Terça, 22 de Maio de 2012
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Turismo

Cuba quase libre?

Maior ilha do Caribe vive momento único: 50 anos após a revolução, entra para o roteiro cult dos ricos e famosos das Américas e Europa

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Renato Cobucci


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Apague da mente as referências antigas de Cuba: velhos carros rabos-de-peixe da década de 1950, os prédios seculares do centro histórico carentes de reforma, a fuga de pessoas em barcas improvisadas rumo a Miami, o rum e os charutos que são cobiçados por apreciadores do mundo todo. A Cuba pós-Fidel, depois que El Comandante, como é chamado o presidente por seus patriotas, licenciou-se do cargo em 2006 por motivos de saúde, vive momento crucial de sua história. Sob o comando de Raúl Castro, irmão de Fidel, que de presidente interino tornou-se oficialmente o líder máximo, em 24 de fevereiro de 2008, Cuba vive novos ares. Seus símbolos também se renovam. Basta observar as ruas de Havana, a capital e cidade mais populosa da maior ilha do Caribe: carros zero km de marcas como Peugeot, Honda, Toyota, Kia, Citroën, Hyundai, Audi trafegam pelas largas avenidas em meio aos Cocotaxis, pequenos triciclos que transportam até dois turistas por vez, e, claro, ao lado do símbolo de Cuba: os carros antigos. Porém, até esses imponentes veículos mudaram: a maioria está reformada, apresentam-se novinhos, com pinturas reluzentes e coloridas, alguns adesivados. Nos bares, restaurantes, lojas de conveniência e hotéis pode-se encontrar o que antes era inimaginável: latinhas de Coca-Cola (vindas do México) e Tabasco, a pimenta mais famosa dos EUA. Re­sultado de uma importação cruzada, que dribla o bloqueio econômico norte-americano.


Em junho deste ano, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou, por consenso, a anulação da resolução de 1962, que expulsava Cuba da organização. Com isso, todos os governos restabeleceram contato com a ilha – claro, com exceção dos EUA. Raúl Castro aprovou medidas que também melhoraram mundialmente a imagem do país: liberou a compra de celulares, DVDs e computadores; permitiu que cubanos se hospedem em hotéis, e promoveu a revisão de alguns casos de pena de morte. Existe, ainda, a promessa de liberar viagens ao exterior, sem que haja prévia-autorização, medida ainda não implementada. Para dei­xar a ilha, todo cubano precisa passar pelo crivo do governo, e tem prazo limi­te de 11 meses para retornar. Caso não volte, perde-se automaticamente a casa e a cidadania. Para o povo cubano, o momento atual se resume em uma palavra: esperança. Quando questionado sobre as privações, pobreza e sofrimentos que passaram durante tantas décadas, qualquer cidadão tem com­portamento parecido: com um sorriso tímido, encerra o assunto com éste és mi país. Ex­trema­men­te alegre e cordial, o cuba­no é o seu melhor produto: o que aju­da, muito, a incrementar a economia. Os que trabalham diretamente com o turismo são, na maioria, poliglotas: dominam bem o inglês e o francês. Aliás, os turistas que aportam na ilha são outros, fazem a linha cult. A gran­de maioria é formada por canadenses, espanhóis, russos, argentinos, pe­ruanos, alemães e franceses.

Embora seja banhada pelo Atlân­tico, Havana não tem boas praias. A mais próxima, a de Jibacoa, fica a 22 km da capital, em Santa Cruz do Norte. A mais famosa é a de Varadero, a 142 km de Havana, onde se concentram dezenas de hotéis e resorts cinco estrelas, todos no sistema all inclusive, que funcionam 24h com open bar e restaurante. Redutos de ricos e famosos das Américas, Ásia e Europa. Na parte banhada pelo mar do Caribe há paradisíacas praias e a cobiçada Ilha da Juventude.

Na Ha­bana Vieja, a parte mais antiga da capital, é clara a divisão entre a nova e antiga Cuba: a área que foi restaurada é onde se encontram os monumentos mais visitados como a catedral, igreja de São Fran­cisco; museus Del Ron Havana Club, do Chocolate, da Força Real, da Fun­dação de Havana e os famosos bares La Bodeguita Del Medio e La Floridita, points preferidos do escritor Ernest Hemingway nos 20 anos em que vi­veu na ilha. Há sofisticados bares com mesas na calçada, tabacarias com os melhores habanos, hotéis de luxo, jardins bem cuidados, limpeza impecável. Ali não é permitido trânsito de automóveis, o que torna as ruas um convite a caminhadas.

Entretanto, é na área ainda degradada que respira o verdadeiro país dos cubanos. Ruas estreitas e mal iluminadas, muita sujeira, fachadas enegrecidas por mofo, pontuadas por varais de roupas, lixo, cães e gatos abandonados, carros velhos, rádios e TVs no volume máximo. É comum, no fim de tarde ou pela manhã, os moradores sentarem-se nas calçadas, onde ficam jogando dominó – passatempo preferido – ou conversando. É ritual curtir o pôr-do-sol tomando rum, tocando violão ou namorando sobre a mureta do Malecón, a avenida beira-mar. Estender o privado ao público tem explicação: o ar extremamente úmido, por volta dos 80%, e o calor que passa dos 30ºC tornam quase impossível conviver dentro das casas, verdadeiros cortiços onde se amontoam, em mé­dia, de 5 a 8 pessoas entre 2 ou 3 cômodos apertados. A meninada, recém-chegada da escola, ainda uniformizada, ajuda a colorir a rua nas brincadeiras de bola e pique-esconde. Na rua Concórdia, a família Allin, com o patriarca Solano, a mulher, Maria, e os filhos Carlos e Miriella, assistia à TV num fim de tarde quente. “Muita coisa vai mudar com o Raúl. É o que esperamos”, disse o pai, sorrindo. Dona Maria convida-nos para conhecer a pequena casa, primeiro nível de um sobrado, e mostra, orgulhosa, a cozinha. Quem não é da ilha pode estranhar o porquê de todos os vidros das janelas serem cortados por um x enorme, feito de fita adesiva marrom. Na rota de ciclones e furacões, sem contar as tempestades tropicais, tal recurso, apesar de antiestético, ajuda a proteger a vidraça, reforçando-a.

Para o mineiro Tilden Santiago, assessor es­pecial da presidência da Companhia Ener­gética de Minas Gerais (Cemig) que foi embaixador do Brasil em Cuba de 2003 a 2006, o país caribenho passa por um processo positivo de mudanças. “Estava na ilha naquela noite de 31 de julho de 2006, quando, no programa de maior audiência da TV, foi anunciado que Fidel Castro deixava o cargo por motivos de saúde. Houve consternação geral, um sentimento que durou dias. Fidel é realmente venerado pelos cubanos”, lembra o ex-embaixador. Na manhã seguinte, o brasileiro reuniu-se com os demais embaixadores da Argentina, Uruguai, Venezuela e Espanha. Havia um temor de que alguns cubanos procurassem as embaixadas, para se exilarem. “Acháva­mos isso. Entretanto, não houve nenhuma invasão. Isso mostra o quanto o povo respeita e acredita no seu líder.” Santiago diz que o cubano tem valores que são mais da ordem do ser que do ter. “Um país que atravessa uma revolução, acaba com o analfabetismo e tem 98% dos jovens nas faculdades é um exemplo. Sem contar que na área de pesquisa científica e na medicina eles são muito adiantados. Eles têm limitações que precisam ser sanadas, mas que, agora, com Raúl Castro, um homem pragmático e de alta competência administrativa, caminham para se resolver.”

Maribel Acosta Damas, 47 anos, jornalista da TV Cu­ba­na (es­tatal) e professora da faculdade de comunicação da Uni­ver­sidade de Havana, diz que há um mito de abertura com Raúl Castro, quando há continuidade ao trabalho de Fidel. “Vivemos um cenário global de abertura econômica muito maior, que vem ocorrendo nos últimos dez anos. Estamos mudando de uma economia produtiva para uma de serviços. Há uma integração maior de Cuba com a América Latina. O governo de Lula, no Brasil, se tornou uma voz importante para defender mundialmente Cuba.” Para a jornalista, com a posse de Barack Obama, existe possibilidade de restabelecer um diálogo EUA-Cuba.

Sobre os velhos valores e notícias depreciativas de Cuba que são divulgados por agências de notícia e pela imprensa norte-americana, Maribel Damas diz compreender o que chama de “perseguição ao regime”. “Por ignorância ou por desconhecimento, eles vendem a imagem de um povo perseguido e sofrido, sem liberdade, que tem uma imprensa que não fala. Atrás de tudo isso há um profundo sentimento de desprezo pelos que fabricam essas inverdades. Meu país não é perfeito, como nenhum outro é. Acredito apenas que merecemos respeito, não só pelos 50 anos de revolução, pois somos um país pequeno que veio de monoculturas e que merece resgatar para si mesmo seu valor, o que não tem preço”, sentencia a cubana. 


 
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