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PolíticaTemas-tabus do CongressoAborto, descriminalização da maconha e união estável entre casais homossexuais: porque estes assuntos tramitam em Brasília há mais de 10 anos
Texto: Márcia Machado | Fotos: Paulo Werner, Daniel de Cerqueira, Wilson Dias/ABr , Fabio Pozzebom/ABr , José Cruz/ABr
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Com a experiência de quem presidiu a Câmara uma vez, de 1993 a 1995, e membro da mesa de diretora três vezes, o deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE) alega que não há acordo para votar o projeto da união estável entre homossexuais. Segundo ele, a oposição ferrenha de parlamentares católicos e evangélicos é o principal motivo do entrave. O deputado Antônio Carlos Biscaia concorda que é extremamente difícil a aprovação de temas polêmicos quando estes são propostos por um deputado, de forma isolada. Na sua opinião, projetos como estes só viram lei se tiverem o empenho pessoal do presidente da República, que pode reunir o apoio de todas as bancadas da base aliada ao governo. Caso contrário, os projetos não conseguem sair do corredor das comissões, passar pelo plenário e alcançar o tapete azul do Senado, onde vão ter a mesma tramitação e enfrentar a mesma dificuldade. Enquanto os parlamentares não decidem sobre o casamento entre iguais, na vida real essa prática já é reconhecida pela Justiça. E é assim que acontece: quando o Congresso não legisla, os tribunais de justiça decidem sobre o assunto e orientam juízes de segunda e terceira instâncias. Uma prática que no dicionário do jurisdicês é conhecida como jurisprudência. Há 11 anos, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que, em caso de separação de casal homossexual, o parceiro teria direito de receber metade do patrimônio obtido pelo esforço comum. Também foi reconhecido o direito do parceiro receber a pensão em caso de morte do companheiro. Ano passado, o mesmo STJ deu mais um passo no sentido de reconhecer a união estável entre casais gays. Decidiu que o pedido de reconhecimento da união estável de casal homossexual poderá ser julgado com base no direito de família, não apenas sob o aspecto patrimonial. Mesmo sem uma lei, alguns órgãos do governo já incorporam as mudanças sociais. No questionário do próximo censo do IBGE, que começa a ser realizado em agosto de 2010, vai constar a pergunta sobre a existência de cônjuge ou companheiro do mesmo sexo na casa. Será a primeira vez que o instituto contabiliza o número de casais gays em todo o país. Isso, segundo o IBGE, para traçar perfil mais atualizado da sociedade brasileira. |
Outro tema que não consegue avançar no Congresso é o da legalização do aborto. A lei em vigor só permite a interrupção da gravidez nos casos de estupro ou quando houver risco de morte. Há 19 anos, a deputada Cristina Tavares (PSDB-PE) propôs a realização de plebiscito sobre o tema. Um ano depois, o deputado Eduardo Jorge (PT-SP) apresentou a primeira proposta para descriminalizar o aborto. De lá para cá várias propostas foram apresentadas, mas nenhuma delas saiu do corredor das comissões. Uma das respostas para a lentidão do projeto está na pesquisa realizada recentemente pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) com 321 parlamentares, entre deputados e senadores: 57% deles defendem que a legislação sobre aborto permaneça como está, 18% querem a descriminalização total e 15% são contra a interrupção da gravidez em qualquer caso. Apenas 8% não se posicionaram e 1% admite ampliar a legislação em alguns casos. Assim como a união estável de casais homossexuais o projeto do aborto enfrenta a resistência fundamentalista de grupos religiosos. Basta uma comissão da Câmara colocar em pauta o projeto que a bancada dos contra lota os corredores da Câmara de militantes. Com frases de efeito estampadas nas camisetas, cartazes e palavras de ordem, eles fazem o maior barulho para sensibilizar os parlamentares. O movimento contrário à interrupção da gravidez é organizado. Em 2005, eles criaram a Frente Parlamentar em Defesa da Vida – Contra o aborto. Sob o mesmo guarda-chuva estão 210 parlamentares, deputados e senadores, de vários partidos e crenças religiosas. Nesta hora, católicos, protestantes – das mais variadas igrejas – espíritas kardecistas, enfim, uma infinidade de religiões comungam da mesma luta. |
O deputado José Genoino, autor de um dos projetos que descriminaliza o aborto, conta que os religiosos ameaçam apresentar nas missas e cultos as listas dos parlamentares favoráveis à interrupção da gravidez. “Meu nome está sempre lá”, diz. Com esse tipo de intimidação o deputado acha difícil aprovar o projeto. Em contrapartida os movimentos feministas fazem menos barulho, mas também trabalham incansavelmente para convencer os parlamentares de que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública. Citam a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que no Brasil ocorrem aproximadamente 1 milhão de abortos ilegais ao ano.
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Na última semana de outubro, o tema das drogas foi tratado à exaustão no seminário organizado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Quem solicitou o debate foi o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) que pediu ajuda ao Ministério da Justiça para elaborar projeto de lei para corrigir distorções da legislação em vigor sobre drogas. O deputado defende revisão em alguns dispositivos da lei porque, na sua avaliação, ela realimenta o comércio de drogas. “As cadeias estão lotadas de pequenos traficantes que ocupam o aparelho policial e o judiciário, que poderiam estar atuando no combate à violência.” Em recente artigo publicado pelo jornal britânico The Observer, o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso disse que a guerra contra as drogas fracassou e que deveria haver esforço internacional para promover a descriminalização dos usuários de maconha. O ex-presidente faz parte da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. O grupo tem negociado com o governo americano uma mudança na condução de sua política de combate às drogas. “A política linha-dura trouxe consequências desastrosas para a América Latina, onde milhares de pessoas perderam a vida em episódios de violência ligados às drogas, a pobreza aumentou e a corrupção está ameaçando frágeis democracias”.
A Argentina veio na mesma linha e, recentemente, sua Suprema Corte decidiu não punir mais o consumo de maconha, desde que feito por maiores de idade, em ambientes privados e que não implica riscos para terceiros. Na América Latina, Colômbia e México também já descriminalizaram o porte de pequenas quantidades de drogas. O parlamento chileno também estuda liberar o consumo da droga em locais privados.
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