Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Crônica

A Alquimia do Sono

Texto: Bruno Fernandes | Fotos: Arte: Paulo Werner


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Finalmente resolvi ler um livro do Paulo Coelho, só para poder criticar com propriedade. Até então, minha opinião sempre foi “não li e não gostei”, o que não pode ser considerado de forma alguma um julgamento embasado e coerente. Mas explico. Um dos poucos preconceitos que eu ainda possuo (ou assumo que tenho) é contra personalidades cujo fã-clube é formado, em sua grande maioria, por gente bitolada e repetitiva.

Eu tenho considerável antipatia por idolatrias extremadas e injustificáveis, que beiram o radicalismo burro, se é que existe radicalismo inteligente. E, como consequência, tenho birra dos adorados, entre eles, Paulo Coelho. Outros exemplos: Che, Fidel, Lula, Chico Buarque, Caetano e até Deus, porém desse último eu gosto e respeito, já que posso imaginá-lo na forma como quiser e para mim ele não tem nada a ver com essa figura antropomórfica e controladora que a maioria dos seus fãs, também chatos pra caramba, adora enaltecer sob qualquer pretexto, principalmente em público.

Longe de mim questionar a inteligência de algum deles. Ninguém que vende milhões de livros, ou milhões de discos ou consegue milhões de votos pode ser chamado de burro ou incompetente. Pelo contrário, todos foram muito sagazes em explorar, de forma legítima, diga-se de passagem, a maior fonte de dinheiro, reconhecimento e poder existente no mundo: os enormes e eternos vazios emocionais e intelectuais do ser humano. Cada um, dentro de sua época, descobriu um nicho diferente nas carências humanísticas e conquistou uma enormidade de seguidores capazes de mantê-los ricos e admirados até o fim da vida, ou mesmo depois dela. A diferença é que Deus parece não ligar muito para o dinheiro e acabou deixando seus direitos autorais nas mãos de falsos agentes e representantes.

Quanto mais inseguro, perdido e vazio é o indivíduo, maior sua necessidade de apegar-se a algo ou alguém que preencha suas lacunas interiores. Já aconteceu comigo também. Na época mais idiota e fútil da minha vida (a adolescência, claro), eu era obcecado pelo meu time de futebol, ao ponto de tê-lo como meu único tópico para conversas e nunca aceitar qualquer opinião que ameaçasse denegrir o objeto da minha idolatria desequilibrada. À medida que minha burrice diminuiu (hoje ela está em um nível aceitável), larguei o fanatismo clubístico de lado.

Quando disse que estava finalmente lendo O Zahir, dois conhecidos, adoradores do mago, trataram logo de me prevenir, dizendo que este livro é o pior de todos, que não conseguirei compreender e absorver toda a genialidade do autor, que preciso urgentemente ler Brida ou O Diário de um Mago e que, se necessário, farão questão de me dar os exemplares de presente, tudo para que eu me filie ao fã-clube. Disse a eles para ficarem tranquilos, que experimentarei a leitura sugerida e tentarei mudar minha opinião. Até porque, para quem disse, na edição de Playboy de outubro de 92, que sabe como fazer chover e ventar, Paulo Coelho só tem conseguido me fazer dormir.        


 
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