Terça, 22 de Maio de 2012
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Reportagem

Do morro ao estrelato

Após o sucesso em Cidade de Deus e Tropa de Elite, novos atores formados pelo projeto Nós do Morro, na favela do Vidigal, estreiam no cinema

Texto: Ana Magalhães | Fotos: Alexandre C. Mota


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"Vem aqui para você conhecer meu esconderijo." Fred Pinheiro me acompanha pela saleta pequena de seu escritório, repleta de fotos e prêmios do grupo de teatro que ajudou a fundar há 23 anos no Vidigal, favela que insiste em subir o morro Dois Irmãos na zona sul do Rio de Janeiro. Nas fotografias e recortes de jornal, rostos se fazem conhecidos pelo grande público. Vários atores dos filmes Tropa de Elite e Cidade de Deus estão ali, naquelas paredes abarrotadas. Outros, também moradores do morro, agora têm contratos firmados com emissoras de TV e ganharam destaque em novelas como Caminho das Índias ou Três Irmãs.

Pinheiro chora de emoção cada vez que vê uma estreia do grupo e toda vez que vê alguns de seus atores brilhando na TV ou no cinema. Pois que seus olhos cor-de-azeitona se preparem para as lágrimas. Em outubro estreia no cinema o filme No meu Lugar, dirigido por Eduardo Valente, produzido por Walter Salles e que tem no elenco a atriz Luciana Bezerra, moradora do Vidigal e uma das filhas do grupo. No ano que vem, outra grande participação da trupe estará na telona. O filme Cinco vezes Favela, agora por nós mesmos, produzido por Cacá Diegues, é composto por cinco curta-metragens escritos, representados e dirigidos por moradores de favelas cariocas. Um dos curtas – Acende a Luz – tem roteiro e direção de Luciana Bezerra e atuação de vários integrantes do Nós do Morro.


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Vidigal
Vidigal

Pinheiro fala da companhia de teatro que fundou com orgulho de quem enfrentou muito perrengue para sustentar esse projeto, e que agora o vê tão sólido como o casarão onde funciona a sede. Ele se impõe por entre barracos. São três andares e um jardim ao lado, com vista completa para a praia de Ipa­nema e o horizonte sem fim. Pinheiro tem no currículo trabalhos como diretor e iluminador de grandes estrelas, como Marília Pêra. Foi inclusive numa das viagens que fez com a atriz que ele topou a proposta de montar com seu amigo Guti Fraga o grupo de teatro no Vidigal. “Achei a proposta meio maluca, mas não tem como falar não para o Guti.” Eles começaram no improviso, em parceria com o padre austríaco-alemão Hubert Leeb em 1986. Hoje o grupo tem 433 alunos de oficinas de teatro, cinema, capoeira, canto e circo, além de prêmios vários, inclusive Menção Honrosa da Unesco conquistada em 1989.

O mais gratificante para Pinheiro é a criação de novas oportunidades para os moradores do morro. “O povo brasileiro é muito talentoso. E estamos dando oportunidade para esses meninos mostrarem seu talento”, comenta o artista e administrador do grupo, que morou no Vidigal durante 10 anos. Na varanda do Casarão, aparece Luciana Bezerra, correndo pra lá e pra cá. Além de atriz, roteirista e diretora, ela coordena o setor audiovisual do Nós do Morro. Alta e esguia, seus cabelos cacheados estão presos com duas marias-chiquinhas, o que lhe dá um jeitinho de criança. Está nesse momento terminando de dirigir as filmagens de Cinco Vezes Favela, escrevendo uma autobiografia (para a coleção organizada por Heloísa Buarque de Hollanda sobre pessoas da favela que se projetaram) e cuidando de todo o crescente trabalho audiovisual do Nós do Morro.

Fred Pinheiro: “Estamos dando oportunidade para esses meninos mostrarem seu talento”
Fred Pinheiro: “Estamos dando oportunidade para esses meninos mostrarem seu talento”
Apesar de estar em franca ascensão na carreira artística – em 2003 vários prêmios pelo curta Mina de Fé –, Luciana tenta tirar o glamour da profissão. “As pes­soas se projetam muito na carreira artística. Acham que as pessoas que despontam ficaram ricas e na verdade não é assim. O artista é um peão, acorda 6h da manhã, faz milhões de coisas por dia, e vai dormir à meia-noite. Além disso, a grana de um projeto muitas vezes tem que ser esticada por dois ou três meses mais.” Nascida na Rocinha e moradora do Vidigal há 27 anos, Luciana conta que a maior transformação que o Nós do Morro gerou em sua vida é no âmbito intelectual. “A grande mudança é a possibilidade de estudar e aprender. Outra coisa muito forte do grupo é que você se transforma em um formador de opinião. Nas aulas que dou, posso não conquistar meus 50 alunos, mas conquisto pelo menos 10”. Há também um trabalho na autoestima daquelas crianças e jovens que nem sempre tiveram oportunidades ou possibilidades de escolha. Essa autoestima se espalha no círculo familiar e acaba atingindo toda a comunidade. “O Nós do Morro e o Vidigal caminham lado a lado. A grande maioria da comunidade está aqui no grupo, seja fazendo oficinas ou para ver as peças”, conta com voz doce e rouca Hiane Neves, 14 anos e há três fazendo o curso de preparação de atores e de canto. Ela se inspira especialmente em talentos como Luciana, Thiago Martins, Roberta Rodrigues, Babu Santana e Roberta Santiago, todos integran­tes do grupo que vêm ganhando destaque na TV e no cinema.
Projeto estimula a autoestima de jovens que nem sempre tiveram oportunidades
Projeto estimula a autoestima de jovens que nem sempre tiveram oportunidades

O sucesso do Nós do Morro começou a conquistar o asfalto e a cidade especialmente na década de 90. O diretor Cacá Diegues conheceu o grupo em 1993, quando realizava o filme Veja essa Canção. “Precisava de atores moradores de comunidades e soube do Nós do Morro. Fiquei encantado com o que estavam fazendo e desde então me muito ligado a eles”, conta o diretor de Bye Bye Brasil. Prova disso é que Cacá passou os últimos quatro anos num projeto com cinco comunidades do Rio de Janeiro para realizar o ainda não finalizado Cinco vezes Favela. “Descobri talento e originalidade. Eles fazem filmes muito diferentes, contribuem para o cinema brasileiro”.

Depois vieram vários outros diretores e produtores de TV. Inclusive Fernando Meirelles, diretor do aclamado Cidade de Deus, que contou com participação de atores do Nós do Morro. “Fiquei impressionado com a energia do grupo e resolvemos convidar o Guti (Fraga, dono da ideia e um dos fundadores do gru­po) para preparar os atores de Cidade de Deus, coisa que ele fez brilhantemente”, elogia Meirelles.

Crianças participam de oficina do projeto
Crianças participam de oficina do projeto
No famoso Casarão do Vidigal, Fred Pinheiro tranca a saleta cheia de fotos e prêmios, caminha pela varanda, vê o horizonte infinito e suspira. Ele espera que a CPI da Petrobras, o maior patrocínio do grupo, e outros recentes acontecimentos políticos não compliquem os 23 anos de vida dedicados a dar oportunidades a quem nunca as teve. Mas no fundo, no fundo, ele não está tão preocupado. Além de saber que as CPIs costumam terminar em pizza, Pinheiro acredita que todo esse sucesso é conquistado por gente batalhadora e guerreira. Gente que não desiste nunca.

 
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