Terça, 22 de Maio de 2012
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Nos passos de José Alencar

Viver Brasil seguiu as pegadas do vice-presidente da República por todas as cidades mineiras em que morou e reuniu algumas histórias pra contar

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Daniel de Cerqueira, Pedro Vilela e Celso Junior/AE


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Foto: Elza Fiúza Abr - Fotomontagem: Paulo Werner

Quem és tu, que veio ao mundo abaixo da estaca zero com a falência do pai logo ao nascer? Que se fez vendedor, ganhou dinheiro, multiplicou-o, estendeu-o, tornou-o quase inabalável até em crises econômicas como a do ano passado, a de 1929, lembra-se, que fez seu pai perder a casa e tudo? Que se tornou o segundo homem na escada do governo federal? Que expõe seus tumores a uma sociedade ainda tímida com o câncer? Que diz não ter medo da morte, apega-se a Deus, mas também à cura da doença? Que se assemelha ao cidadão comum misturado em meio da multidão, aquele que se encontra nas esquinas, nos bares, nas igrejas? Sem pretensão de parecer mais, retocar a imagem nessa época de aparências? É o que é. Difícil respondê-las senhor vice-presidente da Repú­bli­ca? Elas po­dem estar nos caminhos da vida vivida, percorrida e foi com essa intenção de juntar os pontos, traçar e revelar seu retrato que nos embrenhamos pelo canto direito de Minas à procura de suas pegadas, a do cidadão José Alencar Gomes da Silva.

Chegamos ao pequeno povoa­do de Itamuri, na sua época Glória, distrito de Muriaé, Zona da Mata. Lá pouco cresceu: a igreja, carros de boi, a venda, crianças no corre-corre, o rio Glória embaixo, a conversa sem pressa. “Foi nesta casa que ele nasceu às 9h do dia 17 de outubro de 1931”, diz dona Nair Seldin, com a certidão em mãos, e moradora do imóvel reformado não se sabe quantas vezes. Ficou o bar no lugar, onde Antônio Gomes da Silva, pai de José Alencar, o 11º dos 15 filhos, vendia tecidos, ferragens, chapéus e perdeu tudo com a crise de 1929 que atingiu gradativamente os produtores de café da região. “Há poucos anos ele veio aqui e pediu para rezar terço na igreja. Ficou lotada.”

Confira os bastidores desta matéria no Blog da Redação.


Galeria de Fotos

Elvécio, Almir, Simplício e Olegário: amigos em Limeira
Elvécio, Almir, Simplício e Olegário: amigos em Limeira

Poucos o conheciam pessoalmente, tinham convivido com José Alencar em tempos tão distantes. “Fazia uns 40 anos que nem ouvia falar nele. Pensei: deve ter morrido. Depois apareceu como candidato”, diz José Sil­va Barros, o seu Zezinho, primo, companheiro de infância e agora amigo na fase adulta do vice-presidente. “A gente tomava banho no rio, caçava passarinho com bodoque.” Passava as férias juntos no sítio dos pais de seu Zezinho. “Até hoje ele me pergunta se ainda tem a varanda.” Há. Como também o quarto em que dormia. Lá não foi mais, vai é ao restaurante do primo sempre que pode e quando isto não acontece, envia para Brasília costelinha de porco, frango caipira, cebola da horta. “É custoso encontrar pessoa igual a ele, um homem de quem todos só falam bem.”

Quem prefere deixar almoço sofisticado na casa de políticos para ir ao restaurante de beira de estrada do seu Zezinho. “Aí complica, porque o pessoal acaba vindo com ele. Havia umas 80 pessoas aqui.” Ficou famoso a reboque do primo, que viveu três meses em Itamuri e foi para a vizinha Rosário da Limeira, hoje cidade, antes distrito de Muriaé, onde viveu seis anos, a quem moradores se lembram. Fomos também, puxar o fio da memória destes senhores, antes tão meninos e saber que Zulmira, mãe do seu Simplício Ferreira da Rocha, emprestou o terninho do filho ao José que tinha encharcado a roupa ao cair da garupa do cavalo. “Sempre cobrava o terninho, mas não havia meio de devolvê-lo. Era tão bom, de fustão, cor de galinha carijó”, conta Simplício. Até hoje espera pela roupa, senhor vice-presidente.

Walter Martins: “A gente bebia cachaça na xícara esmaltada”
Walter Martins: “A gente bebia cachaça na xícara esmaltada”

Há Olegário Maciel, da sua época em Limeira, mas que conviveu com ele quando comerciante de tecidos em Ubá. “O slogan era preço justo, preço fixo e preço aberto. Tirava nota fiscal”, lembra. “Servia café e perguntava por todo mundo daqui.” Da família do seu Almir José da Silva, que pouco se recorda da época de José Alencar naquele lugarejo. “Meu pai era muito amigo do Toninho Caquinho.” O seu Caquinho, aí, na maior intimidade, é Antônio Gomes da Silva, o pai de José Alencar. É de casa, deixou suas marcas em Rosário da Limeira, que ajudou a elevar a município e onde é chamado mestre imortal.

Marcado no braço esquerdo de Antônio Campos Alves, o Toninho. Ele tatuou as iniciais JAGS e dois asteriscos. É isto mesmo, o nome do vice-governador. “Para lembrar dele todos os dias”, diz Toninho, ex-funcionário de José Alencar e seu compadre. “Ele é pessoa fácil de conviver, rígido, cobra muito.” Lembra que foi numa festa em homenagem à empresa, em que estava o chefe José Alencar, ficaram até 4h da manhã e no dia seguinte ele ligou para o seu gerente às 7h para saber se o Toninho havia chegado. Nem isto o levou a desistir da tatuagem. Ele já viu? “Não, nem sabe.”

Abramino Sabino e ao fundo a casa onde o empresário morou em Ubá
Abramino Sabino e ao fundo a casa onde o empresário morou em Ubá

Imortalizado na história da cidade, escrito por Elvécio Geraldo Gonçalves Dias. “De Rosário da Li­meira, ele foi para Canteiro com a família. Alugaram casa na fazenda de Mário Serenário. De lá para Pirapanema”, afirma o historiador. Estudou numa escola improvisada, com dona Célia Macedo, e nessa vida nômade chegou a Muriaé. Nós também. Fez o quarto ano primário, o curso de admissão na escola Edmundo Germano e a primeira série do ginasial (6ª série do ensino fundamental de hoje) no colégio São Paulo. Suas notas no bo­letim, a maior a de francês, e o atestado médico de que não tinha varíola nem outras doenças. Parou por aí, em 1945. “Ele é autodidata, fala até línguas”, defende o advogado Ronaldo Guarçoni, seu sobrinho.

Nem sempre de bem assim: os dois foram, logo após, morar em Miraí, a terra de Ataulfo Alves, com a família. Abriram a pensão Brasil. “Ele tinha ciúme, minha avó gostava muito de mim, porque eu a ajudava a preparar as manteigueiras”, lembra. Coisas miúdas da vida junto com tantos irmãos, sobrinhos. “José Alencar é muito vaidoso. Andava arrumadinho, gostava de baile, sempre frequentou a sociedade.” Nesta época o pai, seu Caquinho, vivia doente, sempre num quarto escuro, e a situação econômica tinha piorado, nos conta, em nossas andanças e na dele também, em Miraí o professor Luís Alves Pereira Filho, o Luizito.

Boletim: aprovação na 1ª série ginasial
Boletim: aprovação na 1ª série ginasial

“Um dia o José Alencar bateu na porta de casa e pediu ao meu pai que lhe emprestasse dinheiro para pagar a passagem de volta a Muriaé”, diz. Ga­ran­tiu o retorno, o primeiro emprego na loja A Sedu­tora, fora dos balcões das vendas do pai. “Éramos 15 irmãos, hoje somos seis, não havia como todos trabalharem na família. Eu sou vendedor”, diz o próprio José Alencar. Firmou-se na profissão, ganhou fama nas redondezas. “Era o melhor”, retifica seu Zezinho. Voltou a Miraí para visitar a família, pagar o pai de Luizito, o médico e ex-prefeito Luís Alves Pe­reira, honrar sua dívida, mas foi perdoado. “Meu pai deu uma piscadinha e disse que não precisava, seria um presente”, lembra Luizito.


Começava a se firmar na vida profissional e a fama de bom vendedor lhe abriu os caminhos para Cara­tinga, mais distante dali, não de jardineiras ou a cavalo comuns naquela época, mas num Austin verde, carro importado, do empresário José Bomfim, que o foi buscar para trabalhar na sua loja e a do irmão João. Deu certo por lá: logo depois abriu seu próprio estabelecimento, A Queimadeira, se associou numa fábrica de macarrão, fez o tiro de guerra, casou-se com dona Mariza. “A cerimônia foi de manhã, me lembro bem. Estava com vestido azul, estampado, e depois houve almoço no hotel Suíço, o melhor da cidade”, diz Dora Bomfim Pereira do Vale, amiga daquela época e de agora. “Quando vem aqui, passa e grita: minha irmã. É sempre atencioso o Zé 55.” Ah! Esse era o seu apelido quando morava lá, para onde também levou a mãe e parte da família.

Luís Alves Filho, em Miraí: pai emprestou dinheiro a Alencar
Luís Alves Filho, em Miraí: pai emprestou dinheiro a Alencar

Fez e aconteceu na cidade. Até time de futebol criou com os amigos, porque não conseguiu ser titular no grande Caratinga. “Resolvemos fundar o Barro Branco Futebol Clu­be. Como éramos os donos da bola, jogávamos todos”, comenta o vice-presidente. Mas como nem sempre se ganha, nem se pode interferir no escorregar da vida, a morte do irmão mais velho Geraldo Gomes da Silva de câncer no pâncreas, que havia emprestado dinheiro para abrir A Quei­madeira, o fez sair da linha de Caratinga. Voltou à região de Muriaé, na cidade de Ubá, onde o irmão tinha a União dos Cometas. Não se abateu, pelo contrário, tocou a vida para frente, esticou a empresa e para lá também cortamos a estrada em busca de quem tenha convivido com ele.

O que não falta: todo mundo é amigo, quer falar, contar quem é José Alencar, o empresário bem-sucedido, o ex-presidente do Rotary, o cara que gosta de boa aguardente. “A gente bebia cachaça na xícara esmaltada, essa que hoje não pode nem falar por que retém sujeira, e comer chouriço”, lembra Walter Martins Quintão, um dos seus companheiros no bar do Tabajara Es­por­te Clube. “Ele foi um dos primeiros fundadores do time.” O bote­co existe até hoje, mas estava em reforma quando a revista este­ve na cidade e fomos ao bar Industrial, também frequentado pelo vice e seu Walter, sempre simpático, que o encontramos na Wem­bley. É, a loja antes de José Alencar, e atualmente dos funcionários. “Comecei a trabalhar com ele aos 16 anos na União dos Cometas, depois na Companhia Industrial de Roupas Wembley”, diz Antônio Luciano da Costa, na sua loja, comprada do vice-presidente.

Vice-presidente com a mulher, dona Mariza
Vice-presidente com a mulher, dona Mariza

O Wembley aí lembra o tão caro futebol a José Alencar, que sabe de cor a letra do Nacional Futebol Clube, de Muriaé. “Acho que é o único”, declara o advogado Ronaldo Guarçoni. Mas voltando ao nome, que na ideia inicial de Alencar era Wim­bledon, referência ao tênis, na época em alta em terras gramadas por causa de Maria Ester Bueno exímia nas raquetes, foi escolhido por agência publicitária. “Ele queria ligar o nome sofisticado com a camisa, não de luxo, mas de qualidade. Mas argumentei que o produto se destinava à classe média, que não conhecia tênis”, puxa na memória Edgard de Melo, diretor da Asa Comunicação.

Por que não Wembley, nome do estádio inglês, onde seria realizada a Copa?  Aceitou e o publicitário começou a atendê-lo em Ubá. “As reuniões eram sempre aos sábados à tarde. Depois tomávamos pinga e comíamos torresmo”, diz Edgard Melo, que virou amigo e há pouco tempo recebia telefonemas dele. “Vamos tomar uns golos”. Nestes goles incluía o uísque Bucanas. “Hoje dona Mariza não deve deixar mais.” As camisas ganharam o estado, ficou a amizade, os negócios se foram para outro lugar: os fios, os tecidos, quando José Alencar conheceu o governador do Distrito 458, do Rotary Inter­na­cional, Luiz de Paula Ferreira numa visita a Ubá. Resolveram aproveitar os incentivos fiscais da Sudene, criaram a Coteminas, em Montes Claros, se expandiram fora das fronteiras do estado sem ajudas governamentais. Mudou de Ubá para Belo Hori­zonte, deixou a casa na rua Vicente Leite, onde ainda hoje mora Abra­mino Sabino. “Numa homenagem, no Palácio das Artes, ele falou no discurso que eu era o melhor vizinho. Fiquei emocionado”, diz seu Sabino. “José Alencar é como se fosse da minha família.”

José Alencar, o filho Josué, Luiz de Paula e parte do conselho da Coteminas
José Alencar, o filho Josué, Luiz de Paula e parte do conselho da Coteminas

Ficaram as histórias por lá, outras se encadearam na capital mineira: presidência da Fiemg, candidatura derrotada ao governo do estado, eleição para o Senado, depois para a Vice-Presidência da República, os tumores cancerosos, as cirurgias. Passou da luta pela sobrevivência econômica para a da vida, sem medo de ser transparente, de se mostrar neste caminho tortuoso fora das estradas reais de Minas, nos hospitais.

“É bom ver um homem com a projeção que ele tem ser tão consciente e aplicado”, afirma o seu médico oncologista Paulo Hoff, que cuida do vice-presidente há três anos. Diz ter aprendido com ele a encarar a existência de forma positiva, a fé em Deus, a ser mais humilde. Por onde passa deixa um pouco do seu jeito até nos corredores na batalha contra a doença. “As lições da vida? Incontáveis, advindas das constantes conversas sobre tudo e mais um pouco do médico com o mineiro bom de prosa e grande contador de histórias”, diz o cirurgião Raul Cutait. Pois é, este é o José Alencar desenhado nessas andanças por Minas e pelo Brasil.

Colaboraram Flávio Penna e Márcia Queirós

Por onde andei

De distrito a cidade a linha preenchida por José Alencar no tempo em que vivia em Minas

- Nasceu no Glória, hoje Itamuri (foto), distrito de Muriaé, às 9h do dia 17 de outubro de 1931. Viveu lá três meses, onde o pai Antônio Gomes da Silva era comerciante de tecidos, ferragens, chapéus e faliu nesta época com a crise de 1929 que derrubou o preço do café brasileiro

- Mudou com a família para Rosário da Limeira, antes distrito de Muriaé e hoje emancipada.  Ficou seis anos. Depois morou em Canteiro e Pirapanema, na mesma região

- Foi para Muriaé, onde viveu três anos, trabalhou com o pai na loja e frequentou pela primeira vez a escola, no quarto ano primário. Antes havia estudado em casa. Foi alfabetizado pela mãe Dolores Gomes Perez da Silva

- Depois morou em Miraí, também na Zona da Mata, onde a família tinha a pensão Brasil

- Em 1946, retornou a Muriaé, desta vez sozinho, para trabalhar na loja A Sedutora. Conheceu José Bomfim, dono da Casa Bomfim, de Caratinga (foto), que o convidou para ser seu funcionário

- Lá foi ele, em maio de 1948, num Austin verde para Caratinga. Resolveu deixar de ser empregado e abriu A Queimadeira, em 31 de março de 1950, depois se associou para criar fábrica de macarrão. Casou-se e com a morte do irmão mais velho, Geraldo Gomes Silva, assumiu seus negócios em Ubá

- Em 1959 estava em Ubá, ampliou os negócios da União dos Cometas, criou a Companhia Industrial de Roupas União em 1963, que depois passou a se chamar Wembley, o mesmo nome do estádio da Inglaterra, onde ia ser realizada a Copa do Mundo. Também em Ubá conheceu o empresário Luiz de Paula Ferreira, no Rotary, se interessou pela Sudene e os dois resolveram fundar em 1967 a Coteminas, em Montes Claros
 
- Depois Belo Horizonte, onde foi presidente da Fiemg de 1989 a 1995, candidatou-se ao governo de Minas em 1994, e quatro anos depois se elegeu ao Senado, com 3 milhões de votos


 
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