Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Entrevista

Medidas incuráveis

Proprietário da sexta maior rede de drogarias do Brasil, Modesto Araujo afirma que o custo do medicamento no Brasil poderia ser 20% menor não fossem os altos tributos e ainda reclama da decisão da Anvisa de retirar das prateleiras os artigos de conveniência. “Eles não sabem explicar o motivo para essa decisão. A Araujo entrou na Justiça e tem certeza de que mais uma vez será vitoriosa.”

Texto: Flávio Penna | Fotos: Pedro Vilela


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Modesto Araujo comanda a maior rede de drogarias de Minas e a sexta na classificação nacional. São 90 lojas próprias, que serão 150 em 2014, e 4 mil empregados, 7 mil daqui a cinco anos. Para este empresário, terceira geração da família que criou a Drogaria Araujo, os negócios vão bem, apesar dos governos – federal, estadual e municipal – com suas políticas, ou falta delas, voltadas apenas para arrecadar, sem estímulos ao crescimento. O comandante da rede centenária de drogarias critica a política que isenta os produtos veterinários e taxa os medicamentos para os humanos. Para ele, ao entrar numa farmácia, é preferível latir do que tossir. Os medicamentos para quem tosse têm impostos elevados.

Num país onde a média de vida das empresas é baixa, como é ultrapassar os cem anos?
A Araujo já passou por duas guerras mundiais, vários planos econômicos, revoluções e crise mundial e, mesmo assim, continua crescendo. Para a gente atingir a tudo isto, é preciso ser verdadeiro herói. O estado, aí em seus três níveis, não ajuda. Todo dia você tem fiscal, Ministério Público. Muitas vezes, fiscais despreparados, ávidos para arrecadar e, em várias situações, cometendo injustiças, fazendo você perder tempo e, pior, perder o foco de seu negócio. Diariamente temos que enfrentar estas situações. Para sobreviver neste mundo de negócios, além de superar as dificuldades que o governo impõe, você tem que trabalhar com uma equipe competente.

É possível crescer apesar do governo?
Eu acho que não se deve ficar preocupado com governo. No nosso caso, por exemplo, um terço de nossas lojas trabalha no regime de três turnos para atender bem a comunidade. E isto tem custos elevados. O que fizemos então foi criar a figura do drogstore, que é autorizado pela lei. Mesmo assim, fomos obrigados a entrar na Justiça, com mandado de segurança, pois a Vigilância Sanitária, primeiro do estado, depois do município, não reconhecia a lei federal. Hoje, este serviço de conveniência com venda de produtos e prestação de serviços, tem aprovação de mais de 80% da população. Mesmo assim a Anvisa quer proibir. Não apresenta uma razão para isto, mas diz que não pode.

Questão de higiene seria uma das razões?
Não, eles não apresentam uma razão lógica. Acho que alguém vendia bebida alcoólica na drogaria e eles pegaram isto como razão para proibir. Ficam batendo nesta tecla, como se a exceção fosse a regra. Acho mesmo que numa drogaria não se deve vender bebida nem cigarro. Que se proíba então a venda destes produtos. Mas por que proibir a venda de água mineral? Isto é uma estupidez, além de inconstitucional. Além do mais, proibir por instrução normativa que não é lei.

A venda de outros artigos representa que percentual no faturamento da drogaria?
Hoje a proporção é 40% de artigos de conveniência e 60% de medicamentos que serão, sempre, o principal dentro de uma drogaria. A conveniência é, podemos dizer assim, quebra galho, prestação de serviço para a população. É uma comodidade. Com o drogstore também você agrega mais faturamento. Aí posso ter mix de preço melhor. Posso ter preço melhor nos medicamentos.

Neste mercado há espaço para o pequeno farmacêutico, aquele de bairro?
Acho que o pequeno vai sempre sobreviver porque ele administra ou sozinho ou com a mulher, os filhos e consegue se manter. Então vão ficar os grandes e os pequenos. Não enxergo mercado para o médio. Ele vai ser engolido. Aqui em Belo Horizonte mesmo tínhamos a Santa Marta que foi comprada por um grupo forte. Tínhamos a Trade e a Oncolens que acabaram. Agora, pessoalmente eu não gosto da ideia de se comprar outro grupo, de fazer fusão. Porque são empresas diferentes, com culturas diferentes e muitas vezes as fusões acabam ficando muita caras. Pessoalmente prefiro crescer num ritmo mais acelerado do que fazer fusão. Abrir as próprias lojas, começando com a mesma cultura. Acho muito perigoso este negócio de fusão que pode fazer você dobrar de tamanho de um dia para o outro. Ninguém está preparado para isto.


“O pequeno vai sempre sobreviver porque ele administra ou sozinho ou com a mulher. Não enxergo mercado para o médio”
“O pequeno vai sempre sobreviver porque ele administra ou sozinho ou com a mulher. Não enxergo mercado para o médio”

A Drogaria Araujo ainda tem características de empresa familiar ou...
Continua sendo uma empresa da família, mas com administração moderna. Não dá para ficar só na família.Temos profissionais especializados, consultorias contratadas,entre elas o INDG. Não nos tratamos aqui como parentes. Temos uma liderança que dá as orientações, que traça rumos. Da família permanecem os conceitos de ética.

No segmento de drogarias o senhor acha possível a existência de empresas de capital aberto ou até mesmo a presença do capital estrangeiro com investimentos diretos, implantando redes de lojas?
Eu acho que pode ser possível a abertura de capital. Nós somos uma empresa de capital fechado e acho que é cedo para pensarmos em abrir. Quanto a presença de redes estrangeiras, nossa experiência é pouco animadora. Tivemos a experiência do grupo Almada, do Chile, que comprou uma rede de drogarias de Curitiba e não se deu bem. Acho que a nossa confusa legislação acaba assustando quem vem de fora. Então as compras e fusões que ocorrem são de empresas nacionais.

Ao setor falta então legislação clara, que dê segurança ao empresário.
Outro dia eu ouvi uma palestra do ex-secretário Wilson Brunner, do governo de Minas, falando sobre a necessidade que o empresário tem de manter um grande número de funcionários apenas para analisar, entender e cumprir a legislação. Recentemente os governos federal e estadual lançaram novas normas de controle fiscal que geraram problemas absurdos para adequarmos nossos sistemas ao deles. Estas coisas geram muitos custos. Está na hora 
de simplificar a legislação, de simplificar para o contribuinte.

Está na hora da reforma tributária?
É, mas eu acho que ela não vai sair nunca. É muito jogo de interesse e eu acredito que é preciso ter político de mais pulso. A gente viu agora um exemplo muito bom que foi a redução do IPI. Que deu grande impulso ao mercado automobilístico. Então se o governo reduzisse esta carga tributária nós venderíamos mais, gerando mais impostos.

“O médico prescreve e muito balconista substitui por produto similar. O problema são as bonificações”
“O médico prescreve e muito balconista substitui por produto similar. O problema são as bonificações”

O senhor acha que as pessoas compram ou deixam de comprar remédio por causa do preço?
Acho. Para se ver como é um absurdo isto, questão de oito anos atrás, no governo Itamar, foi sancionada lei que reduzia de 18% para 12% o imposto incidente sobre medicamentos. Isto não foi regulamentado pela Secretaria da Fazenda até hoje. Ficam preocupados em perder arrecadação. Deixam de ver o outro lado, que é dar acesso ao medicamento. Ir ao médico todo mundo vai, seja no SUS, por meio de plano de saúde, consulta particular. Agora, comprar o medicamento nem todo mundo consegue. E aí a situação pode complicar. Por exemplo, você está gripado, vai ao médico, ele receita um remédio, mas você não compra. Deixa de tomar o medicamento e sua gripe vira pneumonia e você tem que ser internado. Aí o estado vai gastar muito mais.

Há quem diminua a dosagem recomendada pelo médico para reduzir o gasto com o medicamento.
É mesmo. E aí gasta com a compra do remédio e não consegue resultado com o tratamento. Aliás, nesta área tributária tem cada absurdo. Por exemplo, barco, helicóptero e vários outros produtos são isentos de imposto. Medicamento, não. Aliás, não precisa ir muito longe não. O produto veterinário é isento de ICMS e o medicamento para as pessoas paga. Eu até brinco com esta situação dizendo que se você entrar latindo na farmácia, você paga menos. Se entrar tossindo, paga 18% mais.

Remédio custa caro no Brasil?
Nos Estados Unidos e na Europa os remédios custam mais caros que no Brasil. Mas aqui ele poderia ser pelo menos 20% mais barato se houvesse isenção de impostos. Acho que remédio não deveria pagar imposto. Leite e remédio não deveriam ter ICMS. Veja aí a Farmácia Popular. Ela tem uma lista pequena, mas funciona bem. Nela a pessoa, com receita médica, pode pagar até 10% apenas do medicamento. Por isso é um sucesso. Outro projeto que deu certo foi o dos genéricos que atende bem e tem boa aceitação.

Remédios roubados circulam no mercado?
O mercado já trabalhou muito com produto roubado. Hoje a gente sabe que ainda há, porque tem hora que aparece no mercado algum milagreiro, com preços abaixo do preço de compra. A gente sabe que é humanamente impossível alguém fazer aquele preço. O produto roubado tem um problema muito sério que as pessoas deixam de considerar. Campinas, por exemplo, era o centro deste comércio. Os medicamentos vinham para Belo Horizonte geralmente em caminhões com lonas. Debaixo daquela lona, com o sol, a temperatura chegava a 60 graus ou mais. Então o cliente estava comprando remédio barato, mas que tinha perdido o efeito. 

É comum o médico prescrever medicamento e o balconista ou farmacêutico venderem outro?
Infelizmente isto é fato. O médico prescreve e tem muita farmácia que substitui o que o médico prescreveu por produto similar. O problema são
as bonificações. Os balconistas, especialmente de farmácias menores, ganham para repassar os medicamentos bonificados. Antigamente tinha também os erros de leitura. Você tinha que ser tradutor para entender as receitas médicas.
Hoje os problemas neste aspecto diminuíram com as receitas feitas nos computadores.

Qual sua expectativa política para 2010?
Olha, eu faço uma força, torcida enorme para que o nosso governador seja presidente da República. Nestes dois mandatos do Aécio Neves, Minas mudou. Convivemos com a equipe do governo; é formada por gente séria, competente.

Mas o Serra foi um bom ministro da Saúde...
Realmente foi um bom ministro, mas prefiro o Aécio. 


 
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