Terça, 22 de Maio de 2012
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Lazer

BH elétrica

Cena eletrônica na capital mineira começou timidamente há 20 anos. Hoje ganhou ares planetários e público eclético

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Renato Cobucci


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Ao som da música eletrônica, tribos distintas se juntam para a balada que dura 24 horas

Já se disse que mar de mineiro é o bar. Nos anos 2000 esta máxima dá lugar à cena da música eletrônica e, não por acaso, Minas Gerais atrai atenção de grandes produtores do gênero e seus artistas. Uma onda que começou, em Belo Ho­ri­zon­te, no fim dos anos 80, na fina­da e pioneira boate Guilden, na avenida Prudente de Morais. Hoje, a capital mineira é palco de grandes festivais, como o Cream­fields, que este ano tem como atração principal o DJ David Guet­ta, considerado o mais importante da house music, com 3 álbuns no topo das paradas europeias. Aliás, em sua 5ª edição, é a 2ª vez que acontece exclusivamente em Belo Ho­rizonte. A du­pla carioca de electro hou­se Felguk (Gustavo Rozenthal e Fe­lipe Lo­zins­ky, convidados por Ma­donna para remixar Celebration) tam­bém apor­ta em BH para o Cream­fields e declara: “Adoramos tocar aqui. A resposta  do público é diferenciada.”

Como explicar essa vocação que faz tremer as montanhas de Minas? As­so­ciaram-se, aí, fatores peculiares. Numa época em que não havia internet, foi a própria mídia que divulgou e espalhou as primeiras batidas da música eletrônica. “A rádio 107 – à época, Promove – apostou no estilo. Havia programas montados, 100% formatados e apresentados por DJs”, conta o DJ Léo Mille, 36 anos, 21 de experiência. Ele mesmo começou na Guilden e avalia que “as coisas foram acontecendo com força e a música eletrônica foi doutrinando a cidade, que se mostrou aberta a experimentações.”


Não é possível falar em experimentações sem os nomes de Anderson Noi­se e Marcelo Marent, que deram o pontapé inicial nesta brincadeira que virou coisa séria. Começaram a organizar baladas em shoppings, frigoríficos, hospício, túnel, estação ferroviária. “Festas bem produzidas, com som espetacular. Era por amor, no peito e na raça”, destaca o DJ Robinho, precussor da ce­na eletrônica e passaporte carimbado em eventos de porte do próprio Creamfields.

A cidade começava a desfiar a meada que, em Ibiza (ilha espanhola), ficou conhecida por verão do amor. Nos Estados Unidos culminou nas festas em galpões, que não contavam com divulgação, e na Europa resultaram nas raves. Podia-se dizer que ainda se tratava do mundinho underground. Como bem ressalta Mille, tanto em BH como no mundo, o público que ia tomando contato – e gostando – desta vertente musical contava com alto poder aquisitivo e era habituado a viagens ao exterior. “Por isto o fenômeno da música eletrônica não é mineiro ou brasileiro. É mundial. Grandes corporações começaram a investir neste segmento.” Leia-se telefonia celular, marcas de refrigerantes, cervejarias, fabricantes de cigarros. Negócios: é o outro lado deste cenário belo-horizontino.

Os produtores enxergaram tais festivais como boa opção comercial. A música eletrônica, em especial a house music, ocupou lacuna existente no setor de entretenimento. Dos guetos passou a ser a trilha que vai a vernissages,  locais sofisticados. “Acho que essa nossa insistência de apostar em festivais foi aos poucos conquistando o público. E olha que é difícil competir com o Rio de Janeiro e São Paulo. Conse­gui­mos colocar BH como rota de bons artistas internacionais”, diz Otacílio Mesquita (da produtora Trance Moviment).  Na opinião do empresário Bruno Carneiro, sócio da produtora E-Spirit (também responsável pelo Creamfields), o mineiro é democrático. “Aqui não temos radica­lismos. Somos comprovadamente a maior audiência em música sertaneja, recebemos o maior festival de pop rock e a maior micareta de axé fora da Bahia.”

O produtor Didio Mendes, da Label #12 e da WDB Manegemant (agência mundial de DJs com sede na Suíça) é responsável por trazer DJs de renome internacional, como Erik Morilo e Sebastian Imbrosso. Segundo ele, a cena eletrônica em BH não perde para São Paulo. “Produtores, festivais e agências estão baseados aqui.” Rafael Mendes, 27 anos, é também DJ e frequentador da cena eletrônica. Segundo ele, os eventos têm evoluído no ritmo dos avanços tecnológicos. A isto unem-se decorações extravagantes e iluminação a laser. “Todos os sentidos do público se­rão influenciados. É uma experiência mais legal para quem dança, mexe com a imaginação e curiosidade.” Em sua opinião, o Creamfields tem significado bem particular, uma vez que é um festival “delicadamente construído pela história da música eletrônica.”

Se nos primórdios da pequena Guilden ou de outros eventos ditos alternativos era possível definir o perfil de quem comparecia, hoje, segundo o DJ Robinho, vai até quem não gosta da música. “Antes, as pessoas procuravam festa diferente, música idem. Ambientes onde pudessem encontrar pessoas que compartilhavam do mesmo ideal. Hoje, para chegar perto deste ideal, só mesmo em festas privês, lugares menores ou clubes bem underground.” Natália Fonseca Xavier D’Alcântara, 27 anos, frequenta festas de música eletrônica e já deixou a agenda reservada para o Creamfields. “O line up é sempre caprichado e a estrutura permite escolher gêneros.” Claro que a vinda de David Guetta é adi­tivo à parte. Cita ainda Raja RAM e Rin­kadink como atrações também especiais.

Quem é

Anderson Noise

  • DJ e produtor de Belo Horizonte que começou a discotecar em 1989. Promoveu o primeiro trio elétrico de música eletrônica na cidade e, entre os muitos prêmios, está o troféu de melhor DJ conferido pela Cool Awards. Sua carreira é internacional: DJ residente em Londres, no clube Tummills, em 2007 foi eleito, pela segunda vez, para integrar  os tops 100 DJs pela DJ MAG. É o único brasileiro a figurar na publicação especializada  

Marcelo Marent

  • Produtor e diretor artístico falecido em 2006, Marent deu cara nova à noite da cidade ao introduzir festas de música eletrônica ao estilo do que acontecia no exterior, de onde sempre voltava com novas ideias para apresentar ao público

Onde nasceu a música eletrônica em BH

  • Além da Guilden, The Great  Brazilian Disaster, Ávida. No final dos anos 80, tocavam acid-house numa simultaneidade ao que estava acontecendo na Inglaterra

Raves

  • No início dos anos 80, nos Estados Unidos eram realizadas festas em galpões, a princípio sem divulgação. A partir de certo momento, até mesmo por conta do uso do ecstasy, a repressão policial instalou-se e os frequentadores destas festas migraram para locais distantes, como sítios isolados, fazendas e quadras distantes. Assim como nos anos 60 o LSD era visto como passaporte para experimentações, o mesmo com o ecstasy, com finalidade de deixar as pessoas mais sensíveis às batidas eletrônicas

Primeiro registro de grande corporação patrocinadora de festa música eletrônica:

  • LM Dance Festival, patrocinado pela Souza Cruz, em São Paulo

 
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