Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Ainda há riscos?

Se a recuperação for muito acelerada, poderá haver pressão inflacionária, o que levará o Banco Central a elevar as taxas de juros visando tanto conter a inflação quanto manter as condições de crescimento...

Texto: Paulo Paiva
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Paulo Paiva -

Após um ano da crise a economia mundial indica sinais firmes de recuperação. Segundo estimativas recentes do FMI, o seu crescimento em 2010 voltará a 3%, nível semelhante ao de 2008. Esta é uma ótima notícia. A crise está superada, graças à ação coordenada de vários países e ao desempenho das economias emergentes, principalmente das asiáticas, lideradas por China e Índia.

O Brasil segue no mesmo caminho. De fato, a recessão aqui durou apenas dois trimestres (o quarto de 2008 e o primeiro de 2009). As estimativas de crescimento da economia brasileira para 2010 situam-se no intervalo entre 3,5% e 5%.

Então, já estamos em uma trajetória de recuperação estável e duradoura? Entendo que ainda não. Existem à frente vários riscos e questões não resolvidas.

Primeiro, o epicentro da crise ocorreu nas economias avançadas, principalmente, em função do alto nível de alavancagem das instituições financeiras e da difusão de operações com derivativos à margem da supervisão bancária. Até hoje ainda não foi encontrada uma solução para o controle de operações em mercados mundiais. O FMI não tem, nem tão pouco o BIS, mandato para exercer controle e supervisão sobre essas operações. Se a expansão da economia em escala global for muito rápida, nada irá impedir a reprodução de comportamento que gerou a crise.

Segundo, a situação de vários bancos americanos e de outros países ainda não foi totalmente sanada. Parte dos ativos tóxicos ainda está em seus balanços. A capitalização feita com recursos públicos agravou o desequilíbrio fiscal. Há ainda um enorme trabalho para recapitalizar esses bancos e excluir de seus balanços os ativos de alto risco.

Terceiro, a intervenção dos governos com a transferência de recursos públicos para atividades privadas foi fundamental para evitar a depressão. O restabelecimento da normalidade com a saída do setor público dessas atividades e a busca do equilíbrio fiscal será uma tarefa no mínimo complexa. Se, por um lado, a rápida retirada do setor público fragiliza o processo de recuperação e precipita a volta da recessão; por outro lado, a demora na busca do equilíbrio fiscal resultará em inflação e, em consequência, queda da atividade econômica. Nesse contexto é difícil assegurar que a recuperação será sustentada. Há riscos não triviais pela frente.

No caso específico da economia brasileira, que se mostrou preparada para enfrentar a crise, há também alguns riscos domésticos a espreitá-la. Se a recuperação for muito acelerada, poderá haver pressão inflacionária, o que levará o Banco Central a elevar as taxas de juros visando tanto conter a inflação quanto manter as condições de crescimento no longo prazo. Ademais, o aumento dos gastos correntes do governo não só prenuncia desequilíbrio fiscal futuro como também inibe hoje a realização de investimentos em infraestrutura que efetivamente contribuiriam para o crescimento econômico.
Enfim, a boa notícia é que saímos da tempestade. A má notícia é que ainda há nuvens negras pela frente.

 
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