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Reportagem
Catarse
Atitudes do grupo contaminam o indivíduo, seja para o bem ou para o mal. Talvez aí esteja um pouco da explicação do ocorrido com a aluna Geisy Arruda na Uniban
Texto: Ana Magalhães | Fotos: Fotos: Fabrízio Motta/Cícero Valério/Paulo Liebert/AE Arte: Paulo Werner - Fotos: Marcos Rosa
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Os alunos marcham em uníssono. Pé direito e esquerdo batem o chão em perfeita sintonia. “Vocês estão sentindo? É o poder da comunidade”, entusiasma o professor, enquanto entoa o barulho da união. O que era para ser um experimento inocente da aula de autocracia se transforma num perigoso movimento de grupo. A brincadeira começa quando o professor Rainer pergunta a seus alunos se seria possível que a Alemanha revivesse um estado totalitário. “Jamais, somos educados demais”, responde um deles, seguro de que sistemas ditatoriais são coisas do passado e de que a civilização não mais poderia se entregar a um ideal com tanto fervor. Eles estavam enganados. O grupo uniformizado vira febre na escola e o professor perde o controle sobre a situação. Baseado em fatos reais, o filme alemão A Onda (Die Welle, 2008) entrou em cartaz no Brasil num momento que não poderia ser mais apropriado. No dia 22 de outubro de 2009, alunos da Universidade Bandeirantes (Uniban), de São Bernardo do Campo, entraram numa reação em cadeia agressiva e de dar medo. Tudo porque a estudante de turismo Geisy Arruda usava vestido considerado curto demais.
Filme e realidade se misturam. Fazem-nos questionar quem somos, como e por que podemos ter comportamentos como esses. Afinal, somos todos humanos, há em nós algo do que houve nos estudantes da Uniban. Qualquer um em potencial poderia estar ali e seguir o comportamento do grupo, para o bem ou para o mal. Temos que lembrar que no tumulto da Uniban, a maioria gritou e agrediu verbalmente, mas também houve quem protegesse a Geisy e tentasse ajudá-la (no filme alemão houve momentos de solidariedade entre os integrantes do grupo).
A questão da catarse coletiva e do comportamento de grupo vem sendo estudada pela psicologia social há mais de um século. O sociólogo francês Gustave Le Bon (1841-1931) foi pioneiro no assunto ao afirmar que por mais heterogêneo que seja o grupo, cria-se uma espécie de mente coletiva que faz com que os integrantes sintam, pensem e ajam de maneira muito diferente do que fariam se estivessem isolados. O sociólogo francês Émile Durkheim defendia, também no final do século XIX, que a construção do ser social é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios – morais, religiosos, éticos ou de comportamento – que balizam e reprimem a conduta individual. “O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela”, escreveu o fundador da sociologia moderna.
Freud, o pai da psicanálise, aprofundou o assunto, e no princípio do século XX dizia que quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e instintos cruéis, brutais e destrutivos se despertam. É como se os filtros e as repressões sociais, necessárias para o convívio coletivo, caíssem por terra, dando espaço a emoções primitivas. É como se perdêssemos o lado humano e nos aproximássemos da essência bicho. Para a psicanálise, o indivíduo é um poço de desejos reprimidos que no grupo se afloram. “Usa-se o grupo como um meio de extrapolar esses desejos. Em grupo, passa-se muito rápido do pensamento ao ato”, analisa Armando Colognese Júnior, professor e supervisor do departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e autor do livro A trama do equilíbrio psíquico. Nesses momentos, não há um filtro racional controlando nosso comportamento.
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Advogados da estudante Geisy, João Ibaixe e Marcelo Chilelli: dificuldade em identificar responsáveis |
Em grupo, o indivíduo está mais propenso às emoções do que à razão, e termina por fazer coisas que não faria sozinho. Infantilizado e sem o filtro racional em plena atividade, há propensão de um contágio coletivo. “Além da diminuição da racionalidade, há ainda a diminuição da responsabilidade e da culpa”, analisa Anna Mathilde Pacheco, professora aposentada do departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo (USP). A combinação é explosiva. Para bem ou para mal.
Como um ser social, nós fazemos tudo para sermos aceitos pelos outros, mesmo que isso represente ir contra uma crença pessoal. Testes sobre comportamento de grupo realizados na década de 70 nos Estados Unidos apresentaram resultados assustadores. Numa saleta isolada, pesquisadores misturam um voluntário num grupo de seis atores previamente orientados a responderem errado às perguntas. O voluntário não sabe que está entre atores. O professor faz pergunta tão óbvia que uma criança de 7 anos saberia a resposta correta. Ele mostra fichas com desenhos de quatro linhas, onde somente duas são idênticas. Na primeira sequência de desenhos, o voluntário responde corretamente, contrariando a opinião uníssona e equivocada dos atores. Mas já na segunda ficha ele se conforma ao grupo e segue respondendo igual aos demais até o final do teste. Mesmo não acreditando no que os outros respondem, ele segue fielmente o comportamento dos demais.
“O grupo gera consenso para se manter, pressiona o sujeito para a conformação. O sujeito se conforma em prol da aceitação coletiva. Precisamos dos outros para viver”, analisa Ana Bock, professora de Psicologia Social da PUC-SP e uma das mais renomadas especialistas do Brasil. Quando se fala em grupo, fala-se em liderança. Às vezes ela é precisa e determinada. Em outros casos, é difusa e espontânea. “Acreditamos que a liderança seja um lugar e não uma pessoa”, diz Bock.
Apesar de haver vários tipos de liderança, cria-se uma espécie de reação em cadeia que contagia todos os integrantes. O primeiro pontapé pode ser piada, xingamento ou objetivo preestabelecido. É justamente o contágio que explica a declaração feita ao programa Fantástico, da Rede Globo, por Ricardo Ramalho, estudante da Uniban. “Na empolgação do momento também xinguei. Estava todo mundo falando e eu também falei sem vergonha, sem vergonha”, declarou em entrevista. Ele não tem explicação lógica de seu comportamento.
No caso emblemático da Uniban, os advogados criminalistas João Ibaixe e Marcelo Chilelli, que defendem Geisy, têm certeza de que houve liderança, um grupo pequeno de seis ou sete pessoas que começou o tumulto e contagiou os demais. “O difícil em situações como essa é justamente identificar os responsáveis”, afirma Ibaixe. Eles também acreditam que houve uma certa displicência da universidade com relação ao episódio. “Funcionários poderiam ter tentado controlar a situação.”
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Kátia Rubro, da USP: “Quando a palavra de ordem é destrutiva vira um perigo” |
Apesar de o grupo ter uma tendência a gerar atitudes emotivas e pouco racionais, não há necessariamente relação direta entre multidão e violência. “Multidões já fizeram revoluções no sentido positivo, como o caso dos estudantes de 1968, a queda do muro de Berlim, a Primavera de Praga, e até mesmo os caras-pintadas nas ruas pedindo o impeachment do Collor. São reações de massa, desencadeadas por alguém que fala abaixo a ditadura. Agora, quando a palavra de ordem é destrutiva vira um perigo”, analisa a professora de psicologia do esporte da USP, Kátia Rubro, especialista em torcidas organizadas. Ela compara o comportamento violento das torcidas brasileiras ao episódio Uniban. “São ambos contagiados por muita emoção.” Mas ressalta que casos de linchamentos são muito distintos ao que aconteceu com Geisy. “A imprensa comentou que ela foi ameaçada de linchamento, mas nós entendemos o linchamento como outra questão”, comenta.
Kátia se lembra de quando fazia um trabalho com seus alunos na favela Jaguaré, na periferia de São Paulo. A creche da comunidade não tinha grades e não ficava sequer trancada. Um dia um ladrão entrou e roubou merenda das crianças e instrumentos da enfermaria. A comunidade ficou tão revoltada que o ladrão só não foi linchado porque apareceu um líder comunitário que conseguiu conter o tumulto. E ele só evitou o desastre porque pediu ao ladrão que devolvesse os objetos roubados e que ele jamais poderia voltar à comunidade.
“O linchamento é desencadeado por um comportamento ilícito ou imoral de alguém. Em geral, o sujeito que é linchado praticou algum tipo de crime ou fugiu das regras de um determinado local, o que gera revolta muito grande no grupo afetado. Mas no caso da Geisy ela não cometeu nenhum crime e nenhum ato imoral”, explica Rubro.
Documentário da BBC de Londres sobre terroristas, chamado Homens-bombas, uma investigação psicológica, usa o comportamento de grupo para explicar atos de violência. Um dos especialistas entrevistados investiga traços psicológicos comuns nos terroristas de 11 de setembro e de 7 de julho, que explodiram uma estação de metrô em Londres. Ele chega à impressionante conclusão de que os terroristas não tinham nenhum desvio psíquico – eram calmos e amáveis no ambiente familiar – e apresentavam uma variedade impressionante de origens sociais. O único ponto em comum nesses indivíduos é que todos se encontravam fora do país de origem e do ambiente familiar quando entraram em células terroristas. A célula terrorista se aproveitara dessa situação de fragilidade para criar um ambiente familiar e de proteção grupal. Os estudiosos chegam à conclusão de que qualquer um, inserido no contexto certo e na hora certa, poderia se tornar homem-bomba.
Ante conclusões assustadoras como essas, é difícil jogar a primeira pedra. Afinal, somos todos humanos, estamos em grupo e podemos nos encontrar em situações de contágio coletivo e de baixa racionalidade. “É o poder da comunidade”, diria o professor do filme A Onda. Mas ter consciência da diminuição da razão e da vulnerabilidade do indivíduo quando está em massa pode ser o primeiro passo para que histórias como a de Geisy não se repitam.
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