Terça, 22 de Maio de 2012
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Cidade

Minha vida de invasor

São duas torres, 18 andares cada e 200 famílias morando ilegalmente. E o pior: cercados pela falta de estrutura e insegurança do local

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Maurício Guedes da Silva: de 15 a 20 minutos para chegar ao apartamento onde mora

Maurício Guedes da Silva mora, há 14 anos, na cobertura do número 64 da rua Clorita, no tradicional bairro Santa Tereza, região Leste de Belo Horizonte. A cada saída e volta de seu apartamento gasta entre 15 e 20 minutos para superar os 576 degraus. O prédio onde mora não tem elevador. Para piorar, parte da perna direita de Maurício, 41 anos, teve de ser amputada há um ano. O motivo foi um tiro que recebeu na coluna, no local onda mora, conhecido por torres gêmeas.

Os dois prédios, de 18 andares cada, estão inacabados. A construção foi iniciada em 1989 e paralisada poucos anos depois. Com o abandono do imóvel e a falência da construtora, começaram as invasões. A Justiça já decretou a desocupação dos prédios mas, até hoje, a ordem não foi cumprida. Enquanto isso, cerca de 200 famílias moram no local correndo riscos diários. Exposição da fiação elétrica (resultado dos inúmeros gatos para puxar energia elétrica), escadas sem corrimão e irregulares, fosso onde seria instalado o elevador, são alguns exemplos.

Confira os bastidores desta matéria no Blog da Redação.


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Área entre prédios: lugar onde as crianças brincam
Área entre prédios: lugar onde as crianças brincam

Os moradores têm consciência do perigo, mas alegam não ter para onde ir. O que mais preocupa Jur­dênio Fábio de Oliveira Sou­za, 22 anos, é o medo de o prédio não aguentar e desabar. “A estrutura já não é das melhores, as ferragens estão expostas e enferrujadas. Dá muito medo”, confessa. Os problemas estruturais são conhecidos do Corpo de Bombeiros – que fez um relatório sobre os prédios – e pela prefeitura, que o recebeu. Com ba­se neste relatório, o Corpo de Bom­beiros elabora plano emergencial. A expectativa é que ele fique pronto até o fim de 2009. Enquanto espera, Jurdênio vive sozinho em seu meio apartamento. Ele dividiu o imóvel com outra pessoa e mora em um quarto e cozinha. O banheiro ele usa o do vizinho, pois sua suíte ainda não foi concluída.

Para determinados moradores, pior que a insegurança é a incerteza. Problema levantado por Mau­rício, personagem do início da reportagem. “A gente não sabe até quando ficará aqui, e se não ficar, não se sabe para onde será levado. É uma dúvida angustiante”, desabafa. Ou­tro fato que o incomoda é a disputa pelo ponto-de-venda de drogas nos prédios. Por serem muito bem localizados, a guerra entre os traficantes é ferrenha. “Mas todos estes problemas são superados pela bela vista do pôr-do-sol e da serra da Piedade. Gosto de contemplar a natureza e posso fazer isso sem ter de sair de casa”, diz Maurício, do alto do 18º andar.

Jurdênio e o irmão sofrem para subir escada com fogão
Jurdênio e o irmão sofrem para subir escada com fogão

Sua vizinha do 12º, a carroceira Rosângela da Penha Neto Batista Silva, esquece a vista e reclama mesmo da dificuldade dos 544 degraus para cada saída de casa. E ela não faz isto sozinha. Sempre tem ao colo o filho mais novo, Júnior, de 6 meses. Seus outros 12 filhos não precisam mais da ajuda da mãe para percorrer o trajeto. As escadas tornam-se obstáculos ainda maiores quando ela está com compras. “A gente precisa se virar para subir. É muito difícil”, reclama. Rosângela adaptou seu apartamento para abrigar a família numerosa. Dividiu a sala e fez mais um quarto. Colocou cerâmica na metade do imóvel. Das seis TVs que tem em casa, apenas duas funcionam.

A carroceira é uma das moradoras entre tantas que gostariam de sair do prédio. Ela é a favor da indenização aos ocupantes das torres para que deixem o local. Mas a desocupação parece uma realidade distante. Foi ordenada em última instância pela Justiça, há 10 anos, mas não cumprida pela Polícia Militar. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, não houve cumprimento do mandado porque há uma ação judicial em andamento relacionada ao local e existe a necessidade do envolvimen­to de outros órgãos do sistema público, como a prefeitura de Belo Horizonte.

Reginalda aproveita a água da chuva para lavar roupas
Reginalda aproveita a água da chuva para lavar roupas

A incerteza de até quando vai permanecer nas torres gêmeas não é a principal aflição da auxiliar de enfermagem M.J.S.S.. Muito me­nos a insegurança. Ela, que mora no local há três meses e cuida de uma irmã com problemas mentais, tem como principal reclamação a falta de organização e de higiene de seus vizinhos. “Tenho medo de contrair alguma doença. Se tiver oportunidade, sairei do prédio”, decreta. Opinião compartilha­da pela vizinha Daílsa Arantes da Silva. Ela diz que se chateia com a falta de higiene dos seus vizinhos. Eles jo­gam lixo pelas janelas e nas escadas. A situação estava tão calamitosa que, recentemente, a prefeitura retirou mais de 200 toneladas de lixo dos dois prédios. “Tiran­do esta questão, o resto é tranquilo. Gosto muito daqui. É um local onde eu tenho sossego para viver com meus três filhos”, afirma Daílsa, que pagou 1,5 mil reais a um antigo invasor pelo direito de morar no local.

Se a vida de Daílsa é tranquila, as dificuldades do dia-a-dia nas torres gêmeas desanimam Maquelaina Andrade Oliveira, moradora do 13º an­dar. Ela é mãe de duas crianças, uma de dois meses, com quem sobe e desce as escadas no colo. “A maior dificuldade são as escadas, mas às vezes também falta água. A insegurança é grande porque há venda de drogas nas proximidades”, declara. Mas esse problema já foi bem maior, segundo a Polícia Militar. Quando foi iniciada a ocupação, a PM sempre era acionada para atendimentos principalmente por tráfi­co de drogas. “Há cerca de seis me­ses foi implantado policiamento fi­xo no local. O objetivo é reduzir o tráfico de drogas e os homicídios na região”, informa o 16º Batalhão por meio da assessoria de impren­sa. Outra ação da PM no bairro foi a implantação do policiamento a pé nas ruas de comércio.

Falta de estrutura coloca moradores em risco
Falta de estrutura coloca moradores em risco

Se por um lado a questão do trá­fico de drogas está sendo combatida com mais rigor, de outro a ilegalidade continua presente nos cerca de 140 apartamentos das torres gêmeas. A agonia de ser invasor contrasta com a vontade de se investir no imóvel, torná-lo mais habitável. É o caso de Corina Fer­rei­ra dos Santos, moradora do 6º andar por 11 anos com o marido e uma filha. Desde que chegou ao local, Corina faz melhorias em seu apartamento de dois quartos, com suíte. “Ar­ru­mei ardósia no chão e concluí as obras dos dois banheiros”, conta, orgulhosa. Ela diz que não se sente totalmente realizada morando nas torres gêmeas porque o local não é legalizado. “Meu sonho é poder dizer que moro em meu apartamento. A prefeitura bem que poderia nos ajudar a terminar os prédios por fora, nem que os custos fossem rateados entre os moradores. Prefiro a legalização do local a sair daqui”, opina.

O ex-advogado das famílias, Fábio Alves dos Santos, acredita que, apesar de o problema da legalização das torres gêmeas persistir por mais de uma dé­cada, é de fácil solução. “Basta vontade política da prefeitura. A PBH tem todos os recursos possíveis para solucionar o problema, mas alega a existência de filas nos programas habitacionais, que não chegaram ao fim em 10 anos. Os moradores nunca foram cadastrados”, afirma o advogado. O secretário de Administração da Regional Leste, Pier Giorgio Senesi Filho, assegura que não falta vontade política. Ele diz que estas pessoas deveriam ser atendidas pelos programas habitacionais do município em parceria com os governos estadual e federal, como o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ele explica que os programas habitacio­nais funcionam por meio de inscrições. “Mas entre o cadastro e a moradia existe uma série de outras coisas, como por exemplo, o terreno, a construção e os recursos. Quem falou que a prefeitura não tem vontade política não tem conhecimento de causa”, afirma o secretário.

Valeriana com a família: “É difícil subir as escadas com compras”
Valeriana com a família: “É difícil subir as escadas com compras”

Recentemente, outra decisão ordenou que a prefeitura promova a desocupação do local. O secretário de Administração da Regional Leste garante que não foi notificado. Pier Filho diz ainda que, caso isso ocorra, irá analisar a atitude a ser adotada. “Todas as famílias das torres gêmeas são cadastradas. Sabemos detalhes como a quantidade de crianças existentes e as condições dos apartamentos. Todos são tratados como qualquer outro cidadão.”


Os moradores, à espera de solução para os problemas, vão convivendo com as incertezas e a falta de estrutura. O apartamento da diarista Reginalda da Conceição Reis não passou por nenhuma melhoria desde que ela se mudou. Recebeu apenas um pouco de massa para tapar os buracos nas paredes. Ela vive com os dois filhos em uma das coberturas das torres gêmeas. Sua sala tem estante, que abriga a TV de 20 polegadas, o som, o aparelho de DVD. A cozinha é ainda mais modesta: fogão já bem velho, dois armários com portas despencadas e uma pia improvisada. No andar de cima, a lavanderia. Ela aproveita a água da chuva em um tambor de 200 litros para lavar roupas, banheiro e vasilhas. Reginalda diz que aceitaria sair do prédio se fosse indenizada. “Aqui não é um bom lugar para se criar os filhos”, salienta.

João de Jesus: “Subo descansando nos degraus”
João de Jesus: “Subo descansando nos degraus”

Alheia às incertezas, insegurança e falta de estrutura, Roseni Helena de Souza é outra que vai tocando a vida nas torres gêmeas, onde mora há 11 anos. Ela veio do Rio de Janeiro e teve o marido assassinado no fosso do elevador, an­tes de ele ser fechado. Quando chegou ao prédio, morou por alguns dias na garagem até conseguir ocu­par um apartamento. Hoje, sua residência, no sexto andar, é repleta de pôsteres da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, do Cruzeiro e do Flamengo. “Adoro a dupla. Meu sonho é conhecer os dois”, declara. Roseni mora com dois filhos.

Já Valeriana das Gra­ças Souza mora no 15º andar e colocou cerâmica em todo o imóvel. Para ela, a única dificuldade é subir com compras. Mas o pior foi quando se mu­dou para o prédio, há 10 anos e ti­nha bebês gêmeas. “Foi uma época muito difícil”, relembra. Ela diz que o local está mais tranquilo após a prisão de alguns traficantes de drogas que viviam nos prédios.

E as histórias vão se construin­do, andar por andar. Cada família com suas reclamações, reivindicações, problemas. Por trás de cada porta uma realidade que assusta. Em cada morador, a dúvida. Em co­mum, a ilegalidade, situação que já perdura por 14 longos anos.

Entenda o caso

Fim da década de 80
A obra é iniciada pela ICC Incorporadora e a Jet Engenharia

Início dos anos 90
A construção das torres foi paralisada

1996
A Justiça decreta a falência das empresas. Começa a ocupação das torres

1996
A Justiça determina a desocupação dos imóveis pelo juiz Antônio Armando dos Anjos. A decisão ainda não foi cumprida

2009
Nova ordem de desocupação é expedida pelo juiz Sálvio Chaves, obrigando a prefeitura de Belo Horizonte a cumpri-la, o que não ocorreu até o momento, por alegação de que não há lugar para colocar as cerca de 200 famílias invasoras


 
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