Que a economia mundial já deu os primeiros passos para sair da recessão, ninguém mais duvida. Reza o ditado que depois da tempestade vem a bonança, mas, como o mercado financeiro vive de expectativas, esse período de calmaria parece ter chegado antes mesmo do fim do temporal. Pelo menos no Brasil. Prova disso é a escalada, nos últimos meses, do Ibovespa, principal índice do mercado de capitais que expressa, na forma de pontos, a evolução dos preços das ações mais negociadas da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Nas primeiras semanas de outubro, o Ibovespa chegou a superar os 64 mil pontos. A marca ainda está distante de sua máxima histórica, de 73.516 pontos, atingida em 20 de maio de 2008, mas é um sinal dos bons ventos que têm embalado o sono de muitos investidores. Entretanto, para bater esse recorde, a Bolsa teria de subir, aproximadamente, mais 14,9%, o que gera outra dúvida: há mais espaço para alta dessa magnitude ainda este ano?
Para o professor Aureliano Bressan, do Instituto de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o movimento na Bolsa de Valores está ligado a três fatores: o cenário econômico mundial, os preços das commodities e a elevação do Brasil a grau de investimento pela agência de classificação de risco Moody's. “Tudo isto tende a atrair mais recursos. É de se esperar correção para o ano que vem, mas não é possível quantificá-la”, opina. Ainda conforme Bressan, os 63 mil pontos atingidos pela Ibovespa este ano não devem ser mantidos, a tendência é que caia, mas em um movimento normal na Bolsa de Valores. “Agora é hora de ganhar. Os investidores vão colocar seus papéis à venda, causando movimento massivo, o que naturalmente reduz o preço das ações e provoca queda. Mas depois as coisas voltam ao normal. É a volatilidade comum do mercado de capitais”, assevera o professor da UFMG. Ele diz que para 2010 é difícil prever os movimentos do mercado de ações, mas a perspectiva é de maior elevação em função da retomada de crescimento no pós-crise.
O professor de Finanças Eduardo Coutinho, do Ibmec, endossa o coro dos que não acreditam que o Ibovespa mantenha essa trajetória ascendente até o final do ano. Segundo ele, a tendência é de estabilidade. Ele credita a alta registrada até o momento ao retorno do investidor estrangeiro, mas ressalta que as reações positivas decorrentes dessa volta já foram sentidas pelo mercado de ações. Na opinião do especialista, isso significa que o momento de ganhos extraordinários com investimentos na Bolsa de Valores já passou e que não deve haver grandes alterações nesse quadro até dezembro.
Mas há divergências. Alguns especialistas apostam que, apesar de ser difícil prever o comportamento do mercado de ações, há fôlego para que o Ibovespa suba mais este ano, podendo, inclusive, superar a marca dos 73 mil pontos. É o que afirma o presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais de Minas Gerais (Apimec-MG), José Domingos Vieira Furtado. Ele sinaliza que pode haver certa volatilidade no curto prazo, mas reforça que as perspectivas de alta são boas. “Houve valorização de empresas menores, que foram lançadas recentemente na Bolsa, mas papéis de grandes empresas como Petrobras, Vale e diversas siderúrgicas, que têm peso muito maior, ainda não tiveram valorização. Se isso acontecer, pode haver nova alta ainda este ano”, defende o especialista . O cenário de 2010, porém, deve ser bem diferente, na avaliação do presidente da Apimec. Ele frisa que, devido às eleições, no próximo ano o mercado de ações deve ser marcado pela volatilidade.