balança, do psiquiatra Alessandro Loiola

 

Obesidade x sobrepeso

Obesidade – excesso de gordura no organismo
Sobrepeso – excesso de peso corporal em relação à altura

À mesa com Maysa

A reportagem de Viver Brasil acompanhou por um dia as refeições de Maysa Fernanda Siqueira Prata. Ela tem 8 anos, cursa o 3º ano do ensino fundamental (antiga 2ª série), tem 1,35 m e 53 kg. Seu Índice de Massa Corporal (IMC) é 29 kg/m², o que caracteriza obesidade. A nutricionista Ermelinda Lara comenta as escolhas alimentares da garota e sugere alterações viáveis no cardápio

9h  - Desjejum

- 1 pão de sal com 2 rodelas grandes de mortadela
- 1 copo de suco natural de acerola
- [Às vezes, come biscoito recheado]

Comentário: O suco natural está corretíssimo, principalmente porque foi preparado na hora. A sugestão é substituir o pão de sal por duas fatias de pão integral, que tem mais nutrientes, ou, eventualmente, por granola e aveia. Já a mortadela é uma péssima opção. Ela deveria trocá-la por um queijo magro, como mussarela light ou queijo minas frescal. Evitar biscoitos é a decisão mais acertada: dois biscoitos recheados têm a mesma caloria que 1 pão de sal

12h20  - Almoço

- 2 conchas de arroz
- 1 concha de feijão
- ½ concha de moranga refogada
- 2 colheres (sopa) de salada de tomate com cenoura
- 1 pedaço médio de tucunaré assado
- 1 copo de suco natural de acerola

Comentário: Em geral, acertou. Mas faltou incluir uma folha verde escura, como couve, rúcula ou espinafre. A refeição também fica bem sem a cenoura, que tem os mesmos nutrientes da moranga. O ideal é que o conjunto tenha cinco cores diferentes (roxo, verde, amarelo, vermelho e branco), no mínimo, três. Uma ideia: arroz com brócolis

14h40 - Merenda escolar

- 4 colheres (sopa) de espaguete ao sugo com pedaços de salsicha

Comentário: O prato tem nível zero de nutrientes, mata a fome, mas não alimenta. No entanto, se não houver outras opções, sugere-se que ela diminua a quantidade ingerida pelo menos para a metade. Para não ficar com fome, leve uma fruta de casa, lembrando-se de variar a cada dia

18h - Lanche

- 1 pão de sal com 1 rodela grande de mortadela
- 1 copo de vitamina de abacate

Comentário: Tem os mesmos problemas e virtudes do desjejum. Pelo visto, o consumo de embutidos, como a mortadela e a salsicha, é bem frequente. Deveria ser drasticamente reduzido. A alternativa à vitamina é iogurte ou leite desnatado vitaminado (Vitamina D).

20h - Jantar

- 1 concha de arroz
- 1 concha de feijão
- 1 coxa de frango
- 2 rodelas de tomate
- 2 colheres (sopa) de carazinho refogado
- Suco natural de abacaxi : 7 colheres (sopa) de açúcar foram usadas para adoçar a jarra de suco

Comentário: O cará é um alimento muito calórico. Se utilizá-lo, o princípio é não usar arroz, que é do mesmo grupo energético, o amido (o mesmo vale para batata, mandioca, angu e massas em geral). No que diz respeito à salada, só tomate é muito pouco. Ela deveria inserir outras verduras, como alface e beterraba, deixando o prato mais colorido. Não tem problema usar frango, de preferência, sem pele e assado – os caldos concentram grande quantidade de gordura. O ideal seria reduzir o suco para apenas meio copo e trocar o açúcar por adoçante (cada colher de açúcar tem, em média, 80 kcal; supondo que a jarra serviu quatro pessoas, ela consumiu 140 kcal só na bebida)

Diagnóstico

Para uma criança em fase de crescimento, a dieta de Maysa deveria incluir mais cálcio, isto é, leite ou queijo duas a três vezes ao dia. A ideia é substituir o salame por queijo na maioria das vezes. Ela também deve priorizar mais as cores nos pratos, especialmente nas saladas. Um problema detectado é o horário do jantar. O ideal é fazer um lanche da tarde mais leve e jantar um pouco mais cedo, com um intervalo maior até a hora de dormir. Por fim, como ela já tem feito, evitar frituras e tentar comer alimentos mais cozidos, refogados ou assados.

 
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