Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Mercado Imobiliário

Mil moradores, mil interesses

Com a onda dos condomínios verticais onde milhares de pessoas convivem em áreas comuns, saber contornar os conflitos é o mais difícil entre os desafios

Texto: Renata Turra | Fotos: Pedro Vilela e Alexandre C. Mota


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Henio Fontes: “O caminho é solucionar os impasses com diplomacia”

Já dizia o poeta Mário Quintana: "A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!". É verdade. Dividir o mesmo espaço nunca foi tarefa fácil. Que o digam aqueles que, por motivos variados, optaram por morar em grandes condomínios de prédios e compartilhar com centenas de vizinhos o elevador, a garagem, a mega área de lazer, o salão de festas. É preciso uma boa dose de tolerância e respeito ao próximo. E muita (mas muita mesmo) educação.

Uma receita que a fisioterapeuta Andrea Lucena Sales segue à risca. Ela mora com o marido num condomínio de quatro prédios que soma, ao todo, 264 apartamentos. Para usufruir sem problemas da área de lazer, que além dos itens tradicionais conta com academia de ginástica, churrasqueira e quadra de squash, só mesmo com muito senso de cidadania. “Só há confusão quando um invade o espaço do outro”, diz ela.


Para que isso não aconteça, o condomínio, que é administrado por uma empresa especializada, tem suas estratégias. “Atleticanos e cruzeirenses contam com salas de televisão separadas para assistir aos jogos”, diverte-se Andrea. A fiscalização das áreas comuns também é reforçada. Da garagem à piscina, todos os espaços disponíveis para uso coletivo contam com um funcionário para evitar abusos e garantir que os moradores sigam as regras.


Mas nem todo lugar funciona dessa forma. "O desafio dos grandes empreendimentos que agregam cada vez mais serviços e opções de lazer é administrar as pessoas", salienta a consultora condominial Lucélia de Andrade Cardoso.


Andrea Sales: “Só há confusão quando um invade o espaço do outro”
Andrea Sales: “Só há confusão quando um invade o espaço do outro”

E coloca desafio nisso. Olhando para os lançamentos mais recentes das construtoras, a impressão que se tem é de que a tendência de verticalização chegou ao seu ponto máximo. Há condomínios em Belo Horizonte que chegam a ter mais de 300 apartamentos e média de 1.200 moradores. "São ajuntamentos de pessoas com temperamentos e interesses diferentes", lembra Lucélia.


Quanto mais gente, maiores os conflitos. "Existe sempre um jovem que quer levar a turma para a piscina, fazer festa em horários não permitidos ou utilizar a garage band de forma inadequada, e que acaba desrespeitando o direito dos outros", exemplifica.


Nessas horas, a estratégia das empresas modernas de gestão de condomínios é seguir a linha do diálogo e da conscientização coletiva. Problemas como lixo jogado pelas janelas, por exemplo, merecem campanha educativa, que pode ser feita com circulares para enfatizar normas e procedimentos.  "O melhor é apaziguar conflitos de forma didática em vez de marginalizar quem infringiu as regras", diz a consultora.


Regras, aliás, que precisam estar muito claras na convenção e no regimento interno do condomínio. “O primeiro passo para evitar problemas de convivência é criar um regimento que considere a realidade do empreendimento, o que inclui a quantidade e o perfil dos moradores. No caso dos grandes condomínios, o ideal é que cada item de lazer ou de serviço disponível para uso coletivo tenha sua própria norma, como a piscina e o espaço gourmet”.

Lucélia Cardoso: “O desafio é administrar as pessoas”
Lucélia Cardoso: “O desafio é administrar as pessoas”

Uma boa dica é contratar síndico profissional em vez de eleger um morador. “Isso evita que a pessoa sofra os desgastes inerentes à função e perca o prazer de viver ali”, reforça Lucélia.


Mesmo com todos os cuidados, muitas vezes as brigas entre vizinhos são inevitáveis. “Há pessoas pouco receptivas ao diálogo e à conciliação. Nesses casos, a solução é aplicar as punições previstas na lei”.


Uma medida que o professor Henio Loures Fontes, síndico há seis anos do edifício onde mora, tenta evitar. Em 15 anos de função (foi síndico por nove anos no prédio onde morava anteriormente) escuta reclamações de todo tipo. Do morador que insiste em invadir a vaga de garagem do vizinho para apertar os três carros num espaço onde só cabem dois ao que reserva o salão de festas e extrapola na altura do som. Passando, ainda, por aquele que não abre mão de utilizar a quadra de peteca justamente no horário em que a turma do andar de cima reservou para praticar o esporte. "O regimento interno não consegue amarrar todas as questões. O caminho é ser político e tentar solucionar os impasses com diplomacia", afirma Fontes.


Para tornar o convívio entre os vizinhos mais harmonioso, a esposa, Lúcia Bomfim Pereira Fontes, e os três filhos se empenham em ajudar. Nos meses em que há datas comemorativas como dias das Mães, dos Pais ou das Crianças há sempre um cartaz exposto no pilotis com fotos dos moradores, feito por Lúcia. Foi ela quem teve a iniciativa também de organizar grupo de mulheres para rezar o terço. Cada semana se reúnem na casa de uma delas. “A intenção é tratar a comunidade do prédio como uma grande família”, diz Lúcia. Afinal, nada é mais eficaz do que manter a política da boa vizinhança.


 
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