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CidadeMinha vida de invasorSão duas torres, 18 andares cada e 200 famílias morando ilegalmente. E o pior: cercados pela falta de estrutura e insegurança do local
Texto: Terezinha Moreira | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Os moradores têm consciência do perigo, mas alegam não ter para onde ir. O que mais preocupa Jurdênio Fábio de Oliveira Souza, 22 anos, é o medo de o prédio não aguentar e desabar. “A estrutura já não é das melhores, as ferragens estão expostas e enferrujadas. Dá muito medo”, confessa. Os problemas estruturais são conhecidos do Corpo de Bombeiros – que fez um relatório sobre os prédios – e pela prefeitura, que o recebeu. Com base neste relatório, o Corpo de Bombeiros elabora plano emergencial. A expectativa é que ele fique pronto até o fim de 2009. Enquanto espera, Jurdênio vive sozinho em seu meio apartamento. Ele dividiu o imóvel com outra pessoa e mora em um quarto e cozinha. O banheiro ele usa o do vizinho, pois sua suíte ainda não foi concluída. Para determinados moradores, pior que a insegurança é a incerteza. Problema levantado por Maurício, personagem do início da reportagem. “A gente não sabe até quando ficará aqui, e se não ficar, não se sabe para onde será levado. É uma dúvida angustiante”, desabafa. Outro fato que o incomoda é a disputa pelo ponto-de-venda de drogas nos prédios. Por serem muito bem localizados, a guerra entre os traficantes é ferrenha. “Mas todos estes problemas são superados pela bela vista do pôr-do-sol e da serra da Piedade. Gosto de contemplar a natureza e posso fazer isso sem ter de sair de casa”, diz Maurício, do alto do 18º andar. |
Sua vizinha do 12º, a carroceira Rosângela da Penha Neto Batista Silva, esquece a vista e reclama mesmo da dificuldade dos 544 degraus para cada saída de casa. E ela não faz isto sozinha. Sempre tem ao colo o filho mais novo, Júnior, de 6 meses. Seus outros 12 filhos não precisam mais da ajuda da mãe para percorrer o trajeto. As escadas tornam-se obstáculos ainda maiores quando ela está com compras. “A gente precisa se virar para subir. É muito difícil”, reclama. Rosângela adaptou seu apartamento para abrigar a família numerosa. Dividiu a sala e fez mais um quarto. Colocou cerâmica na metade do imóvel. Das seis TVs que tem em casa, apenas duas funcionam. A carroceira é uma das moradoras entre tantas que gostariam de sair do prédio. Ela é a favor da indenização aos ocupantes das torres para que deixem o local. Mas a desocupação parece uma realidade distante. Foi ordenada em última instância pela Justiça, há 10 anos, mas não cumprida pela Polícia Militar. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, não houve cumprimento do mandado porque há uma ação judicial em andamento relacionada ao local e existe a necessidade do envolvimento de outros órgãos do sistema público, como a prefeitura de Belo Horizonte. |
A incerteza de até quando vai permanecer nas torres gêmeas não é a principal aflição da auxiliar de enfermagem M.J.S.S.. Muito menos a insegurança. Ela, que mora no local há três meses e cuida de uma irmã com problemas mentais, tem como principal reclamação a falta de organização e de higiene de seus vizinhos. “Tenho medo de contrair alguma doença. Se tiver oportunidade, sairei do prédio”, decreta. Opinião compartilhada pela vizinha Daílsa Arantes da Silva. Ela diz que se chateia com a falta de higiene dos seus vizinhos. Eles jogam lixo pelas janelas e nas escadas. A situação estava tão calamitosa que, recentemente, a prefeitura retirou mais de 200 toneladas de lixo dos dois prédios. “Tirando esta questão, o resto é tranquilo. Gosto muito daqui. É um local onde eu tenho sossego para viver com meus três filhos”, afirma Daílsa, que pagou 1,5 mil reais a um antigo invasor pelo direito de morar no local. Se a vida de Daílsa é tranquila, as dificuldades do dia-a-dia nas torres gêmeas desanimam Maquelaina Andrade Oliveira, moradora do 13º andar. Ela é mãe de duas crianças, uma de dois meses, com quem sobe e desce as escadas no colo. “A maior dificuldade são as escadas, mas às vezes também falta água. A insegurança é grande porque há venda de drogas nas proximidades”, declara. Mas esse problema já foi bem maior, segundo a Polícia Militar. Quando foi iniciada a ocupação, a PM sempre era acionada para atendimentos principalmente por tráfico de drogas. “Há cerca de seis meses foi implantado policiamento fixo no local. O objetivo é reduzir o tráfico de drogas e os homicídios na região”, informa o 16º Batalhão por meio da assessoria de imprensa. Outra ação da PM no bairro foi a implantação do policiamento a pé nas ruas de comércio. |
Se por um lado a questão do tráfico de drogas está sendo combatida com mais rigor, de outro a ilegalidade continua presente nos cerca de 140 apartamentos das torres gêmeas. A agonia de ser invasor contrasta com a vontade de se investir no imóvel, torná-lo mais habitável. É o caso de Corina Ferreira dos Santos, moradora do 6º andar por 11 anos com o marido e uma filha. Desde que chegou ao local, Corina faz melhorias em seu apartamento de dois quartos, com suíte. “Arrumei ardósia no chão e concluí as obras dos dois banheiros”, conta, orgulhosa. Ela diz que não se sente totalmente realizada morando nas torres gêmeas porque o local não é legalizado. “Meu sonho é poder dizer que moro em meu apartamento. A prefeitura bem que poderia nos ajudar a terminar os prédios por fora, nem que os custos fossem rateados entre os moradores. Prefiro a legalização do local a sair daqui”, opina. O ex-advogado das famílias, Fábio Alves dos Santos, acredita que, apesar de o problema da legalização das torres gêmeas persistir por mais de uma década, é de fácil solução. “Basta vontade política da prefeitura. A PBH tem todos os recursos possíveis para solucionar o problema, mas alega a existência de filas nos programas habitacionais, que não chegaram ao fim em 10 anos. Os moradores nunca foram cadastrados”, afirma o advogado. O secretário de Administração da Regional Leste, Pier Giorgio Senesi Filho, assegura que não falta vontade política. Ele diz que estas pessoas deveriam ser atendidas pelos programas habitacionais do município em parceria com os governos estadual e federal, como o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ele explica que os programas habitacionais funcionam por meio de inscrições. “Mas entre o cadastro e a moradia existe uma série de outras coisas, como por exemplo, o terreno, a construção e os recursos. Quem falou que a prefeitura não tem vontade política não tem conhecimento de causa”, afirma o secretário. |
Recentemente, outra decisão ordenou que a prefeitura promova a desocupação do local. O secretário de Administração da Regional Leste garante que não foi notificado. Pier Filho diz ainda que, caso isso ocorra, irá analisar a atitude a ser adotada. “Todas as famílias das torres gêmeas são cadastradas. Sabemos detalhes como a quantidade de crianças existentes e as condições dos apartamentos. Todos são tratados como qualquer outro cidadão.”
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Alheia às incertezas, insegurança e falta de estrutura, Roseni Helena de Souza é outra que vai tocando a vida nas torres gêmeas, onde mora há 11 anos. Ela veio do Rio de Janeiro e teve o marido assassinado no fosso do elevador, antes de ele ser fechado. Quando chegou ao prédio, morou por alguns dias na garagem até conseguir ocupar um apartamento. Hoje, sua residência, no sexto andar, é repleta de pôsteres da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, do Cruzeiro e do Flamengo. “Adoro a dupla. Meu sonho é conhecer os dois”, declara. Roseni mora com dois filhos. Já Valeriana das Graças Souza mora no 15º andar e colocou cerâmica em todo o imóvel. Para ela, a única dificuldade é subir com compras. Mas o pior foi quando se mudou para o prédio, há 10 anos e tinha bebês gêmeas. “Foi uma época muito difícil”, relembra. Ela diz que o local está mais tranquilo após a prisão de alguns traficantes de drogas que viviam nos prédios. E as histórias vão se construindo, andar por andar. Cada família com suas reclamações, reivindicações, problemas. Por trás de cada porta uma realidade que assusta. Em cada morador, a dúvida. Em comum, a ilegalidade, situação que já perdura por 14 longos anos. |
Entenda o casoFim da década de 80 Início dos anos 90 1996 1996 2009 |