Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Artigo

O que o ressentido não pode esquecer?

O que o ressentido não pode esquecer, o ponto exato onde o nó se atou é, na realidade, a sua falta de atitude no momento certo

Texto: Fátima Rabelo
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Fátima Rabelo - Psicóloga

“O ressentimento é um veneno que tomamos esperando que o outro morra.” (Shakespeare)

O ressentimento é um sentimento sempre avassalador na vida de qualquer pessoa. Uma dor permanente que aprisiona e paralisa. Não se trata aqui de situações em que a pessoa é mesmo vítima de injustiças, sejam elas sociais ou relacionadas à experiência de perdas dolorosas sobre as quais não se tem nenhum poder de intervenção. Trata-se de uma determinada maneira de ser nas relações.

Muitas vezes, ressentir-se pode significar atribuir unicamente ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Ao atribuir o seu sofrimento a um outro, o indivíduo ressentido estabelece uma servidão inconsciente, concentrando-se e ampliando seu sofrimento, numa espécie de autointoxicação permanente.

(Re) sentir é sentir novamente, uma constante atualização da situação passada. A psicanalista Maria Rita Kehl, em seu livro Ressentimento, define o ressentido, não como alguém incapaz de esquecer, ou de perdoar, mas alguém que não quer esquecer, não quer perdoar, não quer deixar barato o mal que o vitimou

Leve ou mais profundo, o ressentimento possui uma característica que pode se constituir numa armadilha para a vida do indivíduo: tornar-se escravo da sua impossibilidade de esquecer e, portanto, de se abrir para o novo.

O que o ressentido não pode esquecer, o ponto exato onde o nó se atou é, na realidade, a sua falta de atitude no momento certo. Uma reação que respondesse, à altura, o mal sofrido. E, na ausência de um ato, a pessoa se congela numa posição de fragilidade, de uma certa covardia moral.

Por não ter assumido uma posição perante o outro que o vitimou, ele passa a vida a ruminar, em um esforço psíquico, para se manter na posição de vítima privilegiada, não se responsabilizando por suas escolhas. O que geralmente não é percebido é que há um ganho secundário na posição do ofendido. O bonzinho, o que não responde pode, na verdade, ser aquele que não se implica. Que se exime da sua responsabilidade nesse ou naquele desfecho.


Mas o ressentimento tem ainda outra faceta curiosa: quando vem de uma boa ação e não de uma ofensa.  Quantas vezes já não escutamos histórias de pessoas que de uma maneira ou de outra ajudaram outras pessoas e, ao invés de receberem gratidão, acabaram por colher ressentimentos.


Na verdade, a posição de ser ajudado, pode aguçar no indivíduo um sentimento de inferioridade, de valer menos que o outro. Sentindo-se inferiorizado em relação à posição de superioridade de quem o ajuda, pode criar um ressentimento justamente contra quem o ajudou. Na ofensa ou na ajuda o ressentimento é a dor que sentimos ao perceber a nossa falha, a nossa impossibilidade, que, por alguma razão, não demos conta de nos implicar. Quem sabe o que o ressentido não possa esquecer é de tentar entender qual é a sua participação naquela dor.

 
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