Terça, 22 de Maio de 2012
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Meio Ambiente

Amazônia

Os esforços dos órgãos ambientais e os discursos governistas apenas maquiam uma realidade brutal: os aportes de dinheiro em atividades econômicas que desmatam a maior floresta do mundo

Texto: Ana Elizabeth Diniz | Fotos: Arte: Paulo Werner


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Água que retumba, ruído de água. Esse é o significado da palavra indígena amassunu, Amazonas. Grandeza, biodiversidade exuberante e única, riqueza ambiental incomparável que retumba mundo afora, assim como as ações humanas predatórias, a ganância econômica, as leis equivocadas, o despreparo e a omissão que comprometem de forma irreversível esse santuário natural.
De 2000 a 2005, o Brasil respondeu por 42% da perda florestal líquida global, dos quais a maior parte ocorreu na Ama­zônia brasileira. Um campo de futebol é desmatado a cada dez segundos. Essa proporção assombrosa alcançou em agosto passado a marca de 273 km² desmatados, sendo que 48%, ou seja, 125 km² ocorreram em áreas de unidades de conservação ou terras indígenas, consideradas áreas protegidas.

A criação de gado na região vem provocando a maior onda de desmatamento do globo: oito em dez hectares são desmatados na Amazônia brasileira. De toda carne produzida em áreas desmatadas na floresta, 5% é exportada enquanto 95% é consumida no Brasil. Deste montante, 69% vai parar no prato de consumidores do Sudeste, especialmente do estado de São Paulo. A floresta virou bife.


Conforme o Greenpeace, o governo brasileiro fomenta a destruição da Amazônia quando destina pesados investimentos diretos e linhas de financiamentos a atividades que provocam desmatamento. Oitenta e cinco por cento dos mais de 80 bilhões de reais liberados pelo governo em julho do ano passado para o Plano Agrícola e Pecuário 2008/09 foram destinados à agricultura industrial, diz a ONG. Além disso, o poder público mantém inexpressiva presença tanto no fornecimento de serviços básicos quanto em fiscalização contra ilegalidades. Tudo isso concentra a expansão da pecuária na região, onde a falta de governança significa terra e mão-de-obra baratas.
E mesmo diante dos números assustadores, o governo federal sustenta que somente após conversar com os presidentes de países da Amazônia é que vai traçar uma política para reduzir o desmatamento em 80% até 2020. E milhares de vozes anônimas de meros cidadãos desse planeta retumbam, assim como o nome da floresta, e indagam uníssonas: a Amazônia conseguirá sobreviver até lá?  

Números ecologicamente incorretos

A perversa equação da floresta

  • A bacia hidrográfica amazônica, a maior do planeta, tem 25 mil km de rios navegáveis
  • A área abrange seis países: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela
  • O conceito de Amazônia Legal foi criado em 1966 e atualmente inclui: Amazonas, Acre, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão, Goiás e Tocantins. São 5 milhões km2 que abrangem 59% do território brasileiro, distribuído por 775 municípios
  • Representa 67% das florestas tropicais do mundo
  • Se fosse um país, a Amazônia Legal seria o 6º maior do mundo em extensão territorial
  • Um terço das árvores do planeta estão na região, além de 20% das águas doces
  • A Amazônia Legal tem 309 unidades de conservação federais e estaduais e 405 terras indígenas onde vivem 173 povos diferentes
  • Em 2007, as áreas protegidas (terras indígenas e unidades de conservação) e reservas militares somavam aproximadamente 43% do território da Amazônia Legal ou em torno de 209 milhões de hectares
  • As unidades de conservação mais atingidas estão no Pará, na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu e nas Florestas Nacionais do Jamanxim e de Altamira. As áreas ficam na região de influência da BR–163, da Rodovia Transamazônica e na Terra do Meio, um conjunto de unidades de conservação pressionado pelo avanço da pecuária

População

  • A região tem 20,3 milhões de moradores, sendo 68,9% residentes na área urbana e 31,1% na área rural. Eles representam 12,3% da população brasileira
  • Somente 13% da área da Amazônia Legal são favoráveis à ocupação humana
  • O crescimento da população é apontado como responsável pelo desmatamento: entre 1970 e 1980, esse crescimento foi de 324%

Situação fundiária

  • Na Amazônia Legal, em 2003, as áreas de posses totalizavam 35 milhões de hectares, o que correspondia a 19,8% da área total dos imóveis da região e 52,8% da área total dos imóveis de posse do Brasil
    n Mais de metade (53%, ou cerca de 2,6 milhões km2) da Amazônia Legal possui situação fundiária incerta
  • Em 2002, aproximadamente 47% da Amazônia brasileira estava sob algum tipo de pressão humana, incluindo desmatamento, zonas de influência urbana, assentamentos de reforma agrária, áreas alocadas para prospecção mineral e reserva garimpeira, bem como áreas sob pressão indicadas pela incidência de focos de calor (queimadas) em florestas
    n No Brasil, as terras griladas somam 36,7 milhões de hectares, sendo 25,4 milhões na Amazônia Legal
  • O número de imóveis rurais na região Norte do país, onde se encontra a maior parte da Amazônia Legal, cresceu 163% de 1992 a 2003, chegando a 30,4 milhões

Rodovias

  • Historicamente, 75% do desmatamento da região amazônica ocorreu ao longo de rodovias pavimentadas. Assim foi com a Belém-Brasilia (BR–010), Cuiabá-Porto Velho (BR–364) e no trecho matogrossense da Cuiabá-Santarém (BR–163). E o impacto trazido pela abertura e pavimentação de estradas extrapola os desmatamentos
  • Existem 95,4 km de estradas clandestinas na Amazônia Legal, a maior parte no estado do Pará
  • Aproximadamente 80% da área desmatada está até 30 km das estradas oficiais (número referente a 2002)

Pecuária

  • Entre 1990 e 2003, o rebanho bovino na Amazônia Legal Brasileira aumentou de 26,6 milhões para 64 milhões de cabeças, crescimento de 140%
  • O número de cabeças de gado no estado do Amazonas saiu de 733,9 mil em 1995 para 1,2 milhão em 2006

PIB

  • Entre 1960 e 2001, a população total da Amazônia Legal aumentou de cerca de 4 milhões para mais de 20 milhões
  • Em 2002, o Produto Interno Bruto (PIB) da Amazônia Legal era de R$ 82 bilhões (US$ 27,5 bilhões). Na época, esse valor correspondia a 6,1% do PIB nacional. Os estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso representavam conjuntamente 70% do PIB da região
  • O PIB per capita da Amazônia Legal, em 2002, era igual a R$ 7,4 mil, ou US$ 2,1 mil; o PIB per capita médio brasileiro era de R$ 12,9 mil, ou US$ 3,65 mil

Cobertura vegetal

  • As florestas (densas, abertas e estacionais) cobrem 64% da Amazônia Legal. As formações não florestais – compostas por cerrados, campos naturais e campinaranas – cobrem outros 22%. O restante, 14% da cobertura vegetal da Amazônia, foi desmatado até 2004
  • Aproximadamente 24% da Amazônia Legal é composta por áreas privadas
  • Um aquecimento global de 4°C deve ter consequências dramáticas para a América Latina e pode subir as temperaturas na região amazônica entre 8°C e 10°C, o que levaria à destruição de grande parte da floresta
  • Os cientistas dizem que, num espaço de 20 cm2, por exemplo, podem ser encontrados até 1,5 mil espécies vegetais e animais diferentes, somando-se fungos e micro-organismos
  • Cerca de dois milhões de espécies têm seu hábitat na região. A variedade da flora amazônica concentra-se basicamente nas espécies cujo hábitat é composto pelas matas de igapó, matas de várzea e mata de terra-firme. Há inúmeras espécies comestíveis, oleaginosas, medicinais, corantes e outras raras
  • Das matas tropicais foram extraídas 25% de todas as essências farmacêuticas utilizadas atualmente pela medicina
  • A fauna da região é variada. São roedores, felinos, aves, quelônios, primatas etc. E assim como no reino vegetal, há muitas espécies que somente ocorrem na região. Alguns estão em extinção, como os macacos uacari branco (Cacajao calvus calvus) e o pequeno sauim-de-coleira (saguinus bicolor biclor) que somente ocorre nas proximidades de Manaus

Fontes:
Organização das Nações Unidos para Agricultura e Alimentação; Censos de 2002 e 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Estudos da ONG Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) através do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD); Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA); Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea); Greenpeace


 
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