Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Balada

Anfitriãs da noite

Elas definem quem entra e quem fica de fora. Recebem os clientes e mostram o melhor da casa. A Viver Brasil foi a boates badaladas de BH para conhecer de perto o trabalho das hostess

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Daniel de Cerqueira e Pedro Vilela


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Hostess. O significado da palavra de origem inglesa já traduz um pouco do trabalho que elas exercem. Como boas anfitriãs, recebem o público, decidem quem entra e quem sai. Controlam a lista de convidados e a proporção entre homens e mulheres. Simpatia, educação, jogo de cintura e boa dose de paciência são os requisitos básicos para quem quer se tornar uma delas. A profissão de hostess surgiu nos Estados Unidos e se difundiu pelo mundo. No Brasil, elas ganham espaço e importância. Não é tarefa fácil barrar alguém disposto a pagar para entrar. Como ótimas jogadoras, elas driblam as dificul­dades com habilidade. O não vem acompanhado de um sorriso. Nem todos os clientes compreendem. Não são raras as grosserias ou desaforos. Para entender um pouco mais desse trabalho, a Viver Brasil conversou e acompanhou cinco hostess pela noite da capital mineira.

A transexual Walquíria La Roche, uma das mais antigas e famosas hostess de Belo Horizonte, está à frente das boates Roxy/Josefine.  Wal, como é conhecida, foi considerada uma das três melhores hostess do Brasil. “O trabalho ultrapassa o dever de receber. Tenho uma relação muito próxima com os clientes”, explica. Devido à filosofia da casa, reduto do público GLS, a hostess tem papel diferenciado da maioria das casas noturnas. “Não podemos preterir ninguém, senão estaríamos sendo incoerentes com nossa proposta: ser totalmente democrática.” Na Josefine, Wal exerce mais o la­do diplomático de uma hostess. Se algum cliente excede na bebida e cria con­fusão, por exemplo, é ela quem o convida a se retirar. Seu trabalho também se assemelha a de relações públicas. “Convido pessoas para conhecer a casa, recebo os clientes, mostro a boate e apresento os shows”, explica.

Já no Club Chalezinho a hostess tem função distinta. É ela quem define o público que vai entrar. E quem faz esse papel de general, como ela se autodenomina, é Paula Macynter, 26 anos. Com biotipo mignon, meiga e de fala mansa, quem vê Paula nem imagina o pulso firme que tem. Na sexta-feira em que acompanhamos seu trabalho, era dia de festa hip hop no Chalezinho. O que significa predominância de público com idade entre 18 e 21 anos. A regra é dar preferência à entrada de pessoas com convite. Mas como para toda regra, há exceção, algumas pessoas dificilmente são barradas. Pelo visto, mulheres bonitas e bem vestidas são sempre bem-vindas. Já os homens... Bom, esses têm que suar a camisa e possuir discurso recheado de bons argumentos. O primeiro desavisado chega às 23h. Tenta convencer Paula a deixá-lo entrar. De nada adianta. Ele aparentava uns 30 anos e estava um pouco fora do perfil da festa daquele dia. A hostess, abusando de charme e educação, manda o rapaz de volta para casa. Ele sai reclamando. Jura que não volta mais ali. “Isso é normal. Eles sempre dizem isso”, comenta Paula, que logo se volta para a porta atendendo outro chamado. Dessa vez, são três meninas que desejam entrar. O nome delas também não está na lista. Muito menos têm convite. Mas Paula dá um jeitinho e coloca-as para dentro.


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Clientes na fila para entrar na boate naSala
Clientes na fila para entrar na boate naSala

“Precisa ter equilíbrio na casa. De preferência, mais mulher do que homem.” A hostess admite que às vezes isso causa problemas. “Já chamaram a polícia pra mim, me acusando de preconceito”, conta. Paula deixa a por­ta e tenta convencer um grupo de meninas que pareciam indecisas. Todas lindas e bem novinhas. “São clientes interessantes para a casa. Encaixam-se ao estilo da festa”, revela. E a política do Chalezinho é seguida pela maioria das casas noturnas. Mulheres têm sempre preferência. A beleza e a elegância costumam ser passaportes de entrada. “Mas os critérios devem obedecer ao perfil da casa”, afir­ma a DJ Sininho, ex-hostess. Ela já passou por casas de público bem variado, como Club MTV, Bombar, Joy, naSala, Roxy e Depu­ta­madre. Hoje, Sininho seleciona não o público, mas sim as músicas que animarão a balada. Mas recorda-se dos desaforos que já ouviu. “Há sempre os mais exaltados ou bêbados, que acabam sendo mal-educados. O melhor a fazer é ignorar e focar no trabalho.”

E é o que faz Aline Ribeiro, 29, a hostess da boate Deputamadre. Ela não é de meias-palavras. Diz claramente que tem autonomia para escolher quem entra ou não na casa. “Esse é o meu papel, de selecionar o público, sou responsável por manter um ambiente legal”, justifica. Mas ela admite que já teve problemas com o papel. “Uma vez barrei um cara porque ele estava bêbado. Ele era policial federal e criou o maior caso.” Ainda assim, ela segue firme na postura. “Passo os clientes vips na frente sim. Essa é a lei da noite e as pessoas têm que entender isso”, diz Aline.

A assessora de imprensa Sylvia Fernandes vive seu dia de hostess
A assessora de imprensa Sylvia Fernandes vive seu dia de hostess

Mas nem sempre é fácil o cliente entender. Quem revela é Michele Santana, 24, hos­tess de uma das casas de público mais seletos da cidade, a naSala. Era sábado e a boate comemorava o aniversário  do DJ Válber. Teo­ricamente só entrariam sócios ou pessoas com nome na lista. Na prática, não é bem assim. O primeiro casal chegou sem nome na lista e ficou de fora. Michele educada­mente os convidou para voltar outro dia. Tratava-se de um casal mais velho, que não estava vestido conforme a maioria. Após alguns minutos chega outro casal, em carro importado. Dois jovens bonitos e bem vestidos. Depois de minutos de conversa, a hostess abre exceção. “Eles são de outra cidade. É uma oportunidade da casa ser divulgada lá fora”, justifica.

Apesar de notarmos certo padrão de beleza entre os frequentado­res da casa, o socioproprietário da naSala, Bruno Carneiro, nega a seleção baseada nesses critérios. “Não há como transformar o perfil em regra. Buscamos clientes que queiram curtir uma balada saudável, sem excessos. Costumo dizer que nosso público é composto por pessoas educadas e não as que se vestem de um jeito ou de outro.” E assim segue a seleção do público. A hostess Michele se saía muito bem até sentir um mal-estar repentino. Por recomendações médicas, é encaminhada ao hospital. Primeiramente quem retoma as funções de Michele são os próprios seguranças do local. Confusos, eles não sabem determinar quem entra ou não na casa. A assessora de imprensa da naSala, Sylvia Fernandes, assume o posto e acaba sendo hostess por um dia. “Nunca fiz isso na minha vida!”, confessa assustada.

DJ Sininho, ex-hotess: “Há sempre os mais exaltados”
DJ Sininho, ex-hotess: “Há sempre os mais exaltados”

No início, se atrapalha um pouco. A fila aumenta e a confusão também. O DJ Válber chega para dar uma força. Mostra entre aqueles que estão na fila os que são seus convidados. Mas a ajuda do aniversariante acaba complicando um pouco o trabalho de Sylvia, já que, logo, a casa se enche de homens. A cada meia-hora chega um relatório do caixa avisando a quantidade de homens e mulheres. A hostess tem o papel de equilibrar a proporção.

É hora de Sylvia se virar para barrar os homens. “Eles reclamam quando estão aqui fora, mas quando estão lá dentro, acham bom ter mais mulheres que homens,” comenta. Aos poucos, o movimento da casa vai se estabilizando e todos conseguem seu lugar ao sol. Para a primeira experiência, Sylvia até que se sai bem. Mas pelos apuros passados, pode-se avaliar a falta que uma hostess faz. Fica clara a importância da função. É preciso mesmo rebolar para dar conta do recado. 

Paula Macynter rebola para barrar os clientes no Club Chalezinho
Paula Macynter rebola para barrar os clientes no Club Chalezinho

Para saber como funciona a seleção do público em uma das cidades mais badaladas do mundo, a colunista da Viver Brasil, Angelina Freitas, saiu às ruas de Nova Iorque. Conversou com alguns proprietários de casas noturnas disputadas na cidade, clientes habituées desses locais e com um doorman – que é o responsável pelo ingresso ou não dos clientes. Lá as hostess exercem o papel da porta para dentro. São os doorman que decidem quem entra ou não, na maioria das casas. Rocco Ancarolla, socioproprietário do Pink Elephant, diz que o doorman representa a imagem da casa. Por isso, deve saber quem são as pessoas que circulam na noite e reconhecê-las. “O doorman vai deixar entrar as pessoas que regularmente saem à noite e aqueles que gastam sempre.” Outro ponto importante é conhecer as figuras internacionais, já que a cidade recebe gente do mundo inteiro. O brasileiro Fernando Tormena mora em Nova Iorque e trabalha como doorman por lá. “Quem está bem vestido ou com o nome na lista de convidados entra sem problemas. Fora da lista só entra mulheres lindas ou homens comprando mesa”, revela.

Mas o método parece não agradar a todo mundo. Um cliente, que preferiu não se identificar, reclama da falta de gentileza dos doormans. “Já vi muita gente ser maltratada na porta. O que acho desnecessário. Acredito que ser cortês deveria ser obrigatório tanto com a pessoa que está querendo uma mesa, quanto para aqueles que só querem entrar.” Pelo visto os doorman americanos têm muito o que aprender com as hostess brasileiras. Afinal, cordialidade e boa educação é o que não falta a elas. Além, claro, do famoso jeitinho brasileiro...


 
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