Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Artigo

Guerra do rio (e de todos nós)

A omissão de muitos leva ao assalto do poder – legal ou informal – por alguns poucos

Texto: Paulo César de Oliveira
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Paulo César de Oliveira -

A violência que atingiu o Rio de Janeiro nos últimos dias tem contornos de guerra civil. A derrubada de um helicóptero da Polícia Militar, com o uso de armas de guerra, dá a dimensão do enfrentamento entre um estado que tudo pode, em termos de violência, e outro que, manietado por uma legislação ambígua e pela incompetência de seus comandantes, assiste a tudo, com alguns espasmos de autoridade. Não se cobra aqui ações violentas do estado. O que se quer é que as autoridades, de todos os níveis, exerçam na plenitude o poder. Cobra-se também postura mais digna da sociedade. A omissão de muitos leva ao assalto do poder – legal ou informal – por alguns poucos. A covardia, a omissão, leva à ousadia. A repercussão internacional da guerra do Rio parece preocupar as autoridades apenas pe­las consequências que pode trazer ao sonho de grandeza deste país. Assusta a elas a possibilidade de o Rio de Janeiro perder o direito de ser sede das Olimpíadas de 2016. Certamente alguns dos que votaram com a cidade devem estar arrependidos do apoio que deram. É bom lembrar que, antes das Olimpíadas, ainda teremos a Copa das Confederações, em 2013, e a Copa do Mundo, em 2014. É justa, em parte, a preocupa­ção das autoridades. Mas não se pode esquecer de que, antes dos turistas e atletas, há uma população acuada no dia-a-dia pela violência e desmandos. A sociedade precisa de ação imediata e não pode ser refém, de um lado, de sonhadores que agora defendem o fim das penas de prisão, substituídas por penas alternativas, e de outro, por radicais que falam em pena de morte. Mas an­tes de cobrarmos punições, é preciso que tenhamos a coragem de assumir que somos todos culpados. Culpados por não conseguirmos diminuir a distância entre ricos e pobres, de diminuir a pobreza, uma das causas, mas não a única, da violência. Atri­buir atos de bandidagem apenas à pobreza, é desrespeitar quem é pobre, mas trabalha com honestidade para sobreviver. Até porque, estes atos não são praticados apenas pelos desvalidos. E aí chegamos ao cerne do pro­blema. As mesmas leis que asseguram a impunidade dos desonestos incrustados no poder legal, garantem a liberdade dos comandantes do poder paralelo nas ruas. Esta certeza de que a lei não os alcançará, e se o fizer será de forma branda, estimula o crime de todos os tipos. A impunidade de mensaleiros – vejam aí o José Dirceu dando cartas e comandando campanhas eleitorais –, de políticos como José Sarney que se apropriaram do estado, de quem faz campanha eleitoral com dinheiro público, de quem superfatura obras, não cumpre decisões judiciais, é um estímulo a organizações criminosas como PCC e traficantes de morros e do asfalto, não apenas no Rio e em São Paulo, mas em todo o país. Se não tomarmos consciência de que é preciso mudar, acabar com a impunidade, vamos continuar omissos. Omissos até quando a violência nos atingir de forma direta, com a morte ou mutilação de alguém de nossa família. Aí passaremos a indignados. Indignados à procura de culpados, sem assumirmos que cada um de nós é o principal culpado por permitir a continuidade da impunidade em todos os níveis. A reação da sociedade, é bom lembrar, envolve também aqueles que ocupam cargos públicos com real espírito público, e não apenas como um burocrático emprego. Estas pessoas precisam sair da inércia e se darem ao respeito. As instituições têm o rosto e o caráter de quem as ocupa. Se quem manda se acovarda, as instituições entram em colapso. Ainda é tempo de agir. E acabar com o estado de anarquia que avança no Brasil, onde criminosos fazem o que bem entendem por saberem impunes. Que não se iludam os espertos, que burlam a lei para assegurar impunidade. Eles serão perdedores também. Esta guerra, como os últimos episódios mostram, será vencida por aqueles que não se preocupam em burlar. Preferem desconhecer as que existem e impor a sua própria lei.
 
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