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ReportagemCrack pedra da morteHá 20 anos o crack não existia no Brasil. Hoje, a droga já supera o consumo da cocaína nas grandes cidades com uma diferença: seu poder de destruição e dependência é muito maior
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Fotomontagens: Paulo Werner sobre fotos SXC / Pedro Vilela
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A psiquiatra Maria Arlete de Castro Andrade, que há 15 anos atua no atendimento aos viciados em drogas, observa o crescimento do consumo de crack também nas classes média e alta e afirma que o que mais assusta é a correspondência ao esterótipo da mendicância. “Jovens de 16 a 20 e poucos anos que tornam-se drogadictos. É uma teia de aranha que se fecha sobre o indivíduo.” Apesar de estar presente em BH desde 1994, quando chegou por meio dos traficantes paulistas para venda na PPL e daí foi disseminada na região metropolitana de BH, hoje a droga é produzida em cidades do interior, em laboratórios caseiros. Mas ainda não há, segundo o subsecretário antidrogas da secretaria de Estado de Esportes e Juventude, Clóvis Benevides, retrato fiel sobre seu uso na cidade. “O crack mudou todas as perguntas. As estratégias das bocas já não são as mesmas.”
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“Quando a pessoa está usando crack não toma banho, nem escova os dentes. De meia em meia hora sobe o morro e deixa 10 reais”, conta o ex-viciado Israel Felipe de Castro, 29 anos e 12 internações na clínica Raul Soares. Durante 6 anos ele viveu o que até Deus duvida: 7 dias acordado fumando sem parar. Em uma noite chegou a gastar 2 mil reais em pedras; ficou sem dinheiro até para pegar ônibus. Entregou o carro do pai – um Palio – na boca de fumo em troca de uma semana da pedra. Saiu de casa e mudou-se para um quarto na Pedreira pra morar perto dos traficantes. E quando o dinheiro acabou e não tinha mais como conseguir, foi trabalhar para o tráfico. Virou olheiro da boca; a senha quando a polícia chegava era gritar “galo doido”. Numa destas, deu de cara com um ônibus cheio de policiais que entravam para invadir o morro. “Me quebraram no pau.” Como se fosse pouco, não tinha onde comer, andava curvado e sentia dores na sola do pé. “Vi gente morrendo, matando e atirando sem nem saber em quem.” O prazer de Castro virou medo e hoje, recuperado, casado e pai de um bebê, ele é categórico: “o crack estava mais devagar, havia menos usuários. Quem não vende está usando, inclusive meninos de 8 anos. Tá todo mundo ligado a ele.” Caiçara, Padre Eustáquio, Coqueiro, Carlos Prates são alguns dos bairros que ele citou em que percebe a presença forte da pedrinha maldita. O motoboy A.J.S., 28 anos, já cheirou naftalina, pó de vidro, novalgina e pó Royal. Viciado em cocaína, está em tratamento, mas afirma que nada se compara à devastação causada pelo crack. “Depois de três minutos já vem a fissura e ela nunca mais sai da cabeça. Em meia hora usa-se 5 gramas facilmente.” Preso por assalto, está em liberdade condicional e chegou a pesar 40 kg para uma altura de 1,80m. “Tentei três suicídios. Da última vez (este ano) tomei 1 frasco de Baygon, 40 comprimidos de carbamazepina, 80 de amitriptilina e injetei uma seringa de insulina. Isto depois de ver que em um dia fumei meu apartamento todo.” Ou seja, vendeu tudo que tinha para comprar crack. |
“É uma droga de poder tóxico tão fugaz e voraz que permite o recrutamento de usuários mais rapidamente. É preciso reconhecer a situação como preocupante”, alerta Clóvis Benevides. E bota preocupante nisso. O pesquisador Luiz Flávio Sapori, que coordena estudo com objetivo de análise entre o crack e a dinâmica da violência na região metropolitana de Belo Horizonte, acredita que o crescimento dos homicídios nos últimos 10 anos – que entre 1997 e 2002 quase triplicou – coincide com a disseminação da droga. Ele aponta que tanto a Pedreira como o Morro das Pedras, Contagem e Betim também se tornaram mais violentos. Também avalia que a dependência faz este usuário cometer mais furtos e assaltos para sustentar o vício, amontoam-se em sujeira e abandono, rompem os laços sociais e familiares rapidamente. “O crack ampliou o mercado consumidor e os lucros. Consequentemente, a ambição é maior e alimenta disputa entre gangues rivais. É um comércio disputado, que exige mais armamentos para resolução de conflitos. Os próprios usuários são mortos pelos traficantes com mais frequência, pois se tornam devedores constantes. O potencial para a violência é maior”, afirma Sapori. Para ele, é um tráfico consolidado, preponderante sobre a cocaína “e está se espalhando pelo Brasil, inclusive em cidades de pequeno porte. Locais antes conhecidos como zona de furto, a exemplo de Teófilo Otoni e Governador Valadares já são caracterizados pelo tráfico de crack”. Os problemas causados por este resto de cocaína chegaram até mesmo às penitenciárias. De acordo com o superintendente de Atendimento ao Preso da Subsecretaria de Administração Prisional, Guilherme Augusto de Faria Soares, é maior, por unidade, o gasto com antidepressivos e desintoxicantes e o sistema prisional está mais cheio por conta do crack. Realmente, é um bagulho muito, muito doido. A chapa está mesmo quente e “também morre quem atira.” E, ainda que se use todos jargões ou frases feitas, a constatação, infelizmente, é uma só: o crack invadiu BH e movimenta somas que, de acordo com a assessoria do Serviço Brasileiro de Apoia a Pequenas Empresas (Sebrae), correspondem ao faturamento de empresas de grande porte. Fica a pergunta: “E agora, Zezinha?” |
Apreenções de crackNúmero de ocorrências em BH – janeiro a julho de 2009 2007 1.075 Fonte: Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds/Seds)
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No submundo do crackO que é Como age Poder viciante Consequências físicas Consequências psicológicas Comportamento do usuário Faixa etária Epidemia no Sul |
Presos por tráfico de drogasEm unidades da Suapi - MG Julho de 2007: 4.319 População carcerária: 17.930 em 56 unidades Fonte: Superintendência de Articulação Institucional e Gestão de Vagas da Secretaria de Defesa Social (Seds) |