De tão inverossímil, a história ainda produz fascínio. A troca de identidades era quase como a da camisa diária – ora o moço assumia o nome de Marcelo Nascimento da Rocha, noutras Juliano de Souza, também se apresentava como Caio Roberto, Marcelo Eduardo... Foi piloto do narcotráfico, fingiu ser policial aos 17 anos, não foram raras as vezes que se passava por baterista de algum grupo famoso, chegou ao cúmulo de se apresentar durante uma rebelião como integrante da facção criminosa PCC. O golpe ousado foi num Carnaval temporão em Recife, 2001, quando rodeado por belas e famosos, pilotando helicóptero emprestado de usineiro, fingiu ser um dos herdeiros de uma das maiores companhias aéreas do país. Deu entrevista para um apresentador como o falso empresário. Vips, o filme, chega aos cinemas no próximo ano com o ator Wagner Moura como protagonista para mostrar essa faceta deste homem. Mentiroso profissional, estelionatário, Marcelo Nascimento da Rocha é apenas um numa multidão que todos os dias aplica golpes, lesa empresas e pessoas, mente descaradamente e não sente o menor remorso por seus crimes.
A empresária Maria Angélica Alvim sabe bem o que é isso. Ela tenta reaver 950 mil reais aplicados não se sabe onde, mais os juros prometidos, e está respondendo a processos porque foi fiadora do golpista. O acusado é o empresário Lucas Gustavo Solli de Faria que ela conhece desde criança e que diz ter tratado, nos últimos anos, como um filho. Agora, Lucas está sendo investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, com acusações de ter aplicado golpes em pelo menos dez pessoas. O prejuízo chega a alguns milhões de reais. Lucas era sócio com os filhos de Maria Angélica da empresa Yucon Consultoria Financeira. “Ele sempre me dizia que gostaria que eu fosse a mãe dele, que eu era a melhor pessoa que ele conheceu na vida. Eu confiava nele de olhos fechados”, relembra.
Mesmo com uma história se arrastando desde o começo deste ano, quando o empresário parou de pagar suas retiradas mensais, Maria Angélica diz que só procurou a polícia em agosto. Antes tinha a esperança de que tudo fosse se resolver. Começou a conversar com outras vítimas, com funcionários da empresa que não foram pagos, com prestadores de serviço que ficaram sem receber. “A venda caiu dos nossos olhos. Tudo que o Lucas fez foi milimetricamente tramado.”
Por mais duro que possa parecer a quem foi lesado, o delegado Denílson dos Reis Gomes, da Delegacia Especializada de Investigações a Fraudes, afirma que as vítimas contribuem de alguma forma para o golpe. “Quando a pessoa está diante de um assalto, o argumento é o revólver. Não há convencimento. Mas quando lidamos com pessoas amorais e aéticas, elas são ardilosas e se valem de sua aparência física, da ostentação, da esperteza e captam o ponto fraco de suas vítimas. É a própria vítima que repassa o dinheiro para ela, sem coação. E quando a pessoa se vê enganada e cai na real, ela se condena e se pune”, diz.
O consolo – se há algum para quem é vítima – é que homens e mulheres de diferentes classes sociais, sistemas financeiros, empresas consolidadas são enganados diariamente. Gomes relembra de um caso em que empresários eram abordados por uma quadrilha que prometia facilitar contratos de grandes obras junto a um ministério. Os golpistas eram tão sofisticados que montaram um grande escritório, carros de luxo esperavam as vítimas nos aeroportos, especialistas apresentavam projetos minuciosos. Antes de a verba ser liberada, cobravam a título de antecipação um percentual de contratos que poderiam valer milhões. Não tinham qualquer contato em nenhum órgão federal, como se veria depois, e desapareciam sem deixar rastros. Muita gente perdeu grandes somas.
A pena para quem comete um crime de estelionato pode chegar a até cinco anos e, segundo Gomes, se o réu for primário, tiver bons antecedentes, pode cumprir sua pena em regime semiaberto ou aberto. “Não há mágica quando se trata de lidar com golpistas. É preciso ficar atento. Costumo falar para as pessoas terem cautela quando alguém oferece vantagens demais”, ensina o delegado Denílson.
Negócios sempre excelentes e com resultados acima do oferecido pelo mercado são a principal arma, mas não a única quando se trata de golpistas, 8
falsificadores ou estelionatários. Sedutores e com inteligência acima da média, ótima aparência, traquejo e repertório verbal sofisticado, eles contam mentiras com tamanha propriedade que é comum chegarem às delegacias e tentarem convencer policiais que não cometeram os crimes. “Eles têm uma autoconfiança tão grande que a ousadia não tem limites”, afirma o delegado.
Apesar de ser a principal arma, é bom deixar claro que contar uma mentira não é privilégio de golpistas. O psicólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), André Luiz Freitas Dias, afirma que é fato: as pessoas – todas, sem exceção – mentem. “Mentir é uma prática cultural.
Independentemente das razões, a mentira tem duas funções, serve para que as pessoas se esquivem de algo que as incomoda ou tentem conseguir benefícios”, diz. O problema, segundo ele, é quando essa mentira começa a atrapalhar quem mente ou o grupo social. A grande questão que envolve um mentiroso que lesa outra pessoa é que além de possíveis benefícios materiais, seu comportamento pode estar intimamente ligado ao ego, ao poder. “É o pensamento de quanto mais envolvo as pessoas na minha trama, mais me afirmo enquanto uma pessoa capaz de manipular outras, de fornecer uma série de informações que as tornam dependentes de mim. E essa situação acontece nos mais diversos meios e contextos”, afirma o psicólogo.
Não há limites, como conta a escritora e jornalista Mariana Caltabiano, que passou um ano visitando o golpista Marcelo Nascimento da Rocha, em uma cadeia no Paraná, em 2004. A ideia era produzir material que resultaria no livro Vips – Histórias Reais de um Mentiroso, lançado em 2005, e no documentário e filme Vips, dirigido por Toniko Melo e produzido por Fernando Meirelles, da O2 Filmes. A princípio, Mariana ofereceu a Marcelo um percentual da venda dos livros. Ele por sua vez disse que não queria nenhum dinheiro. Passou algum tempo e parece que Marcelo pensou melhor, mas em vez de abrir o jogo na primeira entrevista para o trabalho disse que tinha sido visitado pelo cineasta Roberto Farias e que ele havia oferecido 30 mil reais para fazer o filme. “Na hora gelei, não queria perder aquele trabalho, falei que ele havia assinado o contrato comigo. Ele me disse que podia anular o contrato, que não havia multa e me ofereceu o telefone do Roberto Farias, que só dava caixa postal, para eu confirmar a história. Mudei o contrato e chegamos a um acordo. Marcelo se tornou o meu sócio na venda do livro”, conta Mariana. A surpresa viria momentos depois, no início da entrevista. “Perguntei: Marcelo, como você faz para enganar as pessoas? E ele respondeu sorrindo: ‘da mesma maneira que eu fiz com você... eu não a convenci hoje?’. Fiquei passada”.
A paciência é outra arma desses golpistas que por vezes esperam meses até ganhar a autoconfiança da vítima. Foi o caso da empresária M., que também se diz lesada pelo empresário Lucas Gustavo Solli de Faria. Foi a partir de um envolvimento amoroso de Lucas com uma pessoa de sua família que M. conheceu o empresário no início do ano passado. Corretíssimo no início, ele se valia dos serviços da agência de M. para fazer viagens para os hotéis mais caros do país. Pagava tudo à vista. “Nada deixava para pagar depois e tudo tinha que ser muito caro, caso contrário, não servia”, diz.
A história começou a degringolar em novembro de 2008, quando já havia ganhado a confiança de M.. A primeira pista foi na organização da festa do empresário, que queria uma cantora baiana para o show de sua festa. Depois de saber o preço, se conformou com um grupo mineiro. A festa foi em um dos hotéis mais caros da cidade. Depois foi assistir a um show da cantora Madonna em Buenos Aires. Em vez de pagar em dinheiro, começou a acumular as contas. 170 mil reais no total. Todas as faturas em nome da empresa de M.. “Não fui à polícia porque tinha esperanças de ele me pagar. Lucas dizia que eu era a única que não estava fazendo nada contra ele.” O golpe de misericórdia nesta situação veio em fevereiro deste ano, quando M. foi visitar Lucas em Tiradentes. Foi recebida com uma sopa de batatas. “Estava na cara que era para me impressionar. Enquanto ele servia aquela comida, um monte de móveis de demolição comprados recentemente estavam embalados. Ele tirou não só o chão, mas tentou tirar também os meus sonhos. Tive que recomeçar meu negócio do zero”, diz.