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CidadeApto 3016Há quase 40 anos, foi inaugurado em Belo Horizonte o Conjunto JK, um dos maiores prédios residenciais do Brasil. A Viver Brasil bateu na porta de alguns dos cinco mil moradores
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela
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Sem queixas, nem incômodos. Vive, tem amigos no prédio, vai ao chá da tarde promovido de 15 em 15 dias, no salão de festas do JK. Junta-se a tanta gente só. É andar pelos corredores do prédio da rua Timbiras, com seus 23 andares, afamado, junto com o da rua Guajajaras, em tempos não tão remotos de prostituição, tráfico de drogas, suicídios, favela verticalizada, e conhecer a ex-vendedora Vânia Maria Gonçalves, com suas histórias. “Donos de prostíbulos compraram apartamentos no prédio para alugar. Encontrava travestis nos elevadores. Hoje não, subiram o valor do condomínio. Há superlotação de idosos”, diz ela, a terceira moradora do conjunto. Foi para Brasília, Goiânia, Palmas, Belém, Miami e voltou ao JK. “Minha vida é aqui. Quando tomo café à frente desta janela parece que estou em Manhattan.” A sensação norte-americana se estende ao enorme corredor, do amplo apartamento, com fotos de Marlon Brando, Elvis Presley, Marilyn Monroe. Tem 400 DVDs já assistidos, que começa a revê-los. Os dias transcorrem entre um filme e outro, ao cenário alongado pelas enormes janelas com Belo Horizonte, que lembra o condado de Nova Iorque, a ajuda à igreja católica. Perpassa a ficção e chega à realidade da vida como ela é, com seus vários enredos, singulares, deste aglomerado de pessoas diferentes. |
Conchester Camppi, a dona Concha para simplificar nome árabe tão destoante do vocabulário português, faz o seu papel tão bem na realidade que foi parar em documentário e continua na sequência infalível de cada dia. Cuidava de gatos em casa, proibida após ficar em coma por mais de uma semana, doou-os, passou a alimentar os bichos que viviam no condomínio, depois na vizinha praça Raul Soares. Eram mais de 30. Quando a praça foi fechada para reforma, ajudou a transferi-los para ONG de animais abandonados. “Mas um a gente não conseguiu tirar nem a muque”, diz. Ganhou crachá de livre acesso ao local durante as obras para alimentar este gato arisco, que divide com ela as atenções do filme Concha e Machão, de César Mendonça, exibido no Youtube. Todos os dias de manhã e à tarde, lá está ela, essa paulistana mais mineira e kubistschequiana impossível, com seu Machão e a Chininha, gata que apareceu na região e virou companheira de seu protegido. Conversa, dá água, comida e de cima, de seu apartamento 3016 no 30ª andar, os vigia de binóculos potentes. “Não sou solitária, tenho muitos amigos, mas não gosto de ir à casa de ninguém”, afirma dona Concha, sem filtrar a sinceridade. Nem de criança. “O Machão também, quando chega um menino perto, ele se arrepia e logo aviso para sair dali.” Seu documentário de vida, de quem já passou pelos Estados Unidos, São Paulo e quatro apartamentos no JK, continua a ser rodado neste lugar que pretende ser fixo. “Sou muito feliz aqui.” Fica dias e noite por lá como os outros, no sobe e desce dos elevadores nesta cidade vertical, perto de tudo. “O grande problema é carro. A gente não precisa dele”, diz o bancário aposentado Maurílio Tavares do Nascimento. Divide o apartamento com a filha e retém as lembranças de época passada em sua terra São João Nepomuceno e Juiz de Fora, na Zona da Mata, Contagem, os casamentos desfeitos. “No JK a gente tem convivência diferenciada.” Todos os dias encontra com os amigos no salão de festas, conversa, toma cerveja, escreve mais um capítulo da vida, vê quem trabalha nesta quase cidade, são cerca de 100 funcionários no conjunto, e além daquelas pilastras de cimento e vidro. |
Cidade na verticalConfira números elevados do Conjunto JK
Bloco A
Bloco B
Fonte: Assessoria de comunicação do conjunto JK |