O tema solidão é complexo, inesgotável, marcado por uma pluralidade de sentidos e abordagens. O paradoxo social contemporâneo talvez seja a busca do homem pela autonomia absoluta e o sentimento de vazio e solidão, em que, a cada dia, aprofundamos mais.
Na nossa cultura, a experiência de estar só representa algo negativo, associado à dor do desamparo e do isolamento. Nesse sentido, estar só causa sofrimento patológico.
Em uma sociedade pós-moderna, caracterizada pelas comunicações eletrônicas, pelas conexões simultâneas, a tudo e a todos, pela tecnologia cada vez mais individualizada PCs (personal computers), ipods, innears phones, as tendências individualistas são cada vez mais claras.
Para o sujeito não se sentir só e excluído, ele paga qualquer preço para se livrar da solidão e acaba por encontrar-se na solidão que tem o poder de transformá-lo em objeto.
O consumo indiscriminado da internet, dos celulares, das drogas lícitas e ilícitas, o culto exagerado à própria imagem, os relacionamentos virtuais, contribuem para aumentar sua fragilidade. A busca pelo entretenimento como fuga condiciona homens e mulheres a seguirem ideologias que dão a ilusão de felicidade.
A solidão pode ser vivida de maneira destrutiva ou criativa. Pode se converter em fortalecimento do sujeito, no enfrentamento da própria vida ou transformar-se em seu adoecimento.
Heidegger, filósofo alemão, afirma que estar só é a condição natural de todo ser humano. Nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão. Se dela decorre um sentimento de abandono ou de liberdade.
Bachelard, outro filósofo de grande importância e contribuição, em seu livro A Chama De uma Vela, pergunta: “Como se comporta sua solidão”?
O grande desafio que se coloca para a condição de dependência do ser humano, é ser com o outro, sem nele se perder. A capacidade de estar só é exatamente o que resguarda um espaço na presença do outro.
Isso representa reconhecer a dependência inerente à nossa condição e, ao mesmo tempo, manter um campo de autonomia, sem negar a alteridade.
Artistas, escritores e poetas são os que conquistaram e desfrutam da solidão sustentando a angústia inerente ao gesto criativo.
Para tornar a solidão uma aliada, antes é preciso coragem para conquistá-la, e talvez domá-la como se doma um animal selvagem. Assim é possível ao sujeito conhecer a outra face da solidão e estar só, sem estar em sofrimento.
Liberdade é reconhecer nossa condição existencial e criar recursos que permitam, para além da dor e do sofrimento, ações que sejam criativas.
Possibilitar é criar pela nossa própria ação, é o que vem à nossa existência pelo nosso agir. A solidão é o encontro com o vazio existencial e, pode significar, dependendo da maneira como a enfrentamos, sofrimento ou transcendência.