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ReportagemRoleta russa dos medicamentosRemédios falsificados movimentam uma rede crescente de criminosos no Brasil e atingem, na outra ponta, milhares de consumidores já que o uso desses produtos pode causar consequências danosas à saúde
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Daniel de Cerqueira
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O mais perverso da história dos remédios falsos é que não se sabe quem foi o fabricante. Na prática, é como uma bomba relógio – não há controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, em efeito cascata, também não se sabe se houve um bioquímico responsável, se a dosagem de todos os componentes da fórmula está certa, se houve a assepsia necessária ou se aquele remedinho saiu direto de uma fabriqueta de fundo de quintal. E tudo isso, caro leitor, pode acabar mal para o consumidor desavisado que encontra facilidades demais para comprar tais medicamentos com procedência duvidosa no Brasil. Prática corriqueira em muitos lugares, a venda dos medicamentos falsificados é invisível no país – eles entram no bolo gigante de todos os produtos frutos de pirataria. Não há estimativa dos órgãos responsáveis de mortes com a utilização desses medicamentos, quem são seus maiores compradores e por que o consumidor final se arrisca, se não sabe qual será o efeito e, na pior das hipóteses, se não colocará em risco sua vida. A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) estima em 80 bilhões de reais o comércio de todos os produtos. É uma fatia considerável dos dados divulgados pela Interpol de 522 bilhões de dólares em todo o mundo. Os remédios são medidos Na prática, vender medicamentos falsificados é crime hediondo no país. A pena varia de |
A perspectiva de serem presos e condenados também não assusta contrabandistas e quadrilhas que atuam na fronteira entre Brasil e Paraguai. É de lá que saem, mensalmente, uma grande parte dos remédios falsificados que seguem rotas para São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiás, Brasília e Sul do país. Segundo estimativas da ABCF, 90% de todos os remédios falsificados no país entram por essa fronteira. Os outros 10% são manipulados no próprio país sem o princípio ativo. O delegado da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, Marco Berzoini Schmith, afirma que as pessoas que fazem esse tipo de contrabando não têm perfil definido e fazem coisas impensáveis para conseguir contrabandear o medicamento falsificado. Para fazer com que a carga chegue ao país, quadrilhas utilizam crianças, idosos, carros e ônibus com fundos falsos, barcos que carregam os produtos para o Brasil via lago de Itaipu e rio Paraná. “Na segunda semana de outubro, fizemos uma apreensão recorde, com 50 mil comprimidos para disfunção erétil e Cytotec, além de mais de 20 mil ampolas de anabolizantes. Mensalmente essas apreensões geram de 25 a 30 prisões. São pessoas do Brasil inteiro. A pena é cavalar, maior que a do tráfico, mas isso não assusta as pessoas”, diz Schmith. Na internet, a venda é mais assustadora. O delegado Bruno Tasca, da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Informático e às Fraudes Eletrônicas (Dercife), em Belo Horizonte, fez para a reportagem uma busca 8 pela palavra Cytotec no Google e encontrou 314 mil páginas. Ele diz que o Brasil tem muito que caminhar quando se trata de crimes cibernéticos. O grande desafio de seu trabalho é adequar as condutas da internet ao Código Penal e concluir um trabalho de investigação que pode demorar meses. E isso não é garantia de que, ao final, aconteçam prisões de culpados. “Temos um laboratório de informática que trabalha, continuamente, na busca dos casos mais relevantes de medicamentos falsificados. É preciso identificar o IP (Internet Protocol) dos computadores, mas a cada passo são necessários mandados judiciais e, por vezes, isso nem sempre é rápido”, afirma Tasca. |
Seja no mundo virtual ou real, a luta contra os medicamentos falsificados, para o chefe de inteligência da Anvisa, Adilson Bezerra, tem o consumidor como peça fundamental para desmantelar esse comércio. “A maioria das operações realizadas até hoje foi a partir de denúncias feitas por consumidores”, diz. As denúncias recaem, geralmente, segundo Bezerra, nos pequenos comércios do interior do Brasil, que não têm alvará de funcionamento, mas vendem medicamentos para a população. Ela ocorre por desconfiança da procedência desses remédios ou simplesmente porque não fazem o efeito desejado. “São pequenas farmácias, drogarias, sem um farmacêutico atuante ou presente”, afirma. O diretor do Sindicato dos Farmacêuticos de Minas Gerais, Albano Verona, alerta os consumidores que é preciso pesar a questão do preço menor em detrimento do risco de vida. Para ele, é uma economia somente aparente, já que um medicamento falsificado pode trazer consequências desastrosas para a saúde e até provocar sua morte. “É preciso que os órgãos públicos façam campanhas de conscientização para que as pessoas não comprem esse tipo de medicamento, dentro e fora das farmácias. É um círculo vicioso. Só existe comércio porque há quem consuma. A grande questão para essas pessoas é: sua vida tem preço?”, diz Verona. Educar a população de forma positiva para que ela saiba identificar os remédios verdadeiros é o mote de uma campanha da Anvisa para o próximo ano. Segundo o chefe de inteligência do órgão, Adilson Bezerra, outra aposta é a implementação da rastreabilidade para produtos farmacêuticos, quando será possível acompanhar a rota percorrida por unidade de medicamento desde o processo de embalagem até a sua distribuição final. “É uma tecnologia que estará nas embalagens dos medicamentos e permitirá ao consumidor, via internet, saber se aquele produto é verdadeiro ou falsificado”, observa Bezerra. Porém, a rastreabilidade, como indica a especialista em proteção a produto do laboratório Eli Lilly do Brasil, Monica Hattori, não será efetiva para a cadeia informal de distribuição (produtos manufaturados em indústrias e comercializados ilegalmente). O laboratório é fabricante do Cialis, um dos produtos que mais sofrem falsificação no Brasil. “O processo da rastreabilidade será um aliado para a população, no combate contra os produtos falsificados. No entanto, a efetividade do processo, com certeza, será maior quanto maior for o esclarecimento da sociedade. Mas, na cadeia informal, a falsificação vai continuar ocorrendo”, diz.
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Cuidado na hora da compra
Fonte: Anvisa |