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SaúdeGeração fofuraObesidade infantil ganha contorno de epidemia no Brasil. Chegou a hora de os pais assumirem sua grande fatia de responsabilidade no problema
Texto: Fernando Torres | Fotos: Victor Schwaner e Daniel de Cerqueira
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Fora do eixo familiar, outro vilão se avizinha: a hora do recreio. Nas instituições públicas, a merenda é praticamente um almoço. “O cardápio das escolas públicas é inóspito. É responsabilidade dos governantes instituir uma merenda saudável”, contesta Ermelinda. Já nos colégios particulares, a cantina é cheia de atrativos calóricos como refrigerantes, salgadinhos de pacote, frituras e doces. No início de 2009, surgiu um projeto de lei que visava restringir a venda de tantas guloseimas. “Enquanto isso não acontece, os pais devem se esforçar para colocar na lancheira sanduíches naturais, frutas, sucos e barras de cereal”, frisa a endocrinologista Roberta Rocha, responsável pelo Ambulatório de Obesidade na Infância e Adolescência da Santa Casa de Belo Horizonte. Não é exatamente o que acontece no dia-a-dia de Carolina Novais, 11 anos, estudante do sétimo ano (antiga 6ª série). Ela mede 1,51 m, pesa 70 kg e seu Índice de Massa Corporal (IMC) está em 30 kg/m² (veja quadro), caracterizando obesidade. Mesmo com a insistência da mãe, ela não toma café da manhã, mas, na hora da merenda, às 9h40, costuma comer um prato de macarrão ou arroz doce, oferecidos pela escola. E, lá pelo meio-dia, almoça normalmente. “Ao mesmo tempo em que ela cresce na altura, também engorda”, preocupa-se a mãe, a comerciante Dircelene Novais.
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Mas há controvérsias. A barreira entre relapso familiar e ansiedade é mais tênue do que se imagina. Glaison Pereira de Souza é um exemplo de que essa perigosa associação pode provocar quadro de obesidade. “Com oito anos, meus pais bebiam muito e viviam discutindo. Ficava muito angustiado com essa situação e acabava me empanturrando de comidas calóricas. Comer tornou-se uma espécie de obsessão”, relembra. Em sua lista, entravam coxinha, chocolate, refrigerante, miojo, leite condensado, doce de leite, bolo e batata frita. Para piorar, o histórico familiar do garoto não era dos melhores (o pai é um pouco obeso). A balança não deixou por menos: aos 13 anos, Glaison atingiu 148 quilos, com aproximadamente 1,57 m de altura. Seu IMC estava em torno de 59 kg/m², o que caracteriza obesidade mórbida. Por fim, temos a questão do sedentarismo. É evidente que as crianças de hoje passam muito mais tempo em frente ao computador ou à TV, em vez de, por exemplo, andar de bicicleta ou brincar de bola. Portanto, praticam pouca atividade física. “O tempo diante da TV ou do computador deve ser restringido a menos de duas horas diárias. Estudos mostram que crianças que passam mais de quatro horas diante de uma tela tendem à obesidade grave”, declara a endocrinologista Roberta Rocha. Além dos problemas com sedentarismo, esse mau hábito faz com que os pequenos comam alimentos mais calóricos sem ter consciência disso. A boa notícia é que o problema tem solução. Falemos, então, de tratamento. A obesidade infantil é uma doença e deve ser tratada como tal. Portanto, o primeiro passo é procurar uma avaliação médico-nutricional. A partir daí, o profissional irá diagnosticar as raízes do problema e estabelecer a melhor forma de corrigi-lo. A maioria das pessoas tem a ideia de que obesidade se resolve com regimes espartanos. E aí vem o desânimo. Na verdade, a estratégia nutricional é uma nova educação alimentar, com a substituição de alimentos calóricos pelos de menor nível energético. Noutras palavras, isso significa mudança de hábitos, que devem ser seguidos para o resto da vida. É como se fosse uma fórmula matemática: ingere-se menos e gasta-se mais, mas dentro de um cardápio variado. “Não costumo recomendar dietas radicais. Vez ou outra deve haver algumas regalias, para que haja maior adesão do paciente”, orienta a endocrinologista Roberta Rocha. “A criança deve sentir prazer em comer e não comer por prazer”, completa o pediatra Joel Lamounier. |
Entre essas mudanças de hábitos, está o fracionamento das refeições de três em três horas. Isso mantém o metabolismo atuante e evita que a criança chegue à próxima refeição com muita fome. Em tempo: esse cardápio fragmentado deve ser orientado. Caso seja feito independentemente, há grande probabilidade de os lanches serem recheados de guloseimas. Associado à alimentação saudável, a criança também deve praticar atividade física pelo menos uma hora por dia, cinco vezes na semana.
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Medicamentos- Quando o paciente não consegue perder peso por meio da re-educação dos hábitos, pode entrar em ação o tratamento medicamentoso. A endocrinologista Roberta Rocha lista as duas drogas liberadas pelo órgão norte-americano Food and Drug Administration (FDA): “A Orlistat pode ser usada a partir dos 12 anos e inibe a absorção de gorduras pelo intestino. Já a Sibutramina, receitada apenas acima dos 16 anos, age no cérebro, liberando hormônios que promovem a saciedade. ” Vale frisar que os remédios não são indicados para qualquer paciente e devem ser usados apenas como última alternativa.” - A cirurgia bariátrica, considerada a fórmula mágica para resolver a obesidade, ainda rende muita discussão entre os especialistas. No Brasil, ela não é autorizada para menores de 18 anos. |
Como calcular o IMCPor meio do Índice de Massa Corporal (IMC) é possível determinar o nível de obesidade da criança. Ele determinado pela seguinte fórmula: Peso do corpo em kg / Altura x altura Fique atento para os seguintes resultados: Fonte: Crianças em Forma – Saúde na Balança, do psiquiatra Alessandro Loiola
Obesidade x sobrepeso Obesidade – excesso de gordura no organismo |
À mesa com MaysaA reportagem de Viver Brasil acompanhou por um dia as refeições de Maysa Fernanda Siqueira Prata. Ela tem 8 anos, cursa o 3º ano do ensino fundamental (antiga 2ª série), tem 1,35 m e 53 kg. Seu Índice de Massa Corporal (IMC) é 29 kg/m², o que caracteriza obesidade. A nutricionista Ermelinda Lara comenta as escolhas alimentares da garota e sugere alterações viáveis no cardápio 9h - Desjejum - 1 pão de sal com 2 rodelas grandes de mortadela Comentário: O suco natural está corretíssimo, principalmente porque foi preparado na hora. A sugestão é substituir o pão de sal por duas fatias de pão integral, que tem mais nutrientes, ou, eventualmente, por granola e aveia. Já a mortadela é uma péssima opção. Ela deveria trocá-la por um queijo magro, como mussarela light ou queijo minas frescal. Evitar biscoitos é a decisão mais acertada: dois biscoitos recheados têm a mesma caloria que 1 pão de sal |
12h20 - Almoço - 2 conchas de arroz Comentário: Em geral, acertou. Mas faltou incluir uma folha verde escura, como couve, rúcula ou espinafre. A refeição também fica bem sem a cenoura, que tem os mesmos nutrientes da moranga. O ideal é que o conjunto tenha cinco cores diferentes (roxo, verde, amarelo, vermelho e branco), no mínimo, três. Uma ideia: arroz com brócolis |
14h40 - Merenda escolar - 4 colheres (sopa) de espaguete ao sugo com pedaços de salsicha Comentário: O prato tem nível zero de nutrientes, mata a fome, mas não alimenta. No entanto, se não houver outras opções, sugere-se que ela diminua a quantidade ingerida pelo menos para a metade. Para não ficar com fome, leve uma fruta de casa, lembrando-se de variar a cada dia |
18h - Lanche - 1 pão de sal com 1 rodela grande de mortadela Comentário: Tem os mesmos problemas e virtudes do desjejum. Pelo visto, o consumo de embutidos, como a mortadela e a salsicha, é bem frequente. Deveria ser drasticamente reduzido. A alternativa à vitamina é iogurte ou leite desnatado vitaminado (Vitamina D). |
20h - Jantar - 1 concha de arroz Comentário: O cará é um alimento muito calórico. Se utilizá-lo, o princípio é não usar arroz, que é do mesmo grupo energético, o amido (o mesmo vale para batata, mandioca, angu e massas em geral). No que diz respeito à salada, só tomate é muito pouco. Ela deveria inserir outras verduras, como alface e beterraba, deixando o prato mais colorido. Não tem problema usar frango, de preferência, sem pele e assado – os caldos concentram grande quantidade de gordura. O ideal seria reduzir o suco para apenas meio copo e trocar o açúcar por adoçante (cada colher de açúcar tem, em média, 80 kcal; supondo que a jarra serviu quatro pessoas, ela consumiu 140 kcal só na bebida) |
DiagnósticoPara uma criança em fase de crescimento, a dieta de Maysa deveria incluir mais cálcio, isto é, leite ou queijo duas a três vezes ao dia. A ideia é substituir o salame por queijo na maioria das vezes. Ela também deve priorizar mais as cores nos pratos, especialmente nas saladas. Um problema detectado é o horário do jantar. O ideal é fazer um lanche da tarde mais leve e jantar um pouco mais cedo, com um intervalo maior até a hora de dormir. Por fim, como ela já tem feito, evitar frituras e tentar comer alimentos mais cozidos, refogados ou assados. |